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  • Foto do escritorValdemir Pires

Pó de estrela

Atualizado: 26 de dez. de 2023



Tenha paciência comigo, paciência com o que vou dizer. Eu lhe prometo uma mesa de bar, com cerveja, petiscos e boa companhia (não deixe de notar o Juca), num agradável lugar, numa bela noite enluarada. Se isso tudo não alegrar seu coração, porque existe o risco de a conversa ser aborrecida, eu lhe prometo uma fresta, um buraco de fechadura, de onde poderá ver Deus, não aquele possessivo e punitivo, mas Deus tal como Ele talvez seja, livre das falhas e imperfeições humanas que lhe atribuímos.

 

Quem sou eu, este desconhecido inoportuno que pede sua atenção? Não sei.

 

Se digo meu nome, digo que sou Miguel Arruda, filho de Maria Bernardes, que escolheu meu prenome dez meses depois de, no cartório, ter alienado o sobrenome dela para Leonel Arruda, meu falecido pai. Se digo meu nome, não digo quem sou, mas como me chamam. Eu não sou o meu nome. Aliás, fosse eu a escolhê-lo, seria Euclides. Isso hoje, quando tenho quarenta e sete anos. Na infância, tive preferência por Roberto (um tio querido) e, na adolescência, quis me chamar William (um ator de cinema). Não me lembro de outros, que devem ter existido. Mas com certeza não sou o meu nome, nem seria se o tivesse escolhido.

 

Para os outros, sou apenas uma lembrança, antiga ou recente. Minha mãe ainda me trata como seu menino, o que às vezes me causa constrangimento. Alguns inimigos que tenho, por variados motivos, assim permanecerão mesmo que a razão da discórdia tenha desaparecido. Meus amigos e amigas – a meia dúzia que acumulei, nisso não me diferenciando de todo mundo – cada um me tem por aquilo que fui quando o encontrei, com poucas e vagas mudanças ao longo do tempo, no caso daqueles com quem mantive convivência mais longa. Quem quer que seja chamado a dizer a respeito de quando me conheceu ou encontrou, pintará um quadro que o tempo desbotou, mudou de cor ou teve suas formas alteradas, caso não tenha sido totalmente substituído por outro. Se alguém perguntar ao meu amigo Maurílio, que me acompanha desde os anos iniciais do ensino básico até sua mudança para o Uruguai há cinco anos, ele dirá que sou gente boa: estudioso, profissional competente, amigo de todas as horas, bom filho, avesso a badalações sociais, às vezes meio teimoso etc. Eu já o ouvi falar de mim para outras pessoas, tanto notando minha presença quanto não percebendo que eu o ouvia. Ele tem por mim – como eu por ele – elevado apreço. E isso contamina a sua descrição, claro. Eu próprio a remendaria aqui e ali, para melhor e para pior. Isso quer dizer que eu não sou o que ele diz. Mas considerando o que ele diz, eu não sou o que eu mesmo diria de mim. Coisa curiosa: eu sou o que acho que sou ou sou o que Maurílio (ou outra pessoa qualquer) acha que sou? Ou sou, ainda, um pouco do que vejo e digo e um pouco do que veem e dizem a meu respeito? Raios! O que sou? Quem sou, afinal?

 

Alguém pode até ter conhecido, a seu modo, quem um dia eu fui. Mas este (ou aquele?) que eu fui, mesmo eu, a meu modo, conheço mal e porcamente. Uma parte do meu passado me foge completamente (e o resto, posso dizer que me escapa parcialmente), pois dos meus primeiros anos só sei o que me contaram ou contam.  Sequer mamãe e papai me dão, daquela minha fase sem memória própria, versões totalmente concordantes. Tendo a acolher o que relata minha mãe, mais presente que meu pai na minha primeira infância. Mas estou certo de que uma coisa ou outra ela fantasia para me mimar ou, algumas vezes, deixa sua narrativa ser contaminada por uma dose de rancor a meu pai, por ter sido um tanto ausente na criação do filho. Enfim, meu passado não me define.

 

Quanto ao meu presente, é exatamente ele que me põe nesta encruzilhada em que me encontro, sem saber quem sou – nele apareço como um poço de dúvidas, um rio de indefinições, um mar de sei lá o quê. Já o meu futuro, como o de qualquer um, só algum tipo de magia ou feitiço pode adentrá-lo: quiromancia, realejo, tarô, horóscopo...

