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  • Foto do escritorValdemir Pires

O plebeu partido ao meio: comunicação interpessoal


Há um livro de Italo Calvino chamado O visconde partido ao meio, que narra a aventura de um homem que uma explosão transformou em dois, um bondoso e outro maldoso. Eles retornam à terra de origem e os dois se relacionam com uma mesma moça, nisso resultando grandes confusões. Eu, embora uno fisicamente, também sou dividido em dois, quase ao meio. Não por uma explosão, mas pelo tempo. Sou um homem com um pé no primeiro milênio da era cristã, e outro no segundo. Sou também uma pessoa que viveu trinta e sete anos no século XX e outros vinte e três no século XXI. E como do final do século passado para o atual os avanços tecnológicos foram muitos e profundos, acelerados, é como se eu tivesse mudado de mundo há uns trinta anos. Muitas são as formas de perceber esta mudança. Penso agora em uma delas: o modo como nos comunicamos uns com os outros à distância.

 

Do final do século XX ao começo do século XXI, os meios de comunicação de massas sofreram grandes transformações. Ao longo do século XX, o rádio havia sucedido o jornal e a televisão suplantado o rádio, os três convivendo entre si, entretanto, por décadas, embora sempre com predomínio da tecnologia mais recente. No final, porém, o advento da internet mudou o cenário. A transformação essencial, com a rede mundial de computadores, consistiu no declínio da comunicação de massas monopolizada por grupos empresariais especializados na produção e difusão de conteúdos, através das caras mídias impressa, visual e auditiva antes disponíveis. A difusão dos computadores de mesa e, depois, portáteis, além dos telefones celulares, associada ao surgimento de tecnologias baratas e até gratuitas de produção de textos, imagens (inclusive vídeos) e áudios possibilitou que cada indivíduo se transformasse num potencial produtor e difusor de conteúdos, inicialmente por meio de blogs e sites e, depois, em canais da emergente mídia social que se desdobrou nos atuais digital influencers, muitos conseguindo milhões de seguidores. O que se deu foi uma passagem do coletivo para o individual como eixo da comunicação de massas, democratizando-se o acesso à emissão. Quem antes só podia ser receptor, passou a ter condições de ser também emissor, inclusive sem filtro, ou seja, livre do “incômodo” de submeter sua mensagem a um avaliador de qualidade e oportunidade, antes de decidir pela difusão.

 

O impacto da alta e instantânea conectividade que se experimenta no século XXI também se fez sentir na comunicação interpessoal, de indivíduo para indivíduo. Pode-se com facilidade escrever uma história desse tipo de comunicação, essencial aos relacionamentos humanos, culminando ela no momento atual, em que alguém no Brasil pode ver e ouvir outro na Rússia, tratando do que quiser, sem limitação de qualquer tipo, a não ser o acesso aos meios tecnológicos necessários, desde que não haja restrições legais ao seu uso.

 

 A história da comunicação interpessoal à distância começa com o uso de portadores de mensagens orais, inicialmente a pé, depois a cavalo, aumentando a rapidez: o rei Matatias chama Zé Linguarudo, seu protótipo de estafeta, e lhe ordena que vá, a cavalo (o caríssimo automóvel de então, até o palácio do duque Dono do Pedaço, distante duas semanas do seu castelo, e lhe diga o seguinte: “Proposta de casamento de seu filho Bolso Cheio com minha filha, a princesa Bela do Lugar, deferida. Cerimônia aqui, em data a combinar. Que nossa união siga se consolidando e assim não nos escape o poder que dividimos para nosso bem e de todo o povo.”

 

Com o tempo, a necessidade de comunicação entre indivíduos aumentou, como era de se esperar com a eclosão de numerosas cidades praticando trocas entre si; mais tarde, a comunicação se tornou uma espécie de insumo produtivo necessário às empresas que se vieram a ser os loci da produção sob as condições mercantis que emergiram e se consolidaram com o capitalismo.   Os correios, então já existentes, e num meio em que a alfabetização já havia feito relativo avanço, permitindo a comunicação por escrito, foram objetos de uma inovação expressiva: o uso das diligências, carruagens públicas para transporte de passageiros, com itinerário e horário fixos, que passaram também a distribuir correspondência em locais fixos. Mas tarde ainda, os correios passaram a fazer uso de trens, depois de aviões, sempre diminuindo a demora entre a emissão e a recepção das mensagens, a ponto de a correspondência internacional, num dado momento, transcorrer com menos demora que a antes praticada dentro das fronteiras. Mesmo atravessando mares e oceanos, a rapidez na troca de cartas amentou, pois as velas foram substituídas pelo vapor nos barcos e navios.

 

Mas é notório que a redução do tempo na comunicação, antes da invenção do telégrafo e, depois, do telefone, dependia da redução da velocidade do transporte da encomenda em solo, água ou ar. O telégrafo e o telefone eliminaram esta restrição e transformaram o mundo mais radicalmente do que então pareceu. De quebra, beneficiaram-se os jornais, que passaram a colher e transmitir notícias não locais com pouca defasagem temporal.

 

Com o telefone, já nas décadas finais do século XX, tornou-se possível enviar os chamados fax, ou fac-símile: imagem exata de documento original transmitida de um telefone a outro, fazendo uso de aparelho criado para este fim. Inicialmente a tecnologia foi adotada pelos correios, substituindo com vantagem o telégrafo. Depois disseminou-se entre empresas e residências servidas pela rede de cabos telefônicos.

