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  • Foto do escritorValdemir Pires


Fotocolagem sem título, Valdemir Pires


Padre Silvério foi meu único confessor enquanto fui católico, em Varginha. Ele me batizou e foi dele que recebi a Primeira Comunhão. Sua prima de vestido cinza me catequizou e me preparou para a Crisma. Tanto ele quanto aquela senhora confessavam não serem capazes de evitar pelo menos um dos sete pecados capitais quando, frequentemente, almoçavam aos domingos, depois da missa, na casa de minha avó, para onde toda minha família e alguns vizinhos convergiam a fim de praticar o mesmo pecado, provocado pelos generosos quitutes de dona Leonor.


– Bendita seja dona Leonor, bendito seja o fogão a lenha, benditas sejam as tralhas de cozinha, bendito seja o porco, que nos presenteiam com o torresmo divino que agora vamos saborear – assim orava o gordo e vermelho padre, antes da refeição, um sorriso no rosto, para logo em seguida emendar, sério: – E perdoa-nos, Senhor, pelo pecado da gula; que este fugaz momento de destempero não nos prive da Eternidade ao Teu lado.


– Amém! – respondíamos, os mais velhos emborcando a taça de vinho tinto doce de garrafão, e as crianças (eu, meu irmão, os filhos dos vizinhos – Maria Hermínia, afilhada de minha mãe, entre eles), esvaziando avidamente a garrafinha de guaraná gelado, dispensados os copos.


Todos satisfeitos e alguns mais “alegres” do que deveriam, a tarde seguia modorrenta para os adultos e animadíssima para as crianças, com seus jogos e desavenças miúdas, de que se lembrariam durante toda a adolescência e início da juventude e para além dela. Desavenças que passaram a incluir, a partir de certa idade, aquelas geradas pelas disputas para a formação de hipotéticos casais, sob forte impulso hormonal. Maria Hermínia – Mina, como a chamávamos – foi o centro de inúmeras dessas disputas entre rapazes, inclusive eu. Zenildo e Armando, por exemplo, até hoje não se dão bem comigo por conta de acontecimentos desse nosso passado comum. 


O triste fim daquele sacerdote que era o pivô dos encontros de domingo em Varginha foi o que me levou a abandonar a fé. Padre Silvério morreu perfurado por sete balas calibre trinta e oito, duas delas desfigurando seu rosto redondo. Foi encontrado em início de decomposição no casebre de um sítio remoto, de propriedade de Jordão Nunes, dono da farmácia e marido de Matilde, que ia com o padre para lá com certa regularidade, não para orar. Essa história fez com que me sentisse o mais idiota dos seres humanos ao me lembrar das tantas vezes em que relatara ao confessor, em busca do perdão divino, a posse erótica de Maria Hermínia, cujo corpo ausente eu descrevia, ajoelhado diante do velho confessionário de madeira escura, com todas as suas formas, cores, cheiros, sabores e reações aos meus caprichosos carinhos imaginários.


– Reze sete Pai Nosso e três Ave Maria toda noite antes de dormir, nos dias de semana. E no fim de semana, não coma torresmo nem beba refrigerante. Deus lhe perdoa! Arrependa-se e não torne noutra.


Hipócrita! Traidor.


Essa terrível decepção religiosa foi o que inicialmente motivou em mim, na passagem dos dezessete para os dezoito anos, e ao me mudar para Belo Horizonte, a troca do futuro incerto pelo presente garantido, a vida eterna no Paraíso pela vida finita na Terra. Caí nesta vida, literalmente! Bem dentro dela, no centro de seu furacão. Com forte ajuda dos Zaratrustanos que militavam no Centro Acadêmico, cabulavam aulas, colavam nas provas e praticamente moravam nos botecos, tanto nos da periferia como nos da Savassi, conforme decidíamos a cada noite, sempre com vistas a viver experiências “libertadoras e enriquecedoras” sob o lema “Deus está morto! O momento é nosso! Vivamos!”


Ia nessa batida a minha existência, no quarto ano a trancos e barrancos do curso de Sociologia, quando a Praça Governador Israel Pinheiro recebeu o Papa João Paulo II. Um não sei quê de nostalgia misturada com enfado me amolecia e o clima de euforia religiosa vivido pela cidade, naquele momento incomum, aparentemente curou a ferida aberta pelo Padre Silvério – então fui ao local da missa papal, sob um impulso fora de meu controle.


Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Apesar dos desencantos, lá no fundo continuo achando que isso é verdade. Eu diria até mais: Deus, sem escrever uma só letra, nos manda “cartas” cujo teor é lido diretamente pelo coração, este analfabeto intelectual e sentimental, que não cessa de nos meter em confusão. A mensagem que me enviou teve a forma de um encontro inesquecível, que agora lhes relato.