 

Minha irmã, três anos mais nova que eu, mora em Seul. Ontem ela me enviou uma mensagem perguntando minha data de nascimento. (Como pode ter esquecido? Eu sei a dela: 19/09/1979). Pede que diga também a hora, se eu conseguir esta informação. (Sei que vim ao mundo às 7:35h de um dia ensolarado e friozinho do mês de junho.) Diz que vai encomendar meu mapa astral para uma especialista que fez o dela e o do marido e resultaram em retratos perfeitos. Quem sabe isso não me ajuda a descobrir quem sou, para além de meu nome e daquilo que os outros acham que eu sou?

 

Digamos que minha irmã Cléa tenha razão: o mapa astral que me enviará será de mim um retrato perfeito. Será ele também tão esclarecedor para outra pessoa que tenha nascido no mesmo dia e horário que eu, porém nos Emirados Árabes? Isso não parece digno de fé. Existiria, então, alguém tão parecido comigo, por causa dos astros, apesar das suas circunstâncias e condições de vida, tão diferentes, em outro lugar, tão diverso? Definitivamente, vou considerar o presente de minha irmã apenas uma brincadeira. Que essa confiança na astrologia fique confinada à história das crendices, sem que se repitam os enganos que cometeram os babilônios.

 

Por falar em superstição, será que devo considerar que aquilo que sou tem a ver com minha alma? Existe alma? O que é isso? Considerar que existe não parece que me ajudará na busca de quem sou. Se só com o corpo já estou me confundindo, acrescentar algo que não sei o que é nem posso ver não facilitará a elucidação do mistério. Havendo corpo e também alma, como saber se sou um corpo que tem uma alma ou uma alma que tem um corpo? Sim, porque dependendo de qual seja o caso, minha essência estará aqui ou ali, além de ser de natureza distinta, conforme seja física ou metafísica. Como complicador adicional, os que dizem haver uma alma, afirmam ser ela imortal, ao contrário do corpo. Daí eu terei que procurar entender não apenas o que sou e logo deixarei de ser, para tentar compreender algo que existirá eternamente – isso é bem mais difícil.

 

O corpo que sou, posso ver, todos podem. Se eu disser: “Não sou um corpo”, duvidarão da minha sanidade mental. Mas dizer: “Tenho um corpo” é diferente. Se eu tivesse um corpo, quem seria seu proprietário? A minha alma? Mas se a alma é minha, como posso eu pertencer a ela? Vá lá: que apesar da confusão a que isso pode levar, se eu aceito que sou uma conjunção de corpo e alma – um não existindo sem a outra e vice-versa – o que acontece quando o corpo morre? Se a alma sobrevive, sua condição de dona do corpo se afirma. Se, ao contrário do que acham os que têm fé, após a morte corporal também a alma desaparece, a definição de propriedade se complica...  Seja como for, persiste o mistério mesmo havendo corpo e alma inseparáveis, ambos finitos: quem sou eu, este feliz proprietário de um corpo e de uma alma?

 

Certa vez namorei uma garota que se dizia espírita. Era dessas pessoas dadas a um ecletismo que combina uma versão popular de Kardeck com um zen-budismo de feira hippie, à sombra de um catolicismo de conveniência, em que Deus aceita ou exige trocas com seus fiéis. Isso resultava num comportamento bem típico. Era vegetariana, ia à missa aos domingos; visitava regularmente um asilo de velhinhos para distribuir abraços, sucos e bolinhos artesanais feitos por ela com notório carinho; buscava a felicidade como quem deseja atingir o Nirvana, mas querendo carregar consigo todos os infelizes que pudesse alcançar. Dessa contraditória busca quotidiana, resultava estar ela sempre perdida. No fim das contas, não sei se fui eu que a perdi, ou o contrário. Talvez eu seja muito mau... Mas pode ser que Estela estivesse (ainda está?) querendo ser boa demais, num nível inalcançável para o comum dos mortais, algo incompatível com um relacionamento amoroso que a requisitava somente como gente normal: boa e má, em combinações variáveis no tempo e nos diferentes lugares, conforme as circunstâncias e o teor e importância dos numerosos relacionamentos ao longo da vida.

