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  • Foto do escritorValdemir Pires

Faber sui


Imagem: Antoine Boissonot, Unsplash


Faber sui, construtor de si: assim é o ser humano. Enquanto espécie, certamente: faz história, transforma o mundo, a si, a seu modo de viver, sem cessar, seccionando o tempo em passado, presente e futuro; diferentemente da formiga e do pernilongo, da minhoca, do cavalo e do boi (transformados pelo homem, a fim de servi-lo), do peixe e do camarão (que pescadores não deixaram em paz nas águas doces e salgadas), do pardal e da águia... Diferentemente, até, de Deus: não se pode dizer que ele se tenha feito. Acreditam tantos ter havido um fazedor de homens, mas nunca se cogitou de um fazedor de Deus, mesmo que este tenha se limitado a um único “exemplar”.

            Destacado do coletivo, todavia, continua o ser humano um faber sui? Cada indivíduo tem sua história, sua biografia, seu curriculum vitae: a formiga, a minhoca, o peixe, o pardal, nenhum tem; o gato, o cachorro, o papagaio, animais domésticos (mais do que apenas domesticados a esta altura da História), de certo modo terminam tendo, como aproximação da biografia do respectivo dono ou tutor.

            Ocorre que imersa na História (a biografia coletiva) cada biografia contém um tanto do faber sui de cada um e um tanto do faber sui coletivo (dos outros indivíduos, considerados em conjunto). A questão é saber qual o peso ou a proporção de cada um no todo. Quanto da minha e da sua biografia se deve ao que eu ou você realizamos de modo independente, original, criativo? E quanto tem a ver com influências, modas, tendências imposições, obrigações, que terminam moldando caráter, comportamento, atitudes, ações, resultados, tantas vezes sem que se perceba?

            Se a onda é empreender ou inovar, por exemplo, muitos são arrastados por ela. Quem inova porque foi influenciado por uma onda de inovação, inova? Provavelmente será mais inovador aquele que se oponha a inovar, nessas circunstâncias, porque nisso residirá o antídoto ao mais do mesmo em voga. Quando todos estão inovando, ninguém mais é inovador...

            Além das ondas, existem os meios que as agitam com força e rapidez (primeiro os jornais, depois o rádio, depois a TV, agora as ferramentas da internet).  Em tempos de digital influencers, quais as chances de o indivíduo se manter um faber sui? E além disso, sendo os digital influencers quem são (geralmente o nada ou muito pouco que aparece demais), qual a possibilidade de eles mesmos (de fato empreendedores) serem inovadores ou até mesmo genuínos exemplares de faber sui?

            Não existe possibilidade de uma biografia totalmente faber sui e, além disso, ampliar a porção faber sui de uma biografia tem seu preço: apesar do louvor incessante ao cultivo da individualidade (redundando no nocivo individualismo exacerbado), experimente ser diferente, para ver o que lhe acontecerá, se não tiver força suficiente para reter os dois paredões móveis e opostos que irão em sua direção, para esmagá-lo(a).

            Assim sendo, ser faber sui, é algo para lá de ser simplesmente um self made man. A diferença entre uma expressão e outra é a da mesma magnitude da distinção entre o latim e o inglês, como idiomas de vocação (ou imposição?) universal. Enquanto o latim serviu a um Deus (tendo sido o idioma de disseminação do cristianismo +), o inglês serve a outro ($). E agora está chegando o chinês. Mandarim, cantonês ou outro?

            Os chineses, aliás, que tanto se revelam capazes de fazer e que são donos da “milenar sabedoria chinesa”, vejam só, têm cidades que se orgulham de imitar outras, famosas alhures. Exemplos de grandes cidades que assim se comportam: Harbin, a pequena Rússia; Shenyang, a Manhatan chinesa; Macau, com suas réplicas de Paris e Londres; Haikou, o Havaí do Oriente; Hangzhou, orgulhosa de sua Times Square vibrante etc. Embora em nada isso impeça a expansão vertiginosa da nova Rota da Seda, que já começa a incomodar os centros do capitalismo ocidental.

            Que país, que Estado, que nação será mais faber sui no século XXI? Haverá algum?

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