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  • Foto do escritorValdemir Pires

Uma aprendizagem

Atualizado: 13 de jan.



Sobre Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice LISPECTOR, (São Paulo: Mediafashion, 2016, 142 p.)

 

            Como todo livro de Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres é uma fonte generosa de frases dignas de nota, como esta: “Existir é tão completamente fora do comum que se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos.” (p. 139); ou esta: “Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar.” (p. 35); ou ainda esta: “...faço poesia não porque seja poeta mas para exercitar minha alma, é o exercício mais profundo do homem.” (p. 83).

            É de vida e de morte que se trata neste curto romance de 1969. E de amor entre a vida e a morte. E Clarice o faz com aquele seu estilo inconfundível de quem, o tempo todo, pergunta, busca, jamais dá por certo o que se agarra com simples palavras. Inicia com Loreleide (Lóri) indecisa, perdida, na verdade, frente à possibilidade de um relacionamento com Ulisses.  E prossegue com sucessivas tentativas de com ele se encontrar (no sentido profundo e não geográfico da palavra), tendo antes a necessidade de encontrar-se a si mesma e de compreender minimamente o mundo que a rodeia. Algo ela parece sempre saber: “...sabia que teria de dar a alguém o que ela era, senão o que faria de si?” (p. 53)

            Não é um livro fácil de ler. Também não o foi de escrever. Uma nota da autora antecede o romance: “Este livro se pediu liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. (...)” (p. 6).

            É um livro “pensante” (carregado de bem disfarçadas digressões filosóficas de fundo nietzschiano, spinozano e até heideggeriano), mas sobretudo um livro emocionante, em que se movem apenas duas personagens: duas pessoas em busca de si e de um nós; nós, porém, que não é simplesmente carnal, mas que também não deixa e nem pode deixar de sê-lo.       

            Não é um livro para “entender”, dele extraindo lições, nem para com ele se divertir, bisbilhotando as aventuras e desventuras de um casal “meio doido”. Não. É um livro para sorver, degustar: ao terminar a leitura, enfrentando os emaranhados do texto complexo, sente-se o quanto de poesia existencial se teve diante dos olhos, migrando para o coração. Não são as palavras, frases e parágrafos que proporcionam o prazer da leitura, mas as cenas, os climas, os momentos memoráveis criados a partir do lirismo incomum de Clarice Lispector, esta mulher (intensidade da incompletude que deseja – o quê?) que sabe – com palavras-mistério – juntar pântano e estrelas quando trata do existir, do ser, do amar, do estar no mundo assim, sempre em busca. De quê?

            A propósito de entender, vale destacar esta passagem (p. 40): “Não entender era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado.”

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