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  • Foto do escritorValdemir Pires

Assassinatos da Rua Morgue



Sobre Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias, de Edgar Allan POE, trad. de Willian Lagos (São Paulo: Mediafashion, 2016, 110 p.).

 

            Tendo vivido apenas quarenta anos, na primeira metade do século XIX, Edgar Allan Poe figura entre os grandes mestres do conto. Suas narrativas curtas de grande efeito são conhecidas pelo teor inquietante, de mãos dadas com o horror. Dialogando com as ciências e técnicas, motivos de euforia em seu tempo, Poe busca em geral desarmar o espanto costumeiro diante de acontecimentos, fatos e fenômenos que se apresentam como misteriosos, maravilhoso ou inacreditáveis, geralmente revestidos de aspectos macabros, medonhos, horripilantes.

            Em Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias (de 1841), o conto que dá título ao livro tem como personagem principal o detetive Dupin, não tão famoso quanto o Poirot, de Agatha Christie e o Sherlock Holmes, de Conan Doyle, mas tão esperto quanto eles: observador inimitável e raciocinador fabuloso, capaz de desvendar crimes aparentemente insolúveis. Nesta narrativa policial, Poe expõe, narrando, o que explica no início, dissertando, as “características mentais” dos indivíduos (como Dupin) capazes de mergulhar com sucesso extraordinário nas tramas dos acontecimentos, a ponto de desvendar-lhes causas, efeitos e agentes.

            É impressionante como este contista consegue, numa narrativa curta, inserir digressões que não a inviabilizam ou diminuem literariamente, como costuma acontecer, mesmo em romances longos. E o faz com a consciência de que comete um desvio da regra (contar, nunca explicar), tanto que na longa digressão que dá início ao conto da Rua Morgue comenta, antes de prosseguir argumentando e adiando o “contar”, propriamente: “Não me disponho agora a escrever um tratado, mas estou simplesmente prefaciando uma narrativa um tanto peculiar através de observações bastante casuais; aproveitarei a ocasião, portanto, para afirmar que os poderes mais altos do intelecto reflexivo são exercitados de forma mais decidida e mais útil através do humilde jogo de damas do que pela frivolidade elaborada do xadrez.” (p. 68)

            O conto O demônio da perversidade, primeiro do livro, tem exatas oito páginas e é praticamente uma breve “tese” sobre a perversidade, apresentada pelo personagem-narrador, uma de suas vítimas.

            A maldição sem fundamento que pesa sobre os felinos urbanos de cor preta talvez tenha se fortalecido graças ao quarto conto de Os assassinatos da Rua Morgue, chamado exatamente O gato preto, em que volta à baila a questão da perversidade. O personagem-narrador vem a possuir dois desses belos animais e as consequências são trágicas, reveladas numa escrita arrebatadora. Se, ao terminar a leitura, alguém ouvir um miado, é provável que saia correndo à procura de esconderijo.

            Nesta coletânea deliciosa, que se pode ler “de uma sentada”, Poe deixa claro o que quis dizer  Julio Cortázar ao, certeiramente, afirmar: “O romance vence sempre por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute.”

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