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Diário da Biblioteca I (cont.), 27/04/2026

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 21 horas
  • 5 min de leitura

Um leitor, dois tempos

 

“O leitor viciado, o que não consegue deixar de ler, e o leitor insone, o

que está sempre desperto (...) os chamaria de leitores puros; para eles a

leitura não é uma prática, mas uma forma de vida.” (Ricardo Piglia)

 


Estantes coloridas da Biblioteca Municipal de Piracicaba
Estantes coloridas da Biblioteca Municipal de Piracicaba

Estacionar e descer do carro na Rua do Vergueiro, contornar a esquina para tomar a Rua Saldanha Marinho e, no número 333, subir a escadaria com providenciais corrimãos, rumo à porta de alumínio e vidro da Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, com a intenção de ali passar um pedaço da tarde quente que se iniciava, lendo ou folheando livros, foi uma experiência que me lançou de volta ao tempo em que eu era um menino de 11-12 anos, idade com a qual, semana sim, semana não, eu ia à Biblioteca “Martinico Prado” para o que se tornara a minha distração favorita (devanear entre linhas, parágrafos e páginas), substituta das brincadeiras típicas da idade, interrompida pelo início do trabalho na Guarda Mirim (oito horas por dia, remuneração de meio salário mínimo da época). Numa fração de minuto, eu senti, enquanto caminhava lentamente, como se a reta do tempo se dobrasse, dois pontos extremos dela se tocando, permitindo, assim, ao velho de hoje, olhar nos olhos do menino que foi, cinquenta anos atrás, e perguntar-lhe: “Será que sentirei lá dentro tanta alegria quanto você sentia na primeira biblioteca de sua vida?”.

 

Não tendo chegado ali “desarmado”, como pela primeira vez chegara o menino-leitor ararense à porta do principal ninho de livros de sua cidade natal, eu não esperava viver, no lampejo que acabo de relatar, a nítida experiência de deslocamento temporal descrita.  Leitor de toda a obra de Italo Calvino (exceto Ti con zero), eu portava uma intenção clara: fazer uma avaliação inicial do potencial do acervo da biblioteca piracicabana para “me ganhar”, verificando se dele constavam todos os livros do renomado autor italiano – os biográficos, os literários e os ensaísticos e assemelhados. Isso numa primeira aproximação. Na sequência, ao longo das próximas visitas, buscar, nas estantes, os autores e obras que Calvino resenha e recomenda em seu delicioso Por que ler os clássicos.

 

Respirei fundo, venci a escadaria, entrei. Diante de um balcão ladeado por duas roletas, enquanto desejava boa tarde ao funcionário que lidava com uns livros atrás do balcão, dirigi-me à roleta da direita e ouvi:

 

– Boa tarde! A entrada é por aqui, senhor – respondeu o funcionário, apontando para a esquerda, onde se lia, numa placa azul: “Entrada”.

 

Agradeci a ajuda e aproveitei para perguntar onde poderia fazer a doação de um livro, já que eu estava levando A livreira de Paris, de Kerri Maher, para esta finalidade (livro de que não gostei e a respeito do qual ainda me pergunto se o título tem alguma relação com O livreiro de Paris, de Nina George). Seguindo a instrução dada, deixei o livro com o simpático funcionário e me dirigi às estantes, sem qualquer impedimento ou dificuldade, para conhecer a organização do acervo e, assim, conseguir localizar obras de meu interesse.

 

Fui rodeando as fileiras de estantes em três cores (vermelho, azul e amarelo) e lendo nos extremos as listas de tópicos contidos em cada uma, enquanto observava, também, o estado de conservação dos móveis e dos volumes, achando-os adequados para a certamente baixa provisão de recursos disponibilizados para a manutenção do equipamento público.

