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O Serginho e o Almir (Diário da Biblioteca – XXI, 19/08/2026)

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 3 dias
5 min de leitura

O Serginho e o Almir


Uma biografia que permite ver como entre o sonho e o pesadelo a fronteira é porosa
Uma biografia que permite ver como entre o sonho e o pesadelo a fronteira é porosa

“Mirar e mergulhar na história e dela aprender requer uma atitude de

respeito a seus agentes e fatos.” (Almir de Souza Maia)


 

Na última ida à biblioteca, saí de lá com o Serginho a tiracolo, dentro do livro Estive em Lisboa e lembrei de você, contribuição do Luiz Ruffato para a Série Amores Expressos, da Companhia das Letras. Narrativa deliciosa, curta (quase um conto), agarrou-me de primeira. Tanto assim, que varri as 83 páginas num só fôlego, no mesmo dia/noite.

 

Aventuras e desventuras do Serginho
Aventuras e desventuras do Serginho

Sérgio de Souza Sampaio, o Serginho, rapaz típico de Cataguazes (MG), luta contra o tabagismo e o vence, no Brasil; para ser derrotado depois, em Lisboa, para onde se mudará em busca de uma vida melhor (e lá tornando-se garçom) – levado pela onda de brasileiros que, há décadas, pensa que o Eldorado atravessou o Atlântico de volta. Como muitos conterrâneos seus, reais, foi lá que ele descobriu um dado de realidade dos imigrantes precários, quando caem em desgraça: “o azar é que-nem urubu, só ataca em bando.” (p. 81)

 

Todo o texto do livro é composto por parágrafos longos, com pontuação “diferente”, meio à Saramago (para honrar Portugal); também há nele uma porção de neologismos (entatuzaram, enlabirinta etc.) à moda de Mia Couto (mais lusofonia não nacional); a brincadeira vocabular se completa pela coletânea de expressões do português de Portugal que diferenciam o idioma de lá do usado no Brasil, sendo eles destacados em negrito sempre que aparecem.

 

O livro é dividido em duas partes: “Como parei de fumar” e “Como voltei a fumar”, talvez para dar a entender que há coisas, na vida, das quais, por mais que se tente, não dá para fugir – é sina: muda-se de lugar, de relações, mas a vida continua a mesma...

 

A Dona Ditinha da Esquina, se lesse esse romance do Ruffato, diria que sua lição de moral (uma moral é tudo o que ela costuma buscar nas leituras que eventualmente faz) é: “Quem quer todas, acaba sem nenhuma.”, desaprovando seu vizinho mulherengo. Mas, como diz Milan Kundera (que a Ditinha não conhece), cada um tem o seu enigma existencial; não seria diferente com o Serginho, que tem lá o seu valor.

 

Descontadas as tantas “moças” – do comércio, da indústria, do setor de serviços e, ao que pareceu, nenhuma da agricultura e da pecuária, em Cataguazes e proximidades (lista de nomes e ocupações á página 22) –, com quem Serginho “rodou”, sem compromisso, houve na sua vida só dois amores expressamente problemáticos, definidores de seu rumo ou falta dele: a doida (Noemi Carvalho), no Brasil, engravidada “por acidente”, parindo Pierre; e a bandida (uma tal Sheila, “ostentando a decantada beleza goiana” – p. 62 ,em Portugal. [Em Araraquara tive alunos, na universidade, que tinham por diversão ir à rodoviária nos horários de chegada de ônibus vindos de Goiânia para apreciar a beleza das mulheres que deles desciam.]

 

Entre esses extremos (a doida e a bandida), bamboleia a vida de Serginho, semelhante à de tantos brasileiros que sonharam e sonham com uma vida melhor – até mesmo se casar – entrando na Europa por um país que pensam ser o mais fácil para se viver, por causa da língua.(O mineirinho vai descobrir, para sua desgraça, que quem sabe um pouco de inglês é preferido, como garçom, mesmo em Portugal, porque pode lidar melhor com a clientela de gringos que vai para lá comer bacalhau e beber vinho do porto.)

 

Todos sabem que essa história continua, com tantos Serginhos e Sheilas cujas bioigrafias não terão um Ruffato para registrar. Mas que, em linhas gerais, ele já biografou, genericamente, neste seu excelente Estive em Lisboa e lembrei de você: lembrei de você, brasileiro desiludido com o Brasil e iludido pelo que imagina possa ser Portugal, “para ti”.

