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Diário da Biblioteca – II, 05/05/2026

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Cidade em transformação por todos os lados


“Adaptar-me-ia dificilmente a um mundo sem livros...”

(Marguerite Yourcenar)

 


Detalhe da esquina acima da Biblioteca Ricardo Ferraz de Arruda Pinto
Detalhe da esquina acima da Biblioteca Ricardo Ferraz de Arruda Pinto

Retorno à “Biblioteca Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” para devolver, de Leonardo Padura, Água por todos os lados, decidido a tomar emprestado, dele mesmo, O homem que amava os cachorros, a respeito de cujo processo criativo pude saber com detalhes no ensaio O romance que não foi escrito – Adendos a O homem que amava os cachorros, uma das partes componentes do livro sendo devolvido.

 

Li Água por todos os lados gulosamente, deliciosamente. O livro superou minha expectativa de alguém desejando conhecer o autor, antes de começar a ler sua literatura, propriamente; e isso me levou a ver no Youtube entrevistas que Padura concedeu, revelando-se, para mim, um falador compulsivo – daí talvez escrever tanto, e tão bem como fala: memória impressionante, raciocínio admirável, sensibilidade notável, incomensurável capacidade de trabalho. Um escritor cubano – assim ele se define, que mora e seguirá morando em Cuba, apesar de tudo. Escritor cubano que devolve, aos que questionam (com tanta frequência) porque continua vivendo naquele país, uma pergunta do tipo: “Por que não fazem esta pergunta a um escritor italiano que segue morando na Itália, ou a um escritor norte-americano que não resolve sair de Nova York?”

 

Antes de entrar no prédio da biblioteca, passeio pelo seu entorno. Estou tentando reviver o que sentia caminhando na Praça Doutor Narciso Gomes, endereço da Biblioteca “Martinico Prado”, de Araras, a minha primeira, quando ia para lá, sempre cheio de expectativas. Aquela praça, com bancos de concreto convidativos, era para mim uma espécie de oásis: sentar-me à sombra das árvores para tomar um sorvete antes ou depois de devolver/pegar um livro emprestado era uma espécie de ritual – sempre que havia dinheiro para o sorveteiro, que ficava na esquina próxima à banca de jornais, numa das esquinas.

 

Enquanto a biblioteca de Araras ocupa sozinha uma quadra, o que a destaca e praticamente amplia, a de Piracicaba divide a Praça Cacilda de Azevedo Cavaggione (área delimitada pelas ruas Saldanha Marinho, Campos Sales, do Vergueiro e Tiradentes) com a Escola Municipal “Dona Maria Guilhermina Lopes Fagundes”. A quadra fica ao lado do Hotel Beira-Rio, edifício que até o final da década de 1980 era propriedade do município. E isso quer dizer que o templo local da leitura se localiza nas proximidades do famoso rio de Piracicaba, porém a uma altura que o protege das enchentes que de vez em quando o fazem transbordar (“jogar água pra fora”, como se canta) e destruir os arredores. Esta localização faz com que a biblioteca esteja num ponto que facilita o acesso tanto dos que moram na “cidade”, como se diz (num lado do rio), e dos que moram na “vila” (Vila Rezende, no outro lado do rio), inclusive porque perto dali está a ponte que liga as duas margens – aliás, as pontes, porque mais recentemente foi construída a segunda, juntamente com um vistoso mirante, infelizmente pouco aproveitado até agora.

 

O espaço urbano ocupado pela biblioteca contém um conjunto de imóveis antigos, ainda bem cuidados (exceto alguns, carentes de reformas), revelando se tratar de uma área que não usufruiu, por longo tempo, do interesse especulativo imobiliário que costuma modificar a arquitetura aonde chega. Mas é provável que essa situação mude em breve, pois a cidade está vivendo um surto de construções verticais (cidade em transformação por todos os lados), como que, final e definitivamente, saindo de um período de trauma com este tipo de edificação, criado pela queda do Edifício “Luiz de Queiroz” (conhecido como Comurba), de catorze andares – tragédia de grandes dimensões, ocorrida no dia 6 de novembro de 1964, às 13h35, cujas resultantes ruínas foram totalmente removidas somente dez anos depois. Não fica longe dali uma área que está sendo objeto de disputa entre especuladores (que pretendem lucrar com a construção de duas grandes torres residenciais à beira-rio) e defensores do patrimônio histórico: o complexo da antiga fábrica Boyes. De dentro da biblioteca, olhando através dos seus vidros frontais, vê-se crescer diariamente um prédio, que modificará substancialmente a vista de quem dali, hoje, pode observar o agradável cair da tarde sobre os telhados, enquanto lê com o benefício da luz natural que invade o local como uma carícia.

