A natureza e as conseqüências da crise da UNIMEP

A Universidade Metodista de Piracicaba já enfrentou muitas crises, o que leva alguns de seus dirigentes, equivocadamente, a afirmarem que a atual é mais uma delas. Não, definitivamente não: a crise atual tem especificidades e amplitude que nenhuma das anteriores teve. Primeiro, não é uma crise apenas, mas a convergência de um conjunto de crises originadas de diferentes fontes. Segundo, apesar de ser uma crise a que a instituição sobreviverá, é uma crise que a mudará em profundidade, para pior, ao contrário das crises anteriores.
São três as crises atualmente enfrentadas pela UNIMEP: i) crise de financiamento (a menos grave, podendo se debelada por boa administração financeira e mercadológica), resultante da redução de demandantes com poder de compra (seja porque a renda da classe média diminuiu, seja pelo desvio de potencias alunos para concorrentes mais baratos - e espertos), combinada com custos crescentes de uma instituição que vinha num ritmo acelerado e admirável de qualificação de seu corpo docente e de sua infraestrutura, agravada por investimentos feitos nos últimos anos e que não deram, nem vão dar, o retorno inicialmente imaginado; ii) crise do modelo educacional brasileiro, gerada pela incapacidade governamental de escolher entre a continuidade do modelo que vinha sendo implantado desde FHC I – “A República dos Professores” (abertura e incentivo à iniciativa privada como provedora de ensino superior, mediante regulação pelo MEC) e a volta ao modelo de provisão pública, principalmente por meio dos sistemas federal e estaduais de ensino superior; ficando a meio caminho e não revelando capacidade de enfrentar o desafio da massificação do ensino superior, mantendo a qualidade, o governo não fez a escolha estratégica necessária, deixando de proporcionar boa e suficiente oferta de vagas, e não cumprindo seu papel de regulador da provisão privada; iii) crise do padrão metodista de atuação no setor educacional: “Ide e ensinai”, desde que as instituições sejam autossustentáveis e desde que o controle esteja totalmente nas mãos dos quadros da igreja – este parece ser o lema de uma confessionalidade que já defendeu e deu exemplos de respeito à autonomia e à democracia universitária e que se propunha a um tipo (mesmo que limitado) de filantropia.
Portanto, a crise atual, além de financeira, é também política e ideológica, permitindo antever que muitos talentos e lideranças serão queimados ou defenestrados antes de qualquer solução, necessariamente demorada e que, finda, resultará em perdas enormes não só para a UNIMEP e seus agentes (gestores, funcionários, professores e alunos), mas para toda a sociedade, local e nacional. Entres as perdas podem ser enumeradas as seguintes, entre outras: 1) uma carreira docente modelar, se pudesse ser continuamente sustentada apenas pelas mensalidades dos alunos: os professores tinham salários e possibilidades de ascensão salarial num padrão desejável (e sempre prometido, mas nunca cumprido) para todo o sistema de ensino superior no país; 2) uma forma de contratação (por concurso) tão meritória e transparente quanto possível; 3) um sistema de incentivo à pesquisa melhor articulado e gerido do que o das instituições públicas, embora com menores resultados porque os recursos eram infinitamente menores do que o daquelas; 4) um método de trabalho docente baseado em decisões coletivas amplamente debatidas, resultando em excelentes projetos pedagógicos para cada um dos cursos; 5) uma forma de pagamento de trabalho extra dos professores horistas (jetons) nunca visto em instituições de ensino superior no Brasil (os professores fora do regime de dedicação integral ganhavam para participar de reuniões e atividades extra-classe); 6) um conjunto de incentivos para a permanência dos professores (plano de saúde e diversos tipos de bolsas e apoio) que reduziram drasticamente o entra-e-sai típico de instituições que transformam o professor universitário em “bóia-fria da educação” (figura atualmente predominante, para prejuízo da qualidade do ensino); 7) um coletivo de talentos cujo potencial começava a transbordar para todo o sistema educacional, com professores da UNIMEP atuando como avaliadores do MEC, como pareceristas de revistas e de projetos de pesquisa, como conferencistas, como dirigentes de instituições e órgãos na área educacional; 8) uma maneira de trabalhar com alunos típicos de cursos noturnos (com menor disponibilidade para os estudos) que começava a reduzir as desvantagens destes com os alunos de cursos diurnos e de período integral, resultando em jovens que prosseguiam na pós-graduação, que se envolviam com iniciação científica e monitorias, que ganhavam concursos concorrendo com seus iguais de escolas públicas etc.; 9) um ambiente de trabalho e de relações com a comunidade propício ao que deve ser uma universidade comprometida com os desafios do desenvolvimento regional, em seus aspectos sócio-econômicos; 10) um procedimento avaliatório do trabalho docente e dos projetos pedagógicos (método da inovação curricular) que iniciava seus primeiros vôos e iria promover uma profunda transformação nas relações professor-aluno, em sala de aula e fora dela (abortado pela crise).
O mais angustiante dessa crise é que i) os principais potenciais beneficiários daquilo que a UNIMEP começava a ser não percebem, no emaranhado dos discursos conflitantes, que estão se contentando, no mercado educacional, com embustes e farsas (“pague pouco e consiga um emprego melhor”); ii) os dirigentes metodistas não estão se dando conta de que competir no nível rasteiro do mercado não só está em contradição com seus objetivos confessionais, como não é factível com o tipo de habilidade de que dispõem com seus quadros atuais; iii) os responsáveis pela tarefa de banir os vendedores de ilusão (a preços módicos) estão deitados em berço esplêndido, convencidos de que estão promovendo uma revolução educacional sem precedentes.




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