 

-.-

 

Almir Maia e outro baixinho sonhador, na Unimep, anos 2000
Almir Maia e outro baixinho sonhador, na Unimep, anos 2000

O outro livro que li na última semana foi a biografia de Almir de Souza Maia, ex-reitor da Unimep, escrita pela competente Beatriz Vicentini, sob o título Além das crises, esperança – Almir Maia: educação como compromisso.

 

Mineiro (como Serginho) o biografado por Beatriz também tinha uma compulsão, mas não por mulheres: pela educação. Almir tinha esperança (e fé), enquanto Serginho tinha crença (difusa, no que lhe diziam). Serginho saiu do país para “dar um jeito na própria vida”. Almir saiu de Minas e veio para o interior de São Paulo, em busca de ajudar a  “dar um jeito na vida” de tanta gente carente de educação de qualidade, impossibilitada, porém, de transpor o muro dos vestibulares das IES públicas, muitos tendo que estudar à noite, por trabalhar durante o dia. Almir não fumava, nem bebia.

 

“Esperança se constrói”, é o título da apresentação que Almir faz do livro de Beatriz Vicentini. E isso diz muito a respeito dele, tão bem captado no título da obra: Além das crises, esperança. Sem que tenha ela – a esperança - sido suficiente, todavia, para evitar o fim da Universidade Metodista de Piracicaba, antes uma potência, resultante, em grande medida, da gestão de Almir, como reitor.

 

De um modo quase absolutamente explícito, a vida e a saga de Almir se misturam, no livro de Beatriz, à expansão e posterior falência do projeto Unimep, restando a memória de uma luta que valeu, mas terminou, desenganada e interrompida pela absurda mercantilização (e decorrente deterioração da qualidade) do ensino superior privado no Brasil, desde aproximadamente meados dos anos 1990.

 

Uma semana antes de eu ler a biografia de Almir, a Rede Drogal, que recentemente comprou em leilão o abandonado campus Taquaral da Unimep, apresentou seu projeto de ocupação daquele espaço, prometendo preservar tudo o que for possível. Pensei comigo: Será que não terão a ideia de dar nomes de pessoas, como Almir de Souza Maia e  Elias Boaventura, por exemplo, a algumas das instalações que vão preservar?” Seria muito justo: Teatro “Almir de Souza Maia”, Galeria “Elias Boaventura” – arquitetos de instituições educacionais, homenageados em obras arquitetônicas que também são legados, menores, seus.

 

Fiquei orgulhoso de ler, à página 92 do livro, a transcrição de parte de um artigo meu publicado no Jornal de Piracicaba, no dia 13/02/2007, sintetizando o que, a meu ver, foi a Unimep nos seus áureos tempos (maios ou menos 1985-2000). E continuo pensando daquele modo, elogioso, mesmo depois de ter experimentado trabalhar em uma universidade pública (Unesp), na qual nunca encontrei tanta gente irmanada na construção de um ideal educacional como entre colegas unimepianos, estes nunca tão bem remunerados como os unespianos, em termos de horas-aulas trabalhadas e dedicação à dinâmica colegiada da gestão.

 

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Hoje a visita à biblioteca foi rápida. O tempo normalmente a ela destinado foi raptado por afazeres pessoais diversos... Apenas entrei, peguei o novo livro para a próxima semana (O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca, da série Amores Expressos), fui ao atendimento, devolvi os dois lidos na semana anterior e registrei o novo empréstimo. Como Elcio, que me atendeu, estava lendo num Kindle, aproveitei para lhe perguntar se dá, mesmo, para mudar da mídia em papel para a tela. Como usuário de Kindle há anos, ele me deu uma verdadeira aula sobre o uso combinado de textos em tela e em papel, ressaltando que não se trata de substituir um pelo outro. Mostrou-me vantagens e desvantagens de uma mídia e outra, me permitindo ver funcionalidades no seu aparelho. Está aí uma oficina que a biblioteca poderia oferecer: O leitor contemporâneo: entre páginas e telas. O oficineiro poderia ser alguém com a clareza de leitor que o Elcio revelou, ou poderia ser ele próprio, se quisesse e pudesse. O jornalista Rodrigo Alves também é um leitor à altura para este tipo de oficina. Sei disso porque ele foi o primeiro a quem perguntei, há anos, sobre a viabilidade e a conveniência da leitura em telas, recebendo também ótima resposta. Quanto a mim, apesar de todas as vantagens do Kindle, acho que vou resistir por mais algum tempo, leitor que sou das obras do acervo físico da Biblioteca Pública Municipal de Piracicaba, com muito gosto.

 

(Continua)

 

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