 


Prédio em construção na frente da biblioteca
Prédio em construção na frente da biblioteca

O entorno da biblioteca é como se fosse “o mundo”, modificando-se dia a dia, sob o impulso de interesses econômicos, da dinâmica social, do fervilhar típico dos aglomerados urbanos; enquanto o interior do prédio funciona como uma espécie de oásis relativamente estável, a não ser pelas mudanças (acréscimos e descartes) no acervo, os novos livros trazendo para dentro as percepções escritas do que há e acontece lá fora. Seria muito favorável aos frequentadores, que defronte, atrás ou nos lados do prédio da biblioteca, houvesse um café, uma lanchonete, uma sorveteria, uma boa padaria ou comércios parecidos – confortos para se buscar ao desejar um intervalo entre leituras, para refletir sobre o já lido, ou para um bate papo entre leitores. Mas isso não existe, a não ser a uma distância um pouco desalentadora. Infelizmente, o volume de frequentadores não parece suficiente para proporcionar a escala necessária para encorajar empreendedores a ali instalar mencionadas comodidades. Talvez o crescimento urbano vertical, com o consequente adensamento populacional desate este nó: maior volume de pessoas para tomar café ou refrigerante, comer pão ou salgados, quiçá uma pamonha, rendendo, adicionalmente, uma meia dúzia de novos usuários-leitores (quem me dera residir num prédio bem em frente à biblioteca pública, ou muito próximo dela, como o Tito Kehl!)

 

Sabendo que as duas horas de que disponho na tarde, para usufruir a segunda visita à biblioteca, passarão muito rápido, e que não sentirei necessidade de um café, refrigerante ou salgado, entro, devolvo o Padura, entrego o comprovante de residência que fiquei devendo ao renovar meu cadastro na visita anterior e corro pegar O homem que amava os cachorros. Deixo para lá, por enquanto, a continuação da pesquisa sobre os clássicos recomendados por Calvino. Novo livro em mãos, sento-me, ansioso, à “minha mesinha” à luz do dia (que será obstruída logo, logo, pelo prédio agora sendo levantado defronte) para o contato inicial com a primeira obra literária do escritor cubano, já conhecedor do enredo, devido à leitura dos ensaios de Água por todos os lados. Penso: se sobrar tempo, inicio o levantamento de quais “clássicos calvínicos” estão disponíveis na biblioteca pública de Piracicaba.

 

Leio, leio, leio. Esqueço tudo o mais. Até que a mudança na intensidade da luz externa me alerta que chegou a hora de parar.

 

Não sobrou tempo para Calvino. A orelha de O homem que amava os cachorros, escrita por Frei Beto, e o excelente prefácio de Gilberto Maringoni me agarraram e, depois, os primeiros capítulos do livro... Foi com esforço que que me levantei da mesa de leitura e dirigi-me ao setor de empréstimo, concluindo a visita.

 

Subindo a Rua do Vergueiro, voltando para casa no fim da tarde, deparei com um boteco de esquina. Estacionei, entrei, pedi uma lata de Coca-Cola. Sentei-me numa cadeira vermelha de plástico, ali, na rua, e li mais um trecho de Padura, ao lado de alguns homens que bebiam cerveja e acompanhavam um jogo de futebol pela pequena TV no alto da prateleira atrás do balcão.

 


Um lugar para uma Coca-Cola e mais algumas páginas
Um lugar para uma Coca-Cola e mais algumas páginas

Ao sair, apreciei o sol outonal, preguiçoso, banhando as casas antigas da rua, tendo ao fundo os edifícios altos do outro lado da Avenida Armando Salles de Oliveira, antecedidos por um pedaço da parte superior, vermelha, da biblioteca já querida. Senti uma espécie de saudade, como se aquela fosse uma cena de foto, de uma cidade em fase de já não ser, sob a cobiça da especulação imobiliária voraz, ultimamente focada em algumas cidades do interior paulista. E me perguntei: sobreviverá a biblioteca neste espaço, quando transformado sob impulsos dessa natureza? Ou desaparecerá sem que ninguém se preocupe com isso, a exemplo do acontecido com a Universidade Metodista de Piracicaba, cujo campus vai se tornar um centro de negócios (sobre os escombros de sua antiga Faculdade de Gestão e Negócios)? Se sobreviver, passará a ser mais frequentada e querida ou será esquecida e abandonada? 


Ao cair da tarde, uma trecho cidade que destoa de sua nova face, agitada
Ao cair da tarde, uma trecho cidade que destoa de sua nova face, agitada

Dirijo o olhar para o lado oposto da esquina do boteco e o que vejo, ocupando um sobrado antigo, restaurado, é uma faculdade ofertante de ensino à distância, igual a numerosas outras existentes no centro da cidade, causadoras, em parte, provavelmente, da derrocada do ensino presencial antes praticado pela falida Unimep, cuja biblioteca riquíssima ninguém sabe ainda que destino teve ou terá: se seu acervo fosse doado à Biblioteca Municipal, provavelmente não caberia no seu prédio atual.

 

(Continua)


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