 

A lembrança de Estela – sua doçura, suas crises, sua persistência de Jó – contraposta à personalidade de meu vizinho Arrigo – utilitarista, altamente individualista e prepotente –, que ontem lavou a calçada de sua casa e empurrou as folhas para o meio da rua, o vento trazendo-as para a beira da minha sarjeta, faz ver que há pessoas dos mais variados tipos por aí, sendo inevitável encontrá-las e com elas estabelecer (ou suportar) algum tipo de relacionamento, sempre complexo. Penso, agora, no quanto Estela, Arrigo, meus pais, minha família toda, meus professores e colegas de escola e faculdade, meus parceiros de trabalho, os fornecedores diversos de que tenho que me servir, todo mundo, enfim, com quem me deparei e deparo ao longo da vida, concorrem para definir quem eu sou. Na interação quotidiana ou esporádica com todos, vou me tornando alguém capaz ou incapaz de seguir convivendo com os outros – cedo e teimo, conquisto e afasto, ganho e perco, avanço e recuo, dou e recebo e nessas escolhas e encalacradas vou me tornando o que sou, juntamente com os outros, num fluxo contínuo de determinações múltiplas e entrelaçadas. Entre o egoísmo de Arrigo e o altruísmo de Estela fico eu, um ser nem lá nem cá, pendendo ora pra lá, ora pra cá. Ou seja, um ser indeterminado... que não sabe quem é, que não encontrou um jeito de se definir de vez, se é que isso é possível. É mais provável que não seja.

 

Na mesa de bar com dois colegas de trabalho, dia desses, após o expediente, depois de algumas cervejas e do lero-lero de rotina, eu comentei sobre a dificuldade para definir o que cada um é. Bastou para que passássemos a filosofar, como costuma acontecer quando inquietos se juntam e não estão obrigados a nada. Carlitos de imediato perguntou se já tínhamos ouvido falar do ser do ente.

 

– Ser doente? Doente de quê? Tuberculose, esquizofrenia, alcoolismo? – perguntei.

 

– Não disse doente! Disse: Ser–do–ente. Sãozinho, sem patologia alguma – explicou Carlitos. – Uma coisa é o ser, outra coisa é o ente. Um ente não é um ser. Isso quando se trata do humano, que não é determinado, tem livre arbítrio, não se mantém sempre o mesmo nem deixa o mundo tal como o recebe.

 

– Isso é alemão? Já que só é possível filosofar em alemão – interveio o Juca.

 

– Alemão, Juca. O Caetano Veloso canta que só é possível filosofar em alemão. Mas a frase completa inclui o grego e foi dita exatamente por Martin Heidegger – esclareceu Carlitos.

 

– Tá errado esse cara – discordou o Juca – é possível filosofar em qualquer idioma, desde que haja cerveja na mesa. – Garçom, mais uma! – Que história é essa do ser do ente? Conta pra gente em português. É possível?

 

Enquanto esvaziamos quase uma dúzia de garrafas, Carlitos discorreu sobre sua leitura recente de Ser e tempo. Pontuou que nenhum homem ou mulher é: vai sendo, o que significa, do início ao fim da vida, uma espécie de inventar-se/reinventar-se e, em interação com outros, inventar/reinventar o próprio mundo. Como vivente que está no mundo – um ser aí, na definição de Heidegger –, o indivíduo humano, como mero ente, não se distingue da pedra, da árvore ou do gato – é um ente entre outros. Mas, a partir do momento em que pensa, delibera e atua sem que seu futuro (exceto no tocante à morte) esteja predefinido, passa a ser. Ser, então, não é simplesmente existir: é existir autodefinindo-se nas refregas e festas com os outros. Aquele que existe, por assim dizer, deixando-se levar, não desfruta de uma vida autêntica, única que implica ser, única a fazer do homem mais que mero ente.

 

Eu pensei: Opa! Uma luz! Não preciso definir quem sou, assim, definitiva e terminalmente. Eu suspeitava que não fosse possível, mas agora vejo que nem é necessário. Basta esboçar um resuminho provisório do meu eu, que combina bem com o ser-aí (tipo “o homem jogado no mundo”) do tal Heidegger, e seguir em frente, lidando com as mudanças que são inevitáveis e, afinal, desejáveis. Que alívio! Mas, espera aí! Nessa história toda tem algo bem definido, que serve para todos: o futuro não é infinito para quem vai morrer, enquanto para o universo é. Aí está: a morte é uma certeza. Cada ser humano, ao nascer, já tem definido – sem saber quando ou como – seu futuro terminal: o nada, o completo desaparecimento. Então eu sei algo fundamental de quem sou: sou aquele que em breve deixará de ser.

