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Após as eleições de 04/10/2026, começar de novo

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 3 horas
8 min de leitura

Imagem: Wix
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As eleições de 04/10/2026 desenharam um novo futuro para o Brasil, independentemente do resultado do segundo turno, a realizar-se no dia 25/10/2026. E trata-se de um futuro nada brilhante, nada tranquilo, em nada semelhante ao que, de boa-fé (nem todos, claro), milhões de eleitores e eleitoras tiveram em mente ao sufragar Flávio Bolsonaro e sua família, além de numerosos candidatos de direita e extrema direita para governar diversos Estados e para decidir leis federais e estaduais em todo o país.

 

O poder, no Brasil, pelos próximos quatro anos (com potencial para ir além), definitivamente, estará nas mãos de partidos, grupos e indivíduos contrários à intervenção do Estado na economia, avessos às políticas sociais, detratores das mais elementares características da democracia, propensos a rifar sem o menor constrangimento a soberania nacional.

 

Sim, alinhados aos avanços globais da direita e da extrema direita, neste conturbado momento histórico de redefinição da ordem mundial sob os escombros da hegemonia americana, os políticos e partidos conservadores e reacionários dominarão o Poder Legislativo em nível federal (Senado e Câmara dos Deputados), praticamente impedindo um eventual governo progressista (caso Lula vença) de implementar seus programas e projetos. E serão capazes, com a nova correlação de forças, de redefinir a composição do Supremo Tribunal Federal, fazendo uso do impeachment dos membros da Corte que não lhes convenham – isso não sem risco de uma profunda crise institucional. Materializada essa hipótese, serão dois poderes contra um, em vez de três poderes harmônicos, cada qual cumprindo suas diferentes funções, como previsto na Constituição e alinhado com a teoria democrática liberal.

 

Tais forças hegemônicas em nível federal ainda serão alavancadas pelos governadores a elas alinhados, muitos fartamente amparados por legislativos (deputados estaduais) hegemonizados por seus iguais. Serão, adicionalmente, amplificadas, para completar, pelos milhares de prefeitos e vereadores vencedores das últimas eleições municipais.

 

Poucas vezes (se é que houve alguma) na história do país uma ideologia materializada por indivíduos, grupos e partidos coesos na sua visão de mundo e no seu modus operandi, internacionalmente articulada, conseguiu tamanha força. E, pior, fazendo uso de procedimentos democráticos (eleições), e não lançando mão de um golpe militar (como vinha sendo a “tradição”), algo possível (tanto no Brasil como em outros lugares mundo afora) somente com base em manipulação do eleitorado despolitizado ou mal-informado, além de aflito, das atuais democracias de massa fragilizadas pelas possibilidades criadas pelas novas tecnologias da informação e da comunicação, baseadas na rede mundial de computadores.

 

Embora não inútil, aliás extremamente útil para que se possa ter alguma esperança, a possível vitória de Lula, no segundo turno, será uma pedra no caminho da direita e da extrema direita, mas uma pedra insuficientemente grande para evitar retrocessos sociais e políticos, além de econômicos e diplomáticos. E, ademais, uma pedra que talvez o eleitorado progressista terá grande dificuldade para inserir no caminho aberto para a direita e a extrema direita: em todas as ocasiões em que a decisão careceu de um segundo turno, no Brasil, o candidato com vantagem no primeiro turno ganhou. A única diferença, desta vez, é a gravidade da situação: sem Lula, as forças em torno do chamado bolsonarismo poderão ter em suas mãos os três poderes em nível federal: já dominam o Legislativo, ganharão o Executivo, terão o Judiciário porque o novo Presidente indicará vários novos ministros e o Legislativo poderá retirar um ou outro por meio de impeachment. Isso, no poder central, mais governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores nos outros níveis da federação, não sobra margem de manobra para nenhuma outra força política: todos os demais não conseguirão mais do que espernear e gritar, em vão.

 

A oposição se verá em situação parecida com a que se encontrava sob o “mal matado” regime militar: de mãos atadas; talvez até ameaçada de extinção, como naqueles tempos, pois não se sabe ainda (embora se possa suspeitar) que tipo de aliança a direita e a extrema direita farão com as forças armadas, que contam com atores políticos recentemente próximos, senão no centro, de uma tentativa frustrada de golpe, pela qual, aliás, foi condenado o chefe da família Bolsonaro, Messias, ele, como os filhos, admirador de Ustra e ferrenho defensor da ditadura e da truculência na política.

