Obrigado, Rachel Canto! Haja carimbo, SESC! (Diário da Biblioteca – XVII, 24/07/2026)
- Valdemir Pires
- há 3 dias
- 8 min de leitura
Obrigado, Rachel Canto! Haja carimbo, SESC!

“Ao leres livros, deves ter o hábito de dar mais atenção ao
sentido do que às palavras, concentrar-te antes no fruto do que
na folhagem.” (Escriba anônimo do século XIII, citado por
Alberto Manguel em Uma história da leitura)
Para hoje eu tinha planejado devolver dois livros e pegar outro, no final da tarde, e, depois, sentar-me a uma das mesas que o açougue da esquina (Rubia) coloca ali, ao ar livre, na própria praça da biblioteca, desde o meio da tarde até o meio das noites de sextas-feiras, para servir suas especialidades (que eu desejava experimentar) e bebidas. Minha intenção era jantar e aproveitar para ver como fica a biblioteca à noite. Mas como o dia esteve chuvoso desde o início da manhã e dava indícios que assim passaria o dia todo, decidi abrir mão dessa ideia. Por isso, saí com Regina para almoçar e fazer compras necessárias, aproveitando para passar na biblioteca, fazer as devoluções e tomar emprestado um Paul Auster (A trilogia de Nova York).
Como estava com pressa, acabei cometendo o engano de ir em busca do Auster na seção de literatura inglesa (823) e não na norte-americana (813). Percorrendo a ordem alfabética, na prateleira, eu chegava a Jane Austen (A933) e vinha em seguida uma letra B, pulando o A934 de Auster. Procurei, então, ajuda do Élcio, que me fez ver que estava na prateleira/literatura errada... A pressa é inimiga da refeição, mesmo que se trata da nutrição da alma!
A mesma maldita pressa me impediu de fazer a inspeção preliminar de hábito do livro a levar para casa, mas não me impediu de, pelo menos, abrir a capa e notar o nome da doadora: Rachel Canto. Comentei com Élcio tratar-se do segundo livro que pego doado por esta pessoa. Ele me disse que houve uma grande doação dela, talvez feita por algum familiar. Obrigado, minha senhora!, pensei, lembrando que entre dois exemplares da estante, havia escolhido este, por ter capa dura.
Devolvi, ao receber o Auster, Uma história da leitura, de Alberto Manguel. Não se trata, propriamente de uma história, na qual se segue o fio cronológico para apresentar a evolução de um aspecto da vida previamente escolhido, identificando momentos-chaves e personagens relevantes. O livro está mais para um pot-pourri de temas concernentes à leitura, entremeado por uma igualmente balançante história do envolvimento pessoal do autor com os livros, no qual, certamente, uma história da leitura pode ser vislumbrada. Tanto assim, que o livro se encerra com um belo texto (“Páginas de guarda”, p. 345-355, que me fez lembrar Calvino em Se um viajante numa noite de inverno), em que, de início, se lê:
“Entre os livros que não escrevi – entre os livros que não li e gostaria de ler – está A história da leitura. Posso vê-lo, logo ali, no ponto exato em que acaba a luz desta seção da biblioteca e começa a escuridão da próxima. Sei exatamente qual é a sua aparência. Posso conceber sua capa e imaginar a sensação de suas ricas páginas cor de creme. Posso adivinhar, com acuidade lasciva, a sensualidade da encadernação de pano escuro sob a sobrecapa e as letras gravadas em dourado. Conheço sua página de rosto sóbria, sua epígrafe espirituosa, sua dedicatória comovente.” (p. 345)
Após o que, seguem-se esparsos e saborosos elementos necessariamente constitutivos do que poderia ser uma história da leitura, lidos com a convicção de “Que um livro não exista (ou não exista ainda) não é motivo para ignorá-lo mais do que ignoraríamos um livro sobre um tema imaginário.” (p. 356), para chegar à constatação de que “A história da leitura, felizmente, não tem fim.” (p. 355)
Não se conclua, todavia, que uma história da leitura, propriamente, não possa ser construída na mente do leitor atento deste livro. Pelo contrário, o livro de Manguel fornece os elementos necessários para um alentado e colorido esboço do trajeto da leitura desde seu início até o advento dos CD-roms (pois não alcançou o momento atual da internet turbinada e das nuvens). Ali estão considerações, fatos e informações preciosos e precisos acerca do livro (material, formato, armazenamento, circulação), das bibliotecas e livrarias/editoras, dos tipos de leitura e dos perfis de leitores, da queima e dos roubos de livros, da censura e do incentivo à leitura, da tradução, do poder do leitor e das diferentes visõs acerca dos autores etc. Tudo numa linguagem entre o narrativo/descritivo e o ensaístico, bastante elegante e agradável.