 

Memento mori, meus amigos! – gritei quase cuspindo cerveja. Dito em latim, mas não sei não se não é grego; deve ser, lá dos estoicos. – É isso aí, todos morreremos um dia. Não podemos nos esquecer disso. Depois, não mais cerveja, não mais torresmos (Hum! Hoje a Claudete caprichou, hein? Crocante por fora, tenro por dentro.), não mais conversas de botequim.

 

– Pois é, e também não mais correria atrás de entrevistados reticentes e de furos reluzentes, para nós – emendou o Juca. E Carlitos completou, piscando para mim:

 

– Nem essa inquietação maluca aí, de querer responder quem se é, né, ô Miguel? Parece que bebe!

 

– Pois é, pois é, bebo sim! E por isso tenho que ir agora ao banheiro. Já volto – eu disse já me levantando.

 

 

A cerveja é uma invenção e tanto. Mexe com o corpo e com a mente. No corpo acelera a micção; não fosse isso eu não estaria agora tentando dirigir a urina ao vaso sanitário sem emporcalhar ainda mais o cubículo. (Porra, no sapato não! Diabos, onde foi parar minha autodeterminação?). Na mente, este suco de cevada alcoólico movimenta ideias e raciocínios em alta velocidade; mas, passada a bebedeira, onde é que vão parar esses insights? Me ocorre – e disso espero não me esquecer depois – que quem sou é, em boa medida, o que não fui (por escolha ou imposição). Não fui o escritor que almejei até os trinta e poucos anos, a favor do jornalismo. Mas como jornalista, debandei para a editoria de cultura; e ali me tornei o híbrido de hoje: textos meio lá (expressão), meio cá (comunicação). Casei-me, me separei, não tive filhos – o pai que não sou se arrepende da oportunidade perdida de ter um filho ou filha; e, nisso, minha personalidade se torna incompleta, vagando entre fatos e hipóteses. Sou o não-pai que poderia ter sido pai. Se tivesse sido pai, seria o pai que poderia não ter tido filho. Nunca visitei Budapeste ou Doha – faltam-me estas experiências, o que tem gosto de impotência e reduz minha sensação de possível conquistador; mas conheci Nova York, Madri, Santo Domingo, Macau, Jacarta...  Está em mim, enfim, além do que sou, o que eu poderia ter sido e escolhi não ser ou fui impedido de ser; além do que eu fiz, o que eu poderia ter feito. Isso quanto ao passado, na sua relação com o presente. Há também o futuro: ainda me cabem muitas possibilidades, apesar de tantas portas já terem se fechado, a esta altura. O futuro é uma porta aberta para infinitos ser e deixar de ser. (Tudo isso eu pensei ouvindo um longo jato de urina se chocando com a água do vaso sanitário, interrompido por um incomodado: “Vai morar aí, irmão?”)

 

 

– É melhor a gente se contentar com o que tem, Miguel – disse Carlitos me recebendo de volta, eu agora aliviado. E continuou: – Quem eu sou? Ora, o jornalista Carlitos. E não sem esforço para conseguir sê-lo. Ufa!

 

– Não, Carlitos, eu não sou jornalista, não. Eu exerço esta profissão. Ademais, se eu disser para a moçada mais nova que sou jornalista, vão me perguntar o que é isso, da mesma maneira que perguntariam se eu dissesse ser cornaca ou palafreneiro. Afinal, o que é jornal, hoje em dia?

 

– Hahaha, verdade! – riu e concordou o Juca. Outro dia um vizinho meu, criador de canários, reclamou da falta de jornal. Agora ele não tem mais com que forrar o fundo das gaiolas para recolher mais fácil a titica dos passarinhos.

 

– Que “marvadeza”, Juca! Olhe que há menos de uma ou duas décadas se podia dizer que uma pessoa era alguém se aparecesse no jornal, numa reportagem, entrevista, matéria ou artigo – observou Carlitos. Havia quem dissesse: “Deu no New York Times, então é verdade.” Ou no Hoje, em situações mais modestas...

