Um sebo e duas lembranças (Diário da Biblioteca – XIV, 08/07/2026)
- Valdemir Pires
- há 1 dia
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Um sebo e duas lembranças

“A leitura é uma janela e também um espelho.” (Antonio Muñoz
Molina)
Hoje a visita literária não foi à Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” porque o livro tomado de empréstimo na semana anterior (A marcha para oeste) ainda está sendo lido, alentado que é (638 páginas) e também porque a semana que passou não concedeu tempo suficiente para a leitura.
Não querendo passar uma semana sem uma atividade externa para o Diário, fui com Regina, depois do almoço, ao Sebo Estação Cultural (Rua Governador Pedro de Toledo, 818) para uma rápida visita, a fim de conhecê-lo, depois de ter descoberto sua existência há um mês.
Foi uma experiência gratificante. É uma livraria de usados muito organizada, que conta com um estoque expressivo, de fato maior que o encontrado em muitas livrarias convencionais por aí; tem lojas também em outras sete cidades, como Marília (parece que a primeira), Araçatuba, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Americana etc., como me informou a atenciosa funcionária.

Eu e Regina compramos dois títulos para nós (O fantasma de Canterville e outras histórias, de Oscar Wilde e A cidade do sol, de Khaled Hosseini) mais um livro infantil para a netinha Ana Luiza (Pedro Coelho, de Beatrix Potter). Antes, passeamos entre as estantes, organizadas por áreas do conhecimento, sendo a de literatura dividida entre brasileira e universal (ordem alfabética por autores). A pedido, buscas podem ser feitas no catálogo eletrônico. Os preços são bons, não mais tão baixos como os sebos de antigamente. Falta um cafezinho...

Notei que autores portugueses estão, equivocadamente, na sessão de literatura brasileira, como, por exemplo Miguel Souza Tavares e Antônio Lobo Antunes. O que é um detalhe, pois do modo como o acervo se encontra, basta para os caçadores de usados, que gostam bastante de “garimpar”.

Há muitos anos Regina e eu não íamos a um sebo, prática corriqueira nos nossos tempos de universidade, em Campinas. Lembro-me com carinho de idas também com Eduardo Antonio Silva, grande amigo, também da Regina, colega dela na turma do curso de História da Puccamp, depois casado com outra amiga nossa, Valéria Cristina Mari Silva, casal querido que há muitos anos não vemos e de quem sentimos imensa saudade.
Eu e Eduardo, que trabalhávamos de dia e estudávamos à noite, um dia – não me lembro o que fizemos para não estarmos ele na gráfica e eu no caixa do banco F. Barreto (depois comprado pelo Bamerindus, este depois falido, desmentindo a famosa propaganda: “"O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa!”) – fomos a um sebo logo depois do almoço (tendo almoçado juntos); gastamos o que não podíamos com meia dúzia de livros cada (eu Economia e literatura; ele História e literatura), depois fomos folheá-los com toda calma, bebendo cervejas e comendo salgados num bar das proximidades, até chegar a hora de ir para a aula noturna, ele no campus central e eu no campus II. Era uma prática, para nós, nababesca. Imagine-se: dois estudantes pobres, ali, no centro agitado de Campinas, comendo, bebendo, lendo e conversando sossegadamente sobre livros recém-adquiridos, enquanto avançava a tarde de sol quente que fazia transpirar homens e mulheres que iam e viam, apressados, a maioria no cumprimento de suas tarefas de empregados da indústria, do comércio, dos bancos etc. Eu nunca tinha me sentido tão rico (e talvez não tenha ainda chegado a sê-lo) como naquele dia, apesar de não ter um centavo na Poupança Bamerindus ou qualquer outra. E aquele era um sebo muito menos sofisticado do que o Estação Cultural, mas com a vantagem de lá o cliente ser atendido não por um funcionário, mas pelo proprietário, um livreiro de notável cultura e prodigiosa memória, na casa dos quarenta e poucos anos, meio sovina e mal-humorado.

Foi Regina quem escolheu comprar A cidade do sol. De seu autor, eu já havia lido O caçador de pipas, há muitos anos, emprestado pela então aluna, na Unesp, Marcela Volponi, leitura voraz iniciada pela avó; quando o li, comentei com Regina, entusiasmado. Por causa de múltiplos afazeres com que lida diariamente, Regina, tem se servido de audiolivros (uma forma de ler enquanto realiza outras tarefas que permitem dispersar a atenção) e, recentemente, ouviu o livro que agora comprou, para novamente saboreá-lo.
Por falar em audiolivros, está aí uma novidade que, como tantas outras, de natureza tecnológica, desloca práticas anteriores. Pelo que tenho visto, já existe, e vai se ampliando, um mercado dessa forma de consumo literário. Eu ainda não experimentei e talvez não experimente, mas é claro que um cego, por exemplo, agora não fica dependendo de textos em braile para poder ler. Será isso o que explica o fato de a sala para leitores cegos da Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” estar com aquele seu ar de abandonada?
-.-
Em Piracicaba, agora, preciso conhecer o Sebo do Formiga, além de descobrir se há outros.
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A noite foi de retomada da leitura de A marcha para oeste, precioso e delicioso testemunho histórico, tomando notas para uma breve resenha, ainda evocando o amigo Eduardo, que se tornou um professor de História da rede pública dos mais apaixonados por sua área de conhecimento e pela prática docente. A Marcha para oeste seria um presente que ele adoraria receber, tenho certeza.
(Continua)
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