 

Sob tal constrangimento, não resta às forças progressistas senão começar de novo. Ou seja, fazer, outra vez, o que foi feito contra o regime militar, até derrubá-lo: um trabalho de base junto à população, que implica uma “repolitização democrática” da prática política cotidiana, nesse processo reconstruindo o que, naquela época se chamava “voz e força das ruas”, que se antepunha (sob risco de prisão e morte, nos idos de 1960 a 1980) às decisões parlamentares e governamentais desfavoráveis às massas populares. Massas que, politizadas e mobilizadas se constituíram, no passado recente, em poder popular, para muito além do poder formal do voto (aliás, sob o regime militar, bastante restrito).

 

Mas há um nó difícil de desatar para almejar começar de novo tendo por base um “poder popular”, que se expresse nas ruas e praças (nos espaços públicos, fisicamente falando, em manifestações, protestos, greves, ocupações, operacionalmente falando). O nó é que as relações de poder se desviaram para ambientes virtuais que, em vez de facilitar, dificultam o diálogo e o debate consistentes e a formação de consensos e alianças suficientemente sólidos e minimamente duradouros. A “voz do povo” não se ouve mais nos comícios, manifestações de rua e protestos presenciais; ela foi “canalizada” para as redes sociais e espaços virtuais, nos quais dificilmente é possível, a partir de posicionamentos individuais, chegar a propostas e projetos coletivos e à ação conjunta efetiva. As TIC’s, que poderiam ser instrumentos potencializadores da disseminação da informação e um agilizador dos processos de interação têm se revelado tantas vezes, ao contrário, armas para desinformar e manipular e modos de promover a preguiça frente às necessidades de “levantar a bunda da cadeira” e se juntar aos demais para tratar de assuntos de interesse coletivo (Pierre Levy errou no diagnóstico!).

 

Até agora, a impressão que se tem é que as TIC’s não serão nunca capazes de colocar nas mãos dos atores políticos progressistas (democráticos e republicanos, no mínimo) tudo aquilo que era colocado pela movimentação política presencial do povo, nas ruas e praças (poder real de base, numa democracia), na tentativa de influenciar os gabinetes (poder formal do Estado de Direito). Quando muito, e com enorme dificuldade, já se sabe, pela experiência até aqui, as TIC’s podem, no máximo, se bem utilizadas, melhorar as condições para a disseminação da informação e agilizar os processos de mobilização. Isso se o letramento digital progredir e se o acesso às tecnologias correspondente se ampliar.

 

Isso quer dizer que “começar de novo” a lutar pela superação de uma correlação de forças que está impedindo a ação eficaz dos indivíduos e grupos progressistas e ameaçando deixar nas mãos da direita e da extrema direita o poder definidor das condições de vida de todos, no país, deteriorando-as social, econômica e politicamente, esse “começar de novo” requer levar em conta e lidar adequadamente com a nova realidade do poder face às TIC’s (internet, redes sociais, enorme massa de dados facilmente acessáveis e nem sempre confiáveis, monopólios dominando tudo isso etc.). E levar em conta, também, definindo estratégias adequadas para poder avançar face a isso, que conceitos e ideias como classe, trabalho, sindicato, partido, povo (e poder popular, por extensão), Estado e suas funções, mercado e empreendimento, educação, consciência política, entre outros, fundamentais para iluminar a ação política, não significam, concretamente, o que significavam até o final do século XX.

 

Desatar os nós aqui identificados (que não são os únicos) não é tarefa para pouco tempo, assim como não foi chegar ao ponto de haver no Brasil uma oposição capaz de derrubar o regime militar e escrever uma nova Constituição (de 1988), mas é preciso começar já, no processo de disputa da Presidência da República envolvendo Lula e o outro candidato, que é o mais expressivo produto de um período que bem pode ser dito de “despolitização da política brasileira”, sutilmente levada a cabo por entidades como igrejas pentecostais, alas católicas conservadoras, organizações de incentivo a uma específica modalidade de empreendedorismo que resulta em enganos ou subemprego disfarçado, think tanks disfarçadamente voltados ao questionamento do papel do Estado, escolas e universidades promotoras do aprendizado técnico sem qualquer cuidado com outros aspectos da vida, grupos hegemonizados pelos mais variados tipos de digital influencers etc., todas geradoras de idiotas, no sentido grego antigo da palavra (idiōtēs, que designa a pessoa que se dedica exclusivamente à sua vida privada e recusava-se a participar da vida pública e política da cidade ou pólis).

