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  • Foto do escritorValdemir Pires

A identidade



Sobre A identidade, de Milan KUNDERA, trad. de Teresa B. C. da Fonseca (São Paulo: Companhia das Letras, 1998, 142 p.)


 

Jean-Marc e Chantal (mais velha), um casal diferente, consistente à primeira vista. Decidiram viver juntos, depois de suas respectivas desilusões (amorosas e familiares dela, profissionais dele). Realmente se amam e se amparam. Entre eles, um pacto, desde o primeiro encontro: o passado de cada um deve se manter desconhecido do outro. A confiança mútua existe e o ciúme não acontece. Até que...


Assim começa o romance: “Um hotel numa pequena cidade à beira-mar na Normandia que tinham encontrado num guia por acaso.” Chantal vai primeiro, Jean-Marc no dia seguinte. Ao chegar, antes de jantar, ela guarda as malas no quarto e passeia rapidamente pelas ruas desconhecidas. Desencanta-se com o comportamento dos homens que vê passeando com suas famílias, carregando crianças. Nota que nenhum desvia o olhar para observá-la. E isso a afeta. Desajeitadamente, revela seu desconforto a Jean-Marc.


Na tentativa de aliviar os sentimentos de decadência (para ele ilusórios) de Chantal, Jean-Marc urde e põe em andamento um estratagema (cuja revelação, aqui, estragaria a leitura do romance). Mas o resultado não vem a ser o esperado, muito pelo contrário. O que se passa a partir de então são descobertas e desconfortos que põem em dúvida se existe para cada um uma identidade estável, válida para si e para os outros, se existe a possibilidade de um relacionamento amoroso “fugir às armadilhas da mata escura”, às vezes engendradas pelos próprios amantes.


O livro, que começa com uma narrativa convencional sobre o dia a dia de um casal, termina com cenas oníricas (pesadelos, na verdade), transmitindo a sensação de que entre o real e o imaginário a fronteira raramente é nítida. Não à toa a última fala de A identidade é de Chantal: “Vou deixar a luz acesa a noite toda. Todas as noites”.


(Vale notar a bela capa de João Baptista da Costa Aguiar a partir de bem escolhida obra de Lasar Segall de 1929)

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