 

E eu completei, puxando a conversa para as mídias virtuais:

 

– Atualmente existem as redes sociais e toda a parafernália da internet. Acabou essa história de o que está impresso ser verdade. Muito pelo contrário: as mídias virtuais são um mergulho na Babel da pós-verdade – diante do que está escrito, fotografado, desenhado ou filmado é preciso duvidar, antes de tudo. Nem sempre o que parece é; o que é, não necessariamente aparece. Não se pode dizer que nesse mundo virtual alguém possa encontrar espaço de autoafirmação: se tudo que sobe, desce, aí isso acontece com uma rapidez vertiginosa. É mais um lugar para não ser que para ser. Entre a viralização e o cancelamento em massa há uma distância menor que um passo. A internet é mais o local de disfarçar o pouco que se é, que de afirmar o muito que não se costuma ser. Terrível para nós, jornalista, não é mesmo? Se o jornal se tornou útil só para forrar gaiolas, nós seremos úteis para quê doravante? Seremos úteis?

 

– “Ex-jornalista bomba e lacra como digital influencer”: que tal este título em texto falando de Miguel Arruda no Facebook, no Instagram ou no X? – zombou o Juca e recebeu como resposta meu olhar de completa desaprovação, seguido de uma chapuletada:

 

– Meu tema, Sr. Juca Nunes, é o “ser”, não o macaquear uma identidade postiça, não raro, nociva. Quem busca influenciar contribui para o não ser do outro, para que o outro passe longe da vida autêntica aí, do Heidegger, como disse o Carlitos. Por outro lado, todo aquele que se deixa facilmente influenciar é fazedor de mais do mesmo, é membro da multidão de entes para quem ser é meramente estar e seguir em frente, aceitando tudo que está posto. Não que nós, jornalistas, não tenhamos um quê dessa molecagem, da qual, aliás, precisamos lançar mão para prolongar a agonia de nossos – me permitam dizer assim: hebdomadários.

 

– Deixa o Juca, Miguel. Ele é novo, ainda, um dia vai aprender. Até já sabe tomar cerveja em boa companhia. Hahaha. Não vamos assustar o menino. Ele tem um blog, ou site (sei lá!) bem legal. Você já viu? O nome é uma beleza: Pó de estrela.

 

 – É só um brinquedo, Carlitos, uma espécie de diário combinado com resenhas das minhas leituras. Para amenizar a secura que é a vida de estagiário do Hoje.

 

Perguntei o porquê de Pó de estrela. E a resposta veio pronta, porque a pergunta era esperada.

 

– Ué, não é o que somos? Pó de estrela. Estrela que, por sua vez, diante do universo, também é pó: com granulação maior que a nossa. Somos fragmentos perdidos de objetos que brilham com uma beleza que não possuem, pois se vistos de perto, são de fato monstruosos.

 

Respondi indagador:

 

– Porra, menino! De onde tirou isso? Onde pretende chegar com essas ideias? Cadê sua namorada? Ou namorado, que seja. Precisa se concentrar em viver, rapaz!

 

Carlitos riu gostosamente e em seguida silenciou, sorvendo a cerveja geladíssima que o garçom, o Chico, lhe serviu sem que pedisse, conhecedor de suas preferências e regularidades. Depois disse:

 

– É, meu amigo, filosofia, como poesia, é pra toda idade. Basta não nascer pedra, árvore, bode ou pessoa que se contenta em viver como ente entre os entes. Hahaha.

 

– Da mesma maneira, é pra toda idade a astronomia – completei. E acrescentei: – Somos um lampejo de consciência, pena que tão curto. As estrelas, pelo menos, são um lampejo de existência, bem mais longo. Delas somos pó, apenas, tem razão o Juca.

 

Carlitos zombou, repetindo-me com mínima alteração:

 

– Porra, rapaz! De onde tirou isso? Onde pretende chegar com essas ideias? Cadê sua namorada? Ou namorado, que seja. Precisa se concentrar em viver, menino!

 

O Juca, brincalhão e sério ao mesmo tempo, saiu com esta:

 

– “O Juca tem Razão (com R maiúsculo), a estrela não”. Até rimou, né? Hahaha. E juntou de uma só vez astronomia, filosofia e poesia, hein Carlitos? Gosto de ser pó e não estrela. É o meu jeito preferido de ser deus. Já leram o Espinoza, do Deus sive natura? (Eu não – pensei acabrunhado, sem nada dizer.)