A escrita e a leitura, Manguel faz ver, transformaram os homens e o mundo de maneira radical e definitiva:
“De repente, algo intangível – um número, uma notícia, um pensamento, uma ordem – podia ser obtido sem a presença física do mensageiro; magicamente podia ser imaginado, anotado e passado adiante através do espaço e do tempo.” (p. 207)
Manguel escreveu este livro na condição de leitor apaixonado. Os capítulos iniciais destinam-se a convencer que a leitura resulta de algumas maravilhas, como o funcionamento mágico (embora cientificamente explicado em diversos aspectos) do olho que lê, a conquista impressionante da linguagem compartilhada, o espanto da leitura silenciosa (elogiada por Santo Agostinho, que a descobriu como prática – incomum na época – de São Jerônimo), a potência incrível da escrita de permitir que se ouça o passado e que se lance “vozes” do presente ao futuro etc.
É como leitor apaixonado que Manguel aprecia bibliotecas e, por necessária consequência, reverencia quem a organiza, o bibliotecário ou a bibliotecária, a quem denomina “Ordenador do universo”, num capítulo com esse nome.
À altura da página 17, após serem apresentadas e comentadas várias imagens e fotografias de leitores ao longo da história, Manguel afirma: “Não estou sozinho.” O mesmo sentimento de estar acompanhado na sua condição de leitor o leva a relatar, na página 242:
“Sentada diante de mim no metrô de Toronto, uma mulher está lendo a edição Penguin de Labirintos, de Borges. Eu quero chamá-la, quero acenar-lhe, sinalizar que também sou daquela religião.
Identifiquei-me absolutamente com essas passagens. O que é fácil de entender: quem mais, senão um leitor que se sente bem ao perceber-se acompanhado de outros, iria ler um livro de história da leitura? Identifiquei-me, também, à página 180, com o romancista tcheco Josef Skvorechy, que no seu país comunista, escondendo-se, lia sob o cobertor com o auxílio de uma lanterna – como eu fazia à noite, quando adolescente, à noite, ao voltar da escola (para não atrapalhar o sono dos irmãos que dormiam ao lado). Mas fiquei reticente diante da afirmativa, à página 178, de que “Os livros lidos numa biblioteca pública jamais têm o mesmo sabor daqueles lidos no sótão ou na cozinha.” Pareceu-me ocorrer aí uma diminuição da qualidade da leitura em bibliotecas, de que efetivamente gosto, praticando bem menos do que apreciaria.
Tenho me incomodado um pouco com o excesso de notícias e comentários dizendo, a torto e a direito, que o apreço pelos livros está “voltando”, observando-se aumento de vendas, associação de literatura a marcas da moda, muita gente exibindo livros ou folheando em locais públicos. Incomodo-me, mais, agora, por ter descoberto a falta de originalidade dessa hipocrisia. No século XV, revela Manguel (página 183), “Ser visto como dono de livros e leitos ornamentados tornou-se sinal de posição social.”
