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A felicidade de graça

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • há 10 horas
  • 5 min de leitura

“Uma mente precisa de livros como uma espada precisa

de uma pedra de amolar, se quiser manter sua lâmina.”

(George R. R. Martin)

 


Mesa de leitura na Biblioteca "Ricardo Ferraz de Arruda Pinto"
Mesa de leitura na Biblioteca "Ricardo Ferraz de Arruda Pinto"

“Arthur Brooks, professor de Harvard: ´As pessoas mais felizes são as que nunca param de aprender´”, destaca o Portal 6, invadindo na manhã fria de hoje (27/06/2026) a tela do meu celular, complementando: “Especialista em felicidade afirma que a curiosidade ajuda a manter o interesse pela vida e fortalece o bem-estar emocional.”

 

De imediato, parece se tratar de uma boa notícia para os infelizes e, principalmente, para os afetados pela depressão, colocando-lhes nas mãos uma chave para deixar a cela em que se encontram. Aguçando minimamente o raciocínio, todavia, pode-se inquirir: o que é felicidade? que relação existe entre o aprendizado e a curiosidade? em que consiste “nunca parar de aprender”?

 

Antes de tudo: aprender passa por não aceitar prontamente o que os outros dizem, por mais abalizados que sejam, como são, por exemplo, os cientista e, mais ainda, aqueles de Harvard. Ora, aprender requer, necessariamente, perguntar, mesmo, e talvez principalmente, quando a resposta vem pronta e sem ser solicitada. E essa constatação oferece pistas à resposta à segunda das questões acima (deixando-se a primeira para outra ocasião, dada sua extrema complexidade, mas supondo-se que talvez lá em Harvard estejam associando felicidade à eudaimonia aristotélica): só aprende quem deseja saber, só obtém resposta significativa quem pergunta. E, note-se bem: só aprende profundamente (e com alegria) quem deseja saber, não quem precisa saber. Há uma imensidão de coisas que todos precisam saber, pois do contrário a sobrevivência não é possível. Algumas delas, o corpo aprende como que sem fazer uso da razão, do raciocínio: por isso dizem hoje, sob um quase-consenso, que o intestino é uma espécie de segundo cérebro – há, por assim dizer, um aprendizado metabólico (não mental, propriamente), para o qual a sinapse parecer pouco contribuir. Esse tipo de aprendizado não é fundamental somente para a felicidade, mas, antes disso, para que exista uma pessoa que possa, em seguida, aspirar à felicidade. E se o metabolismo dessa pessoa – se a homeostase de seu organismo – falhar, talvez ela jamais consiga ser feliz...

 

Outras coisas além das metabólica um indivíduo precisa aprender, não porque deseja, mas porque seu cérebro o alerta de que sem este aprendizado, morrerá ou viverá muito mal e precariamente (será infeliz). Aí se enquadra todo tipo de conhecimento necessário para a sobrevivência não do organismo, do “corpo biológico”, mas do “corpo social” que é uma pessoa, um “eu”. Saber fazer alguma coisa para vender aos outros, dominar as técnicas e metodologias de uma profissão, por exemplo, está entre as principais delas. Garantida a sobrevivência material, é preciso mais: saber viver em sociedade, manejando bem o que exigem as relações, interpessoais e sociais.

 

É possível alguém se encantar com os aprendizados profissionais e, mais facilmente ainda, com os aprendizados envolvidos nas relações interpessoais e sociais. Aliás é nesse campo de conhecimento que ganham dinheiro os arautos da autoajuda. Não raro, quem lê essa literatura rasa sente-se alçando-se à mais saborosa – porque aparentemente útil, de imediato – das filosofias, quando, na verdade, a filosofia só pode ser, intrinsicamente, útil, se não ficar pendurada à “filosofia útil” dos mentores e coachings que proliferam ultimamente, no solo fértil, para isso, que é a internet, mormente suas redes sociais.