 

Chegando àquela que depois passou a se chamar Praça do Papa, eu tentava atravessar a parede humana em torno do local em que dali a duas horas estaria o Sumo Sacerdote peregrino. Eu fazia o mesmo que milhares de pessoas: ia me encostando, tão educadamente quanto possível, nos mais próximos, e forçando passagem. Fazia isso havia menos de um quarto de hora quando esbarrei em Maria Hermínia, que logo me reconheceu.


– Oi, Anísio!!! Quanto tempo!


– Mina!!! – eu exclamei, sem conseguir esconder o espanto diante de sua nova e ainda mais exuberante beleza, abraçando-a longamente, enquanto a memória convulsionava imagens da menina tímida de Varginha com quem eu ainda sonhava de vez em quando. – Que alegria encontrar você! Como vai? Mora aqui, também?


– Não, não, vim para ver o Papa. E você? Uai! Pelo que me constava tinha passado de coroinha a anticlerical.


– Então, sua informação tá correta. Mas resolvi dar uma olhada nesse trem aqui, que não voltará tão cedo, né? E, confesso, acabei sendo contaminado por este clima fervoroso: acho que não sarei totalmente do mal da fé.


 – Hahaha. É, às vezes balançamos, mesmo. Nossa, tá quente demais aqui. Foi bom te ver. Eu vou ali aonde tem menos gente, procurar algo para beber. Estou com sede.


– Está quente, mesmo! Posso acompanhá-la?


– Claro, vamos lá. Assim me conta novidades e eu te atualizo sobre a terrinha.


Demorou alguns segundos, mas a ficha caiu: o incômodo com o calor e a sede  foi pretexto dela para ficarmos a sós. Entendi pelo olhar significativo que ela me lançou  junto com a inxplicável despedida instantânea. A timidez dos tempos do interior já não era mais uma característica minha, muito menos a incompreensão das artimanhas femininas, embora eu ainda fosse um tanto lento para perceber esses subterfúgios, os Zaratrustanos nunca perdendo a oportunidade de zombar de mim por isso.


Foi assim que começou uma noite que terminou num motel e rendeu, além da realização de um sonho de menino, uma conversa que eu nunca suspeitei pudesse ter com aquela menina. Objeto de desejo adormecido, percebi não só que as substitutas nunca tinham estado à altura dela, como também que ela se tornara bem mais que uma linda mulher.


Maria Hermínia estava lecionando Filosofia no então ensino médio; iniciara como estagiária, enquanto se graduava nessa área em uma faculdade do interior mineiro. Ao mesmo tempo, não arredara pé das atividades da paróquia, principalmente das missas dominicais. Estava repleta de ideias e sonhos, de um modo extremamente contagiante. Suas recentes leituras de Henri Bergson a encantavam e sobre elas conversamos um bom tanto.


– O tempo, Anísio, nunca é o mesmo para todos, nem para cada um em todas as situações. Ele é duração, que não se mede com régua única. Quanto você esperou para desistir de me encontrar, você que me amou sem que eu soubesse e sem saber que eu também te amava? Por quanto tempo eu te esperei?


– Somente depois de hoje eu soube que esperei por você durante um século, sem nunca te encontrar, e então desisti; somente hoje eu senti que entre o que estamos vivendo, aqui e agora, e os tempos em que éramos apenas amiguinhos em Varginha, não se passou um minuto.


– Exatamente! E agora, quanto vai durar o que acabamos de começar?


O silêncio falou pelos dois. Foi longo e penoso.


Para quebrar o gelo, eu disse:


– Sabe quantos Pai Nosso e quantas Ave Maria tive que rezar por causa de você, depois das confissões com Padre Silvério?


– Hahaha, sério? Será que foram tantas orações quantas eu também tive que rezar por sua causa, além de me abster das leituras que ele sabia que eu gostava e ele não aprovava? Que tempo foi aquele?


Então, refletindo por um momento, ela completou:


– O início desse tempo que estamos vivendo neste instante – o mesmo para nós dois, não acha? – está lá naquela casa de murinho gradeado na frente e quintal à sombra das árvores... lá em Varginha. Agora sabemos.


Eu assenti, emocionado demais para falar.


Ela me abraçou e não discutimos mais o futuro distante. Apanhamos as roupas, nos vestimos e voltamos para a Praça do Papa, mas o que lá havia eram os restos da dispersão posterior à apoteose. O que trouxe de volta o problema do futuro, agora imediato:


– Estou no Hotel Recanto das Alterosas.


– Quer que eu a acompanhe até lá? Ou gostaria de conhecer um pouco da noite belorizontina?


– Você estaria perguntando ou estaria se oferecendo se não tivesse acontecido o que já aconteceu hoje entre nós? – ela perguntou meio séria, meio brincalhona.


Continuamos o diálogo em tom de pilhéria, simulando posturas e frases formais, como se fôssemos dois intelectuais se confrontando.


