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  • Foto do escritorValdemir Pires

Cenas londrinas




Sobre Cenas londrinas, de Virginia WOLF, trad. de Myriam Campelo (Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, 84 p.)

 

Na parte III de Madame Bovary, de Flaubert, há uma cena em que Emma e Léon conversam na catedral de Rouen – ela vai entregar a ele a famosa e inútil carta. Atrapalha-os um guia turístico típico (intrometido e enfadonho) que se propõe a apresentar-lhes a igreja. Lembro-me deste pobre profissional difamado ao ler Cenas londrinas, de Virginia Wolf. Isso porque neste conjunto de seis retratos de Londres dos anos 1930 ela se revela uma guia turística incomparável, com isso resgatando a dignidade daqueles que se propõem a “abrir os olhos” dos ingênuos para o que têm diante de si nos lugares desconhecidos que estejam visitando.


Neste livro, Virginia Wolf não é a conhecida autora que escreve de dentro da alma para fora, em fluxo de consciência. Ela passeia por Londres de corpo inteiro, carregando consigo o leitor. Descreve, opina, sobretudo encanta-se diante do que vê, chamando a atenção de quem a lê, não só para aspectos físicos das cenas (prédios, pessoas, movimentos), mas também para a natureza histórica, econômica (Virginia Wolf explicando o mercado!!!), política do que narra.


Em As docas de Londres e Maré da Oxford Street, o movimento de navios de cargas e de passageiros, assim como o corre-corre de vendedores e compradores, é pano de fundo para enaltecer o comércio de mercadorias, desde que chegam ao porto até serem vendidas no varejo popular. Mas é com hábeis pincéis que os quadros são pintados, como era de se esperar da pintora.


 Casas de grandes homens apresenta as residências-museus de Carlyle na Cheyne Row, no. 5 e de Keats em Hampstead. Argumentando que as casas têm estações próprias (inverno, a de Carlyle; primavera, a de Keats) e falam, Virginia Wolf acredita que nem um nem outro dos literatos seriam o que foram se vivessem em lugares diferentes daqueles em que viveram. (Como, certamente, ela não seria Virginia Wolf não tivesse sido a londrina de seu tempo.)


Da cultura à política, chega-se a “Esta é a Câmara dos Comuns”, em que a autora se espanta diante da simplicidade das pessoas (praticamente broncas) e do lugar (banal) em que, na democracia, grandes decisões são tomadas. Duvida que estátuas de pedra ou metal ainda serão possíveis no futuro, como aquelas de grandes nomes da política inglesa que se juntam à população londrina em praças e jardins, já que os atuais tomadores de grandes decisões são agora tão miúdos.


Por falar em gente comum, mas antenada de algum modo (não necessariamente brilhante), Virginia Wolf incluiu entre as cenas, uma sala de visitas movimentada, onde se pinta o Retrato de uma londrina típica, mrs. Crowe: uma espécie de fofoqueira solitária no coração da metrópole superpopulosa, que logo, logo terá dimensões que tornarão insuficientes seus tentáculos em busca de detalhes das vidas alheias.


Talvez o mais belo dos textos desta pequena e notável obra seja Abadias e catedrais. Nele não há um guia inconveniente e banal, mas sim uma condutora de sensações e sentimentos sem igual, movendo-se entre o silêncio e a morte, o sossego possível numa grande cidade e a quietude última da vida.


 Cenas londrinas é, também, um sensível registro de um momento histórico, em que a aceleração estava tomando definitivamente conta das relações sociais e interpessoais, para o bem (dos negócios) e para o mal (da paz coletiva e do sossego pessoal).

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