 

Estou querendo chegar ao ponto em que se possa afirmar que a curiosidade genuína, aquela em que a verdadeira filosofia (no sentido mais profundo dessa expressão) pode ter lugar, é aquela do polímata, a de um Leonardo da Vinci, por exemplo: um indivíduo fascinado pelos mistérios do mundo, da vida e das relações; alguém sempre de olhos abertos para tudo e todos ao seu redor, decidido a “gastar tempo” esmiuçando detalhes de percepções colhidas ao longos dos anos, dos meses, dos dias, das horas: um encantado permanente, um guloso pelos alimentos que nutrem a alma. Em palavras comezinhas: um homem que deseja aprender, mesmo aquilo que não precisa saber. Um homem desses, se não se basta (pois ninguém se basta), sabe como lidar com sua incompletude, pois para ele esta (sua incompletude) não é senão mais um dos tantos mistérios com que se depara, entre os milhões de outros mistérios que o mundo, o universo, a existência humana, oferecem para deslumbre de quem sabe se encantar.

 

Leonardo da Vinci, se vivesse hoje, quanto teria de onde partir, para satisfazer sua curiosidade? Estaria diante de uma quantidade de livros que em seu tempo não seria imaginável, muito menos a profusão de informações presente na internet. Seu Códice Atlântico, diante disso, teria materializado a Enciclopédia dos franceses, sem que esses tivessem buscado reunir todo o conhecimento humano em volumes escritos!


Como – aceite-se – não dá para conceber que um único, nem mesmo uns poucos indivíduos, seja capaz de, partindo de tanto material, sintetizar e avançar, é simples exercício de imaginação conceber Da Vinci conduzindo a humanidade à plenitude do conhecimento, muito menos da sabedoria. Portanto, o ponto de chegada possível nessa reflexão é que o “modelo da Vinci” é o que melhor se adapta à afirmativa de que “as pessoas mais felizes são as que nunca param de aprender”, é o polímata, jamais especialista, sempre generalista. Isso porque o especialista é e profissional do conhecimento, não o amador (o que ama) o saber.

 

Os amadores do saber procuram saciar sua curiosidade de graça, sem buscar remuneração, porque a sua paga é o que descobrem, descortinam, desvendam e, às vezes, desmistificam - o brilho nos olhos que enfim se abrem e veem. São eles os amantes dos livros, mais do que da profusão de letras e imagens da internet, porque sabem que, se precisam pular de galho em galho em galho (ficar virando páginas), o tempo todo, para se sentirem bem, avançando no desvendamento de mistérios, estão muito cientes, por outro lado, de que não podem jamais ficar passando de folha em folha (scrollando), pois assim mais se perdem do que encontram.

 

Isso poderia levar a uma defesa das livrarias, muito conveniente para os que ganham/lucarm promovendo o consumo de livros (como estão fazendo ao empanturrar as mídias com os notícias sobre os tais clubes do livro e de leitura - pagos - e assemelhados). Mas não! Não se busque comprar essa felicidade: basta frequentar uma biblioteca – ali estarão disponíveis, gratuitamente, tantos livros (não para consumo, mas para partilha) que não é possível alguém lê-los todos durante sua vida. Que quem pode – quem tem dinheiro – compre livros, de preferência muitos, para que, afinal, as editoras sobrevivam, os autores possam ser remunerados etc.; que nisso os governos cumpram o papel que só eles podem cumprir, por exemplo, criando e sustentando bibliotecas, quiçá subsidiando a produção livreira. Mas que no meio disso, desse mercado, não morra a biblioteca, pública, aberta a todos, sem necessidade de pagar para ler, a fim de que o desejo de saber, a curiosidade, seja um bem livre (livro como bem livre), democraticamente acessível.

 

Ler livros, sempre, a respeito de tudo, é nunca parar de aprender, e aprender de um modo absolutamente potente, pois desse modo evita-se ficar “reinventando a roda”, já que com os livros se aprende estando sobre ombros de gigantes (os autores), para lembrar uma famosa frase destacada de uma carta de Issac Newton, de 1675, a Robert Hooke: "Se vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes."


O mais curioso dos humanos?
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