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  • Foto do escritorValdemir Pires

Italo Calvino (100 anos) e a dúvida sobre a consistência



Para Renata Soares Junqueira


15/10/2023: há cem anos nascia o escritor italiano Italo Calvino, em Cuba. Que morreu cedo (19/09/1985), em Siena, de hemorragia cerebral. Mas viveu muito. E legou-nos fabulosa literatura, da qual sua vida é perceptivelmente indissociável.


Calvino é um escritor que soube, como poucos, criar a partir da inquietação fundamentada no sentimento de inadequação entre o eu e o mundo, o indivíduo e as circunstâncias. E o fez reinventando-se a cada passo, disso dando testemunho a experimentação formal plasmada em seus textos literários e em suas reflexões ensaísticas sobre literatura e sociedade.


A radicalidade sofisticadamente vivida (não o radicalismo, em geral estupidamente manifestado) é a marca distintiva do autor que estreou, aos vinte e poucos anos, com A trilha dos ninhos de aranha (1947) e deixou inconclusas as Seis propostas para o próximo milênio (1988). Radicalidade tanto no sentido político-ideológico, como sentido literário. Sofisticada porque, em ambos os casos, levada a cabo com notória independência (em diálogo, porém, com os outros) intelectual e estética. Comunista e partegiani na juventude vivida sob o fascismo, rompeu com o partido quando lhe pareceu necessária uma liberdade de expressão e posicionamento que a ação político-ideológica engajada de seu tempo, na Itália, lhe negariam, ainda que “apenas” em foro íntimo. Portador de um desejo incandescente de mudar o mundo, sua literatura, que inicialmente carregava um senso de denúncia das inadequações desse mundo às aspirações individuais ético-morais e estéticas ideais, foi se aprofundando na direção de uma linguagem figurada capaz de exprimir as contradições com uma força que a fala denotativa jamais conseguirá, disso dando prova especialmente As cidades invisíveis (1972) e Se um viajante numa noite de inverno (1979).


Italo Calvino é um escritor cuja trajetória e obra permitem afirmar que entre o engajamento político e o fazer literário sempre haverá uma distância, mas nunca um desligamento. Sua literatura contém elementos reflexivos acerca da condição humana que, por um lado, nenhum manifesto ou programa partidário pode assimilar, em seu movimento típico de denúncia e proposta de ação rumo à mudança, e que, por outro lado, permitem delinear orientações eficazes à prática política, desde que a mensagem possa atingir as sensibilidades (e nisso reside uma problemática de grande monta). Pela via da literatura, o fabulista, como ele se definia, consegue se comunicar com as consciências individuais com mais profundidade que os tratados filosóficos e científicos, uma vez que estes, apegados à razão, deixam escapar a sensibilidade.


Em grande medida, a densidade literária de Italo Calvino tem origem naquilo que foi sua vida: uma imersão tão profunda quanto possível em tudo o que antes dele foi escrito no campo da narrativa, da fabulação, da poesia. Um leitor voraz, um agente editorial (foi empregado da Editora Einaudi), um arqueólogo da ficção – Fábulas italianas (1956), Por que ler os clássicos (1981), Contos fantásticos do século XIX (1983) – edificou sua obra sobre sólidos e notórios alicerces. Longe, portanto, de qualquer superficial autoficção: sua vida de cidadão comum, porém de olhos abertos aos problemas e dores do mundo, comparece, evidentemente, no seu contar, narrar, fabular, mas não na busca de “se entender”, “se explicar” ou “se resolver”, e sim na busca de lidar com a contradição entre um eu insatisfeito e o mundo que não satisfaz – e , por não satisfazê-lo tal como é, precisa ser reinterpretado, a reinterpretação incluindo o eu que está no mundo, enquanto o mesmo mundo atravessa este eu.


Talvez desta potencial incompatibilidade entre um eu onírico (fato que diferencia o humano de tudo o mais, no mundo) e uma realidade social/coletiva potencialmente ceifadora de sonhos, viesse a tratar a sexta lição para o próximo (atual) milênio, que Calvino não teve tempo de escrever: a lição da consistência. Como teria ele abordado o fato de que “Tudo que é sólido se desmancha no ar”? Declarado admirador (talvez até discípulo) de Jorge Luiz Borges (1899-1986), como argumentaria ele pela compatibilidade intrínseca entre o real e o fantástico, o quotidiano e o maravilhoso, o perceptível a olho nu e o visto através do aleph?


(Sobre a obra de Calvino, escrevi a crônica Um tempo com Calvino)

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