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Bolsonarismo, tortura e morte

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 11 horas
4 min de leitura
Imagem: Print de postagem no Facebook, 26/10/2026
Imagem: Print de postagem no Facebook, 26/10/2026

Todos sabem – pois não há como não saber, tantas foram as ocasiões em que isso veio a público – que Jair Bolsonaro e seus filhos admiram o torturador Ustra e lhe prestam tributos sempre que alguma ocasião se apresenta ou eles a criam.

 

O coronel Carlos Brilhante Ustra foi um dos principais e dos mais cruéis carrascos da oposição à ditadura militar que vigorou no Brasil de 1964 a 1985. Ao cultuá-lo, os Bolsonaros se colocam como uma espécie de mal que a democratização não cortou, como deveria, pela raiz; eles insistem na volta de um regime de total intolerância e perversidade, abominando os Direitos Humanos, desejando alterar a Constituição nos seus tópicos humanistas e progressistas. De fato, a anulação (tortura) e a eliminação (morte) do adversário (tido como inimigo) político mais do que apenas parece ser um método apreciado e talvez (que se lembre o caso Marielle Franco) adotado pelo bolsonarismo no seu fazer político.

 

Não é fácil saber se a postura retrógrada e perversa do bolsonarismo, praticada e repetida à larga sob amparo de empresários, religiosos e imprensa, contaminou metade da sociedade brasileira, ou se essa parcela da população é, ela mesma, em si, a portadora dos elementos que compõem o caldo de cultura do qual brotou, floresceu e frutificou a extrema-direita no país.

 

Imediatamente após a derrota de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2026, as redes sociais foram invadidas por dois movimentos medonhos, de um barbarismo sem tamanho: o primeiro, sugerindo a demissão e não contratação de pessoas simpáticas ao PT, rotuladas de inimigas dos empresário, e sugerindo, também, o boicote de proprietários de comércios e prestadores de serviços que apoiaram a eleição de Lula; o segundo, anunciando orgulhosamente o corte de todo tipo de ajuda aos necessitados pelas empresas.

 

Trata-se, antes de tudo, de um comportamento que a Constituição e a legislação brasileira proíbem e que, portanto, enseja que os praticantes sejam chamados à responsabilidade, não havendo dificuldade para identificá-los, já que estão agindo às claras por meio de postagens nas redes sociais.

 

Mas sobretudo trata-se do escancarar de atitudes frontalmente desumanas (levadas a cabo inclusive por gente que se diz fortemente religiosa, cristã), típicas do que já se chamou de política do medo e da morte (necropolítica): o que se faz ao desempregar uma pessoa ou inviabilizar seu pequeno negócio (ou grande, que seja) é asfixiar economicamente – matar lentamente, torturar até a morte; o que se faz ao negar ajuda aos extremamente necessitados (ao cancelar iniciativas filantrópicas) é abandonar quem sem essa ajuda sofrerá sem dó.

 

Fica claro que quase a metade do eleitorado brasileiro – e, por aproximação, metade da população do país – está imersa numa realidade selvagem, que não se explica pela miséria ou pobreza que podem reagir instintivamente com brutalidade à brutalidade que vivem, pois o comportamento de animal predador e vingativo se concentra em níveis patrimoniais e faixas de renda tipicamente de classe média urbana – está relacionada ao pequeno e médio empresariado nacional e a rentistas, cuja prosperidade, nas últimas décadas, deve muito, senão tudo (basta analisar os dados macroeconômicos com um mínimo de competência e isenção), à manutenção dos níveis da atividade econômica (emprego e renda) através de política econômica de ativação da demanda (keynesianismo, que faz uso deliberado e liberal da intervenção do Estado). Intervenção esta que a vertente neoliberal do pensamento econômico ataca, sob aplausos dos pequenos e médios patrões, revoltados contra Lula e seus eleitores, por acharem que estes desrespeitam ou não reconhecem seus “méritos” de destemidos e bem-sucedidos empreendedores-empregadores-pagadores de tributos (desde que os órgãos de fiscalização tributária não fechem os olhos nem para piscar).

 

O Brasil não tem nada a ganhar – muito pelo contrário: tem muito a perder – com o comportamento e as atitudes intolerantes dessa massa de trogloditas desesperados e desrespeitadores da Constituição Federal (Artigo 5º, Inciso VIII: "ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política."/Artigo 6º: O trabalho é reconhecido como um direito social fundamental), das Constituições Estaduais, das Leis Orgânicas Municipais e de todo o aparato legal do país. É, pois, preciso que sejam devidamente submetidos aos rigores da lei, ao mesmo tempo em que sejam publicamente contestados pela outra metade da população, que respeita o Estado de Direito.  

 

O bolsonarismo, com sua afeição pela tortura e pela morte e com sua intolerância agressiva pela diferença (de pensamento, de culto, de opinião política etc.), precisa ser devidamente enfrentado e banido da política brasileira. E isso só será possível com a mobilização diuturna da sociedade civil e das instituições progressistas contra ele, pois nos espaços formais do poder a peste ganhou força nas últimas eleições legislativas para governadores e para prefeitos.


P.S.1: É muito grave uma senadora eleita desconhecer ou desrespeitar a Constituição, e conclamar ao desrespeito a ela, antes mesmo de assumir. Portanto, cabe à senadora desautorizar que grupo de apoio a sua candidatura/mandato (https://www.facebook.com/michellebolsonarooficial) envolvam seu nome em ilegalidade.


P.S.2: Aguardando reação dos sindicatos e centrais sindicais.

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