Ao falar das leituras de sua infância, Manguel menciona livros que liam para ele (p. 131). Entre esses figura Pedro, o Coelho. Coincidentemente, minha esposa Regina comprou este título num sebo para minha neta Ana Luiza há poucos dias. Comentei com ela essa coincidência, sabendo que o título foi escolhido a dedo, tendo por base o a admiração dela pela autora, cuja biografia conhece. Aproveitei também para resumir-lhe os capítulos em que Manguel trata da leitura em voz alta, para aproveitamento de ouvintes que, então, em vez de ler, ouvem: nas charutarias de Cuba no século XIX, nas quais pessoas eram contratadas para ler para os operários enquanto trabalhavam; em locais previamente combinados com o público, quando autores apresentavam seus textos antes da publicação, como no caso conhecido de Charles Dickens etc. Isso porque Regina tornou-se, por força de determinadas circunstâncias familiares, usuária de audiolivros, praticamente uma novidade, ainda, mas que tem conquistado adeptos rapidamente. Deve haver, entre os apreciadores dessa modalidade de livros, gente saudosa das antigas radionovelas, tão difundidas Brasil afora naquela que ficou conhecida como a Era do Rádio, superada pela Era da TV, com suas telenovelas. Quanto a mim, concordo que “Permitir que alguém pronuncie as palavras de uma página para nós é uma experiência muito menos pessoal do que segurar o livro e seguir o texto com os nossos próprios olhos.” (p. 146). E digo mais: texto sobre papel, não em tela...
Este menino para quem liam, que Manguel foi na primeira infância, passou, mais tarde, por uma experiência absolutamente invejável e formadora, relatada nas páginas 30-35: trabalhou em uma livraria na qual veio a conhecer Jorge Luis Borges, vindo, logo, a se tornar o leitor oral de apoio ao então velho cego, ávido por textos, cuja mãe, muito idosa, já não podia auxiliá-lo com as necessárias leituras em voz alta.
Registro quatro passagens de Uma história da leitura com afirmativas óbvias, mas valiosas quando se pensa a leitura como parte da cultura letrada, que não se adquire “a toque de caixa” – elas me tornaram certamente ainda mais consciente daquilo que sou, como leitor:
“Aqueles que podem ler, vêem duas vezes”, citando Menandro, do século IV a.C., à página 216.
“Ler (...) não é um processo automático de capturar um texto como um papel fotossensível captura a luz, mas um processo de reconstrução desconcertante, labiríntico, comum e, contudo, pessoal.” (p. 54)
“Aprendi rapidamente que ler é cumulativo e avança em progressão geométrica: cada leitura nova baseia-se no que o leitor leu antes.” (p. 33)
“Para além do sentido literal e do significado literário, o texto que lemos adquire projeção de nossa experiência, da sombra, por assim dizer, de quem somos.” (p. 299)
A cultura letrada, uma vez estabelecida, gera vários tipos de metáforas, cotidianamente utilizadas, como por exemplo “ler a mão” ou o destino (como a cigana), ler o futuro (como o oráculo), ler a cidade, ler as pessoas etc. Manguel explora esse fato em várias passagens, citando casos, como, por exemplo, o de Constantino, chegado às sortes Vergilianae, que consistia em abrir uma obra de Virgílio, colocar o dedo sobre uma passagem e tomá-la como diretriz para a ação; coisa que os cristãos passarão a fazer com a Bíblia há muito tempo e ainda hoje. Numa passagem à página 197, diz Manguel: “Os seres humanos (...) também são livros a serem lidos. Aqui, o ato de ler serve como metáfora para nos ajudar a entender nossa relação hesitante com o nosso próprio corpo, o encontro, o toque e a decifração de signos em outra pessoa.” O que me fez lembrar de uma crônica anterior escrita neste diário, em que adotei a mesma percepção presente nesta citação: Ler livros e ler pessoas.
Uma história da leitura não traz uma bibliografia ou lista de referências, mediante uma justificativa, aceitável, à página 357, mas contém um índice remissivo (páginas 393-405) que permite, sinteticamente, perceber a riqueza de elementos históricos abarcados pela obra, especialmente no que tange a homens e mulheres que, para o bem e para o mal, protagonizaram a história da leitura. Há praticamente um caderno de notas de rodapé (páginas 357-386) documentando e esclarecendo cada um dos capítulos.
Uma curiosidade a respeito do volume lido: como dito em outra nota deste diário, ele veio de uma “Sala de Leituras do SESC Piracicaba”. Sabe-se disso por causa de um carimbo. Este carimbo foi impresso em nada mais, nada menos do que em 35 páginas! Teria isso como causa aquele ciúme de proprietário de livros de que Manguel fala, bem compreendendo aqueles que são atingidos por ele? Pouco provável, pois não se trata de um dono “pessoa física”, mas de uma instituição. Na qual, talvez, alguém dispunha de tempo ocioso para ficar carimbando... Sabe-se lá!
(Continua)
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