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  • Foto do escritorValdemir Pires

A borboleta amarela



Sobre A borboleta amarela, de Rubem BRAGA (Rio de Janeiro: Record, 1982, 6ª. ed., 162 p.)

 

            Trata-se de uma coletânea de crônicas escritas nos anos de 1950 e 1952, no Rio e em Paris (exceto uma ou outra, escrita em lugares diferentes destes), publicadas no jornal Correio da Manhã. Mais do que isso, é uma coleção de crônicas de um dos maiores nomes deste gênero.

            A crônica era muito valorizada no tempo em que o jornal era o principal veículo da informação coletiva, formador da opinião pública e alimentador das contendas. Nos diários e semanários, o cronista funcionava como o generoso ofertante da pouca leveza contida nas páginas descartáveis, que vinham carregadas de notícias de polícia, política, economia, quotidiano etc. Era uma espécie de interlocutor frequente na luta para manter a cabeça acima da água do rio sujo que ameaça afogar quem nele está lutando contra a correnteza. Havia cronistas com uma legião de seguidores, como Rubem Braga, cujos textos eram ansiosamente esperados em dias fixos da semana. Não à toa: basta lê-los.

            É um privilégio poder ler essas crônicas todas sem ter que esperar que sejam publicadas no jornal; ler todas de uma só vez, caso se queira, pois não é difícil: a gente lê uma, quer logo ler outra, tão convidativas elas são.

            Dada a sua natureza – trata de temas miúdos do quotidiano, sob o olhar específico do autor – a crônica normalmente é datada, perde interesse na medida em que o tempo passa. Mas não é o que acontece com os textos de A borboleta amarela, pois apesar de “simples cronista”, Rubem Braga faz literatura de alta qualidade, desenvolvendo uma poética fácil de notar e de sorver no conjunto de sua obra. Ele sabe como poucos esconder a sofisticação atrás da cortina da simplicidade.

            Eu diria que Rubem Braga é um fotógrafo de emoções urbanas centradas no amor à vida – e à mulher, sobretudo – sob um véu de melancolia, cabeça no mundo, pés fincados na terra natal: Cachoeiro do Itapemirim, no Estado do Espírito Santo. E que fotógrafo! Enquadramentos perfeitos, controle fino da luz e da velocidade, excelente escolha de motivos.

            Se me perguntarem qual a minha preferida dentre as cinquenta e duas crônicas (algumas quase contos) deste livro, estarão me pondo diante de um desafio que eu preferiria evitar. É o conjunto que valoriza cada uma delas. Mas, em todo caso, vale destacar uma ou outra passagem, apenas para que se possa ter uma ideia da coisa.

            Flor de maio é uma crônica em que Rubem Braga se revela desgostoso com os conteúdos pesados (manchetes e notícias para chamar a atenção e vender exemplares) dos jornais de então, o bom da vida parecendo não existir, como ele destaca também na crônica Os jornais (p. 74-76). Em Flor de maio ele chama a atenção para a presença, numa edição diária, de umas poucas linhas em que é feito um convite para que as pessoas visitem o Jardim Botânico do Rio, para ver a flor de maio, então florescendo. Ufa! – uma brecha para respirar – pensa ele. E na sua crônica reforça o convite, então. Termina dizendo: “Ir só, no fim da tarde, ver a ´flor de maio´, aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas cofaps de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.” (p. 122-123)

            Em A viajante, um tema recorrente: a mulher, muitas delas passageiras, lampejos. Como este: “Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida – e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio – você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.” (p. 109) E este (em Visão, p-. 149): “Foi apenas um instante antes de se abrir um sinal numa esquina, dentro de um carro negro, uma figura de mulher que nesse instante me fitou e sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e a boca fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios como se fosse dizer alguma coisa – e se perdeu, a um arranco do carro, na confusão do tráfego da rua estreita e rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de luz. Com vento agitando árvores e derrubando flores, e o mar cantando ao sol.”

            Passageiro é também aquele que escreve crônicas:  “(...) o cronista (...) é como o cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha e vai.” (Manifesto, p. 84). Mas, grande Rubem, há cronistas/ciganos cujos passos marcam para sempre o caminho que percorrem, servindo de guia a caminhantes futuros. Por isso nós, seus leitores de ontem e de hoje nessa estrada da vida, lhe agradecemos!

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