– Sinceramente – e em seguida carreguei no pedantismo – não sei se, desconsiderado o motel, eu iria sub-repticiamente tentar chegar ao seu humilde quarto de hotel e, uma vez nele, na sua cama; ou se teria a paciência das preliminares com alguma bebida por aí. E concluí com sinceridade, meus olhos diretamente nos dela: – O que sei é que algo muito bom vibra em mim em sua companhia. O que achou da resposta, senhora filósofa?


Ela manteve propositadamente o tom pedante:


Encantadora se dita a uma provinciana qualquer – bela cantada, quase irresistível; motivo de reflexão para uma provinciana, porém atenta aos perigos da vida, ainda mais se colocada diante de uma paixão mantida no armário por alguns anos. – Que tal a réplica, senhor sociólogo?


– Assustadora! De jogos de amor a torneios filosóficos, estamos nos saindo adultos demais para nossa idade, não acha?


Abandonando o teatrinho, ela respondeu, rindo:


– Perfeita constatação. Será que não envelhecemos antes do tempo? Você, pela experiência na cidade grande; eu, pelas leituras em que mergulhei, pois elas é que me restaram na cidade pequena.


– Seja como for, repito: sei que algo muito bom vibra em mim em sua companhia.


– Então eu vou acompanhá-lo em sua decisão. Hotel ou o quê?


Aquela noite não poderia terminar com um beijo de despedida na entrada de um hotel. Seguimos para a Savassi, fervilhante. Mantive-me o tempo todo atento ao comportamento de Maria Hermínia. Certamente ela não era mais a menina que eu conhecera: desenvolta, mas comedida; decidida, mas com certo freio; dada, mas com alguma reserva; mulher, mas com um quê da garotinha vinda da nossa infância comum. Enigma. Quem era ela, agora? Quais suas intenções? O que eu farejava no ar não era amor (desses rotineiros, padronizados), paixão ou simples aventura erótica. O que seria?


Encontramos dois casais e um avulso dos Zaratrustanos e nos juntamos a eles na mesa do bar lotado e barulhento da Savassi. Apresentei-os a ela e vice-versa. Notei o olhar de admiração de todos diante da beleza de Mina. Acácio me deu sinais para irmos ao banheiro. Para perguntar:


– Cara! Assaltou o templo? De onde você raptou essa deusa?


– É uma velha amiga, Cacinho.


– Só amiga?


– Só.


– Então a porteira tá aberta?


– Cara, fica na sua, né? Tá comigo hoje.


Acácio bateu uma mão na outra, ergueu as duas para cima, para que eu batesse com as minhas nelas, simultaneamente, sinalizando um “entendido”. E disse, levantando o indicador em minha direção:


– Hoje.


Fiquei desconfortável, mas não dei sinais. Acácio não foi capaz de tirar os olhos de Mina e de não fazer esforços para chamar a atenção dela. A partir de certa hora ela começou a lhe dar corda. Mas por pouco tempo. Logo sentou-se na cadeira próxima à minha, enlaçou seu braço esquerdo ao meu direito e encostou a cabeça no meu ombro, ali ficando até nos retirarmos, eu me sentindo próximo às portas do Paraíso, do lado de dentro, podendo espiar lá fora, onde estava a multidão na Savassi, dentro e fora do bar.

 

– O resto, queridos ex-Zaratrustranos, agora comedidos comedores de macarrão dominical, “com a boca escancarada, cheia de dentes esperando a morte chegar”, o resto da história vocês já conhecem e estamos aqui para comemorar: vinte anos. Vinte anos!


– É tempo, hein! – observou Amálio abraçado a Tereza, professora de Literatura recém-formada.


– Com ou sem eterno retorno? – perguntou Afrânio, ao que todos riram, alguns sem entender, porque havia ali amigos recentes, sem trajetória zaratrustiana.


– Para mim se passaram alguns dias, e ficamos sempre no mesmo lugar, uma ciranda de coisas acontecendo ao redor. – disse Maria Hermínia, serena e risonha, dirigindo o olhar confirmador a cada um dos presentes, em sequência.


Eu me levantei e beijei sua testa e segurei suas mãos nas minhas, meus olhos nos dela. Todos aplaudiram e o velho professor de Geografia José de Arimatéia (nosso colega de trabalho na Escola Estadual Antonio da Costa Santos), combinando os sotaques seu e nossos, brincou, arrancando risos gerais:


– Casalsinho arretado, uai!


 

Eu posso não acreditar em Deus? – pergunto a você que me lê. Sem ele, não existiria Igreja, não teria havido Padre Silvério (traidor!) em Varginha, nem João Paulo II visitaria Belo Horizonte no dia primeiro de julho de 1980; e o meu encontro com Mina teria se derretido nas possibilidades esquecidas ou abandonadas pelo Universo.

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