 

Desesperar, jamais! Ficar parado, esperando tudo mudar, também não. Agir sem pensar ou perdendo de vista a necessária busca da melhor vida coletiva possível, nunca. Temos um país por construir e a ser mantido como nosso. Temos nossas vidas a serem vividas com dignidade e alegria, de preferência fraternalmente. “Liberdade, igualdade e fraternidade” hoje parecem muito pouco, mas, ao mesmo tempo, longe demais. Não nos desviemos! Não nos separemos! Não permitamos que nosso máximo de capacidade de aglutinação sejam os identitarismos fechados em si, de tal modo que nada mais se tornam do que uma contradição nos próprios termos: individualismo egoísta grupal. É preciso voltar a ver o todo, o estratégico, o rumo que leva a um futuro desejável do ponto de vista social, coletivo. Voltar a vê-lo e desejá-lo, de maneira a atuar em busca dele.

 

A tão debatida (nos meios acadêmicos) crise de representação, que mina as democracias representativas de massas há muito tempo e, hoje, muito mais, com a mediação dos instrumentos da era digital, explodiu nas nossas caras no último dia 04 de outubro. A rejeição de mulheres como Benedita da Silva e Marina Silva a favor de Michele Bolsonaro e Bia Kiks é absolutamente sintomática: saem duas biografias com alta densidade política e potencial representatividade e entram duas figuras sem qualquer lastro a não ser aquele derivado de uma onda de irracionalidade quase histérica que invadiu a política brasileira. A família Bolsonaro inteira, nesse movimento, foi alçada a um nível de poder que nem a família real brasileira chegou a ter. A República derrotou a monarquia e mandou os Bragança embora. Para agora colocar rebotalhos em seu lugar? Gente muitíssimo pior que os próprios militares do golpe de 64, sem projeto algum para o povo, subserviente à potência vizinha comandada também pelo homem que descredenciou a democracia americana como modelo de regime político para todo o mundo. Gente que não representa senão a si mesma e, ainda assim, muito mal.

 

Que Lula, globalmente admirado pelo que tem feito, tenha que, agora, disputar com o insignificante e inútil Flávio Bolsonaro, é prova inequívoca da disfuncionalidade da democracia representativa convencional brasileira, que infelizmente abandonou seus admirados esforços de aprofundamento democrático-popular que  a caracterizaram nos anos 1980 e 1990, orçamento participativo e conselhos populares à frente.

 

A hora é de juntar peças de um quebra-cabeça muito complexo e intrincado. Cada um de nós, preocupados com o futuro, incomodados com o avanço do fascismo (e é disso, mesmo, que se trata, como aconteceu no entre-guerras, mas sob outras condições históricas), é capaz de raciocinar e ter em mãos uma, duas ou três pecinhas dele. Não dá para fazer nada com elas! É preciso aparar as arestas de cada uma delas, por meio do debate, e em seguida desenvolver esforços para encaixá-las. Humildade e coragem, inteligência e sensibilidade têm que ser os norteadores da nossa ação. Reduzir as hostilidades, aplainar as certezas absolutas, ver o outro – mesmo o pobre de direita, mesmo o “burro” – para ir, aos poucos, construindo consensos capazes de reverter a atual correlação de forças é a mais profunda necessidade do momento. O que, então, fazer? E como? Contando com quem? No âmbito de que instituições e organizações da sociedade? Com que tipo de articulação entre as instâncias formais do poder e os potenciais espaços de poder popular? Há muito por responder e, enquanto debatemos, fazer. Podemos tentar ou podemos desistir. Será que desistir é opção?

2 comentários

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César Henrique Nadotti
César Henrique Nadotti
há uma hora

Nessa era das TICs, as coisas acontecem em velocidades muito diferentes daquelas a que estávamos acostumados, Pires.

Alinho-me plenamente com sua análise, mas é possível que, enquanto formulamos nossos diagnósticos e planos de ação, sejamos reiteradamente surpreendidos por novos fenômenos produzidos e impulsionados pelas redes sociais. O conteúdo parece valer cada vez menos do que a forma. Na verdade, conteúdos deformados, quando embalados da “maneira certa”, são mais facilmente aceitos e se espalham como rastilho de pólvora — e em profusão.

O desafio é gigantesco. E, enquanto não resolvemos esse enigma, precisamos superar rivalidades, reduzir as disputas internas e construir alguma capacidade de resposta coletiva diante de uma dinâmica que se transforma muito mais rapidamente do que nossas estruturas e…

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Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 13 minutos
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Respondendo a

Rapaz, é isso mesmo. Seu comentário cuidadoso e oportuno me ajuda a ver mais e melhor. É assim, pedacinho por pedacinho, que poderemos melhorar nossa visão e, por extensão, nossa ação. Abraço, força aí!

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