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Eleições e fé demais

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
há 6 horas
2 min de leitura

Imagem: Wix
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No Brasil a Constituição em vigor, de 1988, estabelece que o Estado é laico. Ao mesmo tempo, garante a liberdade de crença e culto.  Com isso, fica legalmente definido o lugar da fé na sociedade e na política: todo brasileiro tem o direito de praticar a religião ou culto que escolher, de livre e espontânea vontade, sem que ninguém possa molestá-lo quanto a isso; por outro lado, a ninguém é permitido impor sua fé aos assuntos coletivos, públicos, governamentais.

 

É fé demais, acima da Constituição da República, aquela que tenta ir além do foro íntimo, forçando a barra para invadir a esfera pública, pois esta, pertencendo a todos, não é de ninguém, sequer de qualquer deus ou ente sobrenatural. Portanto, nenhum fundamentalismo religioso é aceito pelo Estado de Direito no Brasil. Não é democrático uma crença, qualquer que seja ela, aceita não importa por quantos milhões de pessoas, querer se impor aos ateus, aos agnósticos e aos que aderem a outras crenças.

 

Assim, que católicos e protestantes entrem em confronto às vésperas das eleições de 04/10/2026, na verdade sendo isso apenas um ponto alto de uma disputa em curso há décadas, é um acontecimento que revela que a Constituição e as leis não são capazes de coibir comportamentos e manifestações que permeiam fortemente a cultura nacional. No Brasil vem de longa data, e se acirrou nas últimas décadas, a disputa entre cristãos, os pentecostalismos e o evangelismo da prosperidade abocanhando multidões com suas práticas que bem merecem o rótulo de oportunistas, ao venderem ilusões às massas empobrecidas de todas as regiões do país.

 

Oportunistas, sim, as igrejas e pastores que, uma vez conquistada a confiança de um rebanho crescente de pessoas pobres, simples e desprovidas de esperanças, começam a manipulá-lo para alterar as relações de poder, transformando religião em ideologia e igrejas em partidos, assim disfarçando a verdadeira natureza de suas práticas. E, pior, contribuindo para o avanço de visões, propostas e projetos de extrema direita, que além de abraçar o autoritarismo, inegavelmente conduzem a um tipo de sociedade em que os pobres tendem a cair na miséria.

 

Num cenário desses, a negação de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil não passa de manifestação de vontade de segmentos do pentecostalismo de direita para testar a correlação de forças que percebem estar pendendo a seu favor com o recuo do catolicismo e com a divisão interna que o afeta, também ali a direita conquistando espaço.

 

Se a reação em defesa da santa puder ajudar a coibir o oportunismo pentecostal nas eleições deste ano, é fato que o catolicismo, como elemento cultural, acabará por, de certo modo, afrontar os princípios constitucionais acima mencionados e defendidos, mas é fato, também, que ela terá operado um milagre: o milagre de impedir o pobre de direita de, com a própria mão, acionar o gatilho que restultará num tiro no próprio pé, senão na própria testa.

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