 

Olhei pro Carlitos, fiz uma careta de aprovação admirada e ele respondeu com outra igual, erguendo o copo com largo colarinho branco para um brinde. Brindamos, bebemos e pedimos ao Juca que nos falasse (e ele falou brilhantemente, pelo resto da noite e até o começo da madrugada) sobre o Deus de Espinoza, enquanto devoramos, famintos, as porções de isca de pintado e de pasteizinhos de carne, de palmito e de queijo que nos serviram de jantar tardio. A noite (que é uma criança, pouco mais nova que o Juca, e talvez tão sábia quanto Baruch Espinosa, polidor de lentes punido com o chérem, a excomunhão dos judeus) foi longa e repleta de saboroso alimento também para a alma. Eu aprendi como nunca sobre um filósofo e seu pensamento. Com um garoto! Talvez a noite, além da cerveja, tenha ajudado.  A lua cheia – uma Lua sem Razão – não se contentava em permanecer no céu límpido e estrelado, embelezando-o misticamente: andava pelas ruas movimentadas da sexta-feira, concorrendo com os faróis dos carros e motos, com as luminárias dos postes, com o neon colorido do posto de combustíveis imediatamente à frente, com os potentes holofotes da Igreja do Carmo, visão inevitável a partir de qualquer mesa fora do bar ou dentro dele, quando abertas suas grandes portas e janelas.

 

 

Deus. Lá dentro da igreja de portas fechadas? Dentro do bar de portas abertas? Dentro de mim? Dentro do copo de cerveja? No céu, junto à Lua e às estrelas? Não! Deus não está dentro ou fora, aqui, ali ou acolá. Deus não está, Deus é. É no universo e o universo, em tudo que há, em tudo o que existiu, existe e existirá, pois tudo que existiu, existe e existirá não passa dos Seus infindáveis e variados modos de Ser.

E eu? Posso ser muito e posso ser pouco, conforme as diferentes formas de computar o que alguém é, de acordo com as convenções humanas. Mas sobretudo sou Nada, diante da imensidão de Deus, que me abrange juntamente com Tudo. Ao mesmo, tempo, posso dizer com acerto, como antes disse o Juca: sou Deus – não seu filho, sua criação, sua imagem. Exatamente porque ele abrange sem exceção o que houve, há e haverá. Abrange? Não é bem isso. Abarca? Compreende? Consiste em?  Palavras... Nomeiam, identificam, e o fazem destacando, separando, comparando. Em Deus e para Deus isso não existe, Nele nada se separa, nada se destaca, nada se identifica, nada tem nome, nem eu nem ninguém, porque é desnecessário. Em Deus tudo está salvo, nada carece de redenção, tudo é vida, inclusive a morte. Terei descoberto quem sou?

Pó de estrela... Eu, o Carlitos, o Juca, a mesa, o bar, a rua, a lua, as palavras ditas e escritas – tudo, tudo pó. De estrela? E Deus? Nem pó, nem estrela – Tudo, incluindo o pó e as estrelas.

 

 

–  Miguel, Miguel! Psiu! Ei! Oi! – chamou Carlitos, tentando me trazer de volta, o que só conseguiu batendo palmas diante de meu rosto. – Dividimos a conta em dois? O Juca é um duro; e, além do mais, nos presenteou com um brilhante show, não foi?

 

Lentamente regressando à mesa, completei o processo dizendo:

 

– Chama o Mário, o dono desta Academia (ou seria Liceu?), e manda pendurar na conta de Deus. Se tudo é Deus, ou de Deus, por que não também as despesas de bar? Certo, Juca? Se o Mário não entender, você explica pra ele, se necessário, em japonês.

 

 

O buraco da fechadura é então obstruído e a mesa do bar, que em seguida terá portas e janelas trancadas, se esvazia, sobre ela restando – esquecida por quem? – um molho de chaves.

 

 

Não lhe direi, agradecido pela paciência, agora que terminou de me ler: “Vá com Deus!” ou “Fique com Deus”, pois você está Nele e Ele em você, o tempo todo, desde sempre e para sempre. Louvado seja Baruch! Ou não?

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