 

Ao mesmo tempo, fui observando a movimentação de usuários. Eram poucos: uma magra e tímida senhora de uns cinquenta e poucos anos lendo numa das mesas defronte ao setor de empréstimos; um rapaz de uns vinte anos e cabelos crespos mexendo no celular colocado sobre dois livros numa mesa de estudos num canto bem ao fundo; um casal de jovens talvez secundaristas trabalhando em outra mesa cheia de livros e com um notebook (ida à biblioteca para as pesquisas escolares e, aproveitando a ocasião, curtindo a boa companhia?); um senhor de bermudas e tênis puxando uma poltrona para debaixo da luz para folhear uns quatro livros que escolhera para isso; alguém trabalhando com livros e notebook numa sala de estudos. Vi entrarem e saírem, para pegar ou devolver livros, umas três ou quatro pessoas, entre elas uma mãe com a filha pequena, que saiu com um livro grande debaixo de um braço e a menina agarrada pelo outro.

 

Decidi ir ao banheiro para ver se oferecia boas condições de uso. Apesar de um pouco desgastado e com duas pias e torneiras quebradas, o masculino estava bem limpo, contando com papel higiênico, recipiente de desinfetante para mãos, toalhas de papel e cestos de lixo. Três banheiros: feminino, masculino e para portadores de deficiência. Próximos dali, um bebedouro e copos de plástico. O suficiente para o conforto mínimo para alguém que deseja ou necessita permanecer no local para leituras ou pesquisas por horas.

 

Tendo identificado as estantes das obras de literatura italiana, fui passá-las em revista. Não contei o número títulos – talvez uma centena ou pouco mais (Petrarca, Dante, Eco etc.). Sem a totalidade dos livros de Italo Calvino em tradução portuguesa, mas com um bom número deles, alguns duplicados ou triplicados. Não achei Por que ler os clássicos, deixei para perguntar na hora de registrar o empréstimo do livro que iria escolher para levar.

 

Primeira parte da missão cumprida, quanto ao objetivo de avaliar preliminarmente a qualidade do acervo, fiquei passeando entre as estantes em busca de um título que pudesse me interessar, dentre aqueles que tenho anotados para abordagens futuras. Encontrei vários e terminei optando por Leonardo Padura, autor que há uns quatro ou cinco anos está entre os meus interesses, por ouvir falarem bem de sua poética e de seus temas e por desejar diminuir meu desconhecimento quase total da literatura cubana.

 

Ensaios de um escritor cubano apegado à cubania
Ensaios de um escritor cubano apegado à cubania

– Sim, alegria! – o velho registrou mentalmente, dando resposta à pergunta que fizera ao menino-ele-mesmo sobre a possibilidade de uma biblioteca que não a sua primeira fazê-lo feliz novamente. E dirigiu-se a uma mesa bem iluminada pela luz natural vinda da rua, para ler as páginas iniciais de Água por todos os lados. Opa, bom!

 

Alegria que cresceu bastante, no momento de entregar o livro para registro do empréstimo e liberação para saída. Antonio, o funcionário do setor exclamou:

 

– Padura! Temos que ler essa gente, reforçar nossas almas latino-americanas. Não é?

 

Aí eu me senti em casa, até mais que na Biblioteca “Martinico Prado”, na qual a tônica era, ao menos para os meninos pobres que ali entravam, impor silêncio e cobrar zelo pelos livros (por mais que, no meu caso, este fosse mais que notório: levava sempre uma mochila para bem acondicioná-los).

 

Enquanto renovava meu cadastro de usuário, conversei um pouco mais com Antonio, sobre literatura, teoria crítica e também sobre a história e o funcionamento da Biblioteca “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”. Fiquei sabendo, por exemplo, que o prédio que a abriga foi construído com dotação orçamentária cedida pela Câmara de Vereadores, que, em troca, ficou com o prédio onde antes estavam os livros, muito mal acomodados – negociação de que participou o vereador João Manoel, então presidente do Legislativo, que tive oportunidade de conhecer.

 

Reclamei da lacuna representada pela falta de Por que ler os clássicos. Antonio olhou para o colega ao lado, Marcelo, e disse: – Mas temos, não é? Recebeu resposta positiva, acrescida de uma informação pertinente dada a mim:

 

– O senhor deve ter ido somente na estante de literatura italiana. Este livro é de teoria literária.

 

– Ah, você tem razão. Muito agradecido, gente! Até a próxima!

 

(Todavia, Água por todos os lados, que não é literatura cubana, mas ensaios de Leonardo Padura, encontra-se, na estante, entre as obras literárias deste autor. Não é fácil para os bibliotecários proceder à classificação...)

 

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