 

Correio, telégrafo, telefone, fax, tudo isso o plebeu partido ao meio pôde utilizar. O correio, desde menino, em sua ânsia de se relacionar e conhecer o mundo ao seu redor, imediato e distante.

 

Adolescente e jovem na pequena cidade de Araras, no Estado de São Paulo, comunicava-me por carta com muita gente – trocava correspondência, como se dizia e se anunciava em revistas, como o Correio Filatélico e a Cadernos do Terceiro Mundo, que eu assinava, uma para a troca de selos postais (eu era filatelista e gostava de sê-lo) e outra para dialogar sobre possíveis  soluções para as mazelas do mundo.

 

Cheguei a ser titular da caixa postal 329 na única agência dos Correios de Araras, indo, dia sim, dia não, de bicicleta, abri-la para recolher cartas e encomendas, tornando-me conhecido do Sr. Osório, o atendente de humor oscilante que precisava ser acionado quando o objeto a receber não cabia no pequeno compartimento metálico verde-oliva.

 

Havia uma ansiedade na comunicação. Embora se soubesse que a mensagem ou o objeto enviado certamente chegaria ao destinatário (os Correios no Brasil dos anos 1970-80-90 eram muito confiáveis), demorava, tanto mais quanto maior a distância, especialmente entre países. Era escrever, enviar, aguardar, por dias, às vezes semanas, a resposta.

 

Caso houvesse a necessidade de comunicação mais rápida, era preciso usar o telex ou o fax, que eram bem mais caros que o envio de carta, mesmo as registradas ou com AR (aviso de resposta). Ou o telefone, que cobrava mais por interurbanos. E o telefone era, então, no Brasil, objeto de luxo: era preciso ter uma assinatura, muito cara, e bancar as contas telefônicas mensais, depois de adquirir o aparelho, nada barato. Vim ter um desses e uma linha condominial somente já adulto e com um filho, morando em Piracicaba.

 

E eis que chega o momento de partir-me ao meio. Com a chegada do e-mail o mundo passará a ser outro, no tocante à comunicação interpessoal. Tendo já um PC (personal computer), versão 286, passei a me comunicar prioritariamente utilizando as mensagens escritas transmitidas via internet. Que beleza, que mudança! Maior ainda quando se tornou possível anexar arquivos à mensagem. Eu, que escrevia artigos para jornais, não precisava mais levá-los à redação, pois agora podia entregar “em mãos” utilizando uma tela e um teclado, tudo ficando registrado e mais fácil de administrar. E assim com toda a comunicação interpessoal. De fato, viciei-me em mantê-la por escrito, distanciando-me do telefone, mais trabalhoso, embora mais eficiente quando necessária resposta imediata.

 

A nova condição se aprofundou, deixando correio, telégrafo, telefone (fixo)  e fax como que na pré-história: chegaram os telefones celulares. Ganhei um de um grande amigo, o Alcebíades Godoy Espíndola. Não lembro a marca do “tijolão”. Presentaço! Ao plebeu partido ao meio pareceu ficção científica: falar com outros estando em qualquer lugar, sem necessidade da mediação de fios? O que é isso, senão mágica ou feitiçaria?

 

Não demorou para vir a ser possível falar vendo o outro na tela. Foi assim que pude conversar quase diariamente com meu filho Bruno quando permaneceu um tempo na França. Foi inacreditável, não só porque parecia, ainda mais, ficção científica, mas também porque os custos eram muito baixos – os antigos interurbanos levariam boa parte do meu salário para me manter tão conectado intenacionalmente.

 

Desnecessário seguir “historiando” a coisa. Vieram as redes sociais (especialmente o whatsap), os aplicativos para reuniões virtuais, a conectividade on-line plena de hoje em dia, enfim, que, se bobear, nos absorvem e retiram do mundo analógico e “real”.

 

Em síntese, o plebeu partido ao meio pelo tempo, ao olhar para trás, identifica um indivíduo isolado num único ponto do espaço, gastando bastante tempo para romper o isolamento, comunicando-se com os demais limitadamente, tendo que ter paciência no interior do circuito emissão-recepção das mensagens, mas sentindo-se realmente em contato. Ao olhar para a frente, do ponto onde se encontra, desenha-se uma pessoa dotada de possibilidades tecnológicas infinitas (antes inconcebíveis) de comunicação interpessoal, em nível até mesmo global (portanto em muitos pontos do espaço), porém com a sensação da incomunicabilidade babélica, devido ao excesso de informações e ao fluxo débil de contatos significativos.

 

Quem nasceu ou viveu a maior parte da vida no mundo da internet e dos celulares, não deve se sentir como eu, cindido em dois, misturados: o analógico (anterior) e o digital (atual); o real/material (anterior) e o virtual/imagético (atual). Deve ser confortável não distinguir entre esses dois que agora “moram” em cada um de nós, pois sem essa distinção é menos complicado decidir e agir sem esbarrar na pergunta: “Qual dos dois eu sou agora, neste momento em que vou decidir ou agir?” Sim, porque uma coisa é o que sou e outra é o que eu pareço ser. Essa distinção sempre existiu, mas com a dimensão virtual das vidas, de hoje, tão ampla e profunda, nem mesmo a própria pessoa que se pergunta tem uma resposta plenamente confiável. Como lidar com isso, é o que estamos todos aprendendo, talvez lentamente demais.

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