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O Papa, o Pepe e o Mao

  • Foto do escritor: Valdemir Pires
    Valdemir Pires
  • 21 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 28 de jul. de 2025

Imagem: Wix
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– Cristo ressuscitou! Aleluia! – os fiéis mal acabavam de anunciar, reverentes e exultantes, como fazem há quase dois mil anos no Domingo de Páscoa. E veio a notícia, não inesperada: o Papa morreu. O Papa Francisco, o argentino Jorge Mario Bergoglio (1936-2025), líder da Santa Sé desde 13 de março de 2013, primeiro pontífice latino-americano, arauto da humildade. Como o outro, o de Assis, desejava “Uma Igreja pobre para os pobres.”

 

Não tardará a vir semelhante triste notícia quando chegar a hora de Pepe (José Alberto Mujica Cordano, 1935-), outro latino-americano, ex-presidente do país “do outro lado do Prata”, que também lutou (e lutará até seu último minuto) para que a riqueza de seu pobre país não seja negada aos seus habitantes pobres. Um comunista, este, porém.

 

 Também o Mao – Tsé-Tung (1893-1976) – acalentou tamanho bem, para sua China, república popular que governou de 1949 até a morte.

 

– Mas os pobres? E quanto aos pobres? – haveria de perguntar o de Assis, de sandálias e em trajes andrajosos, acariciando um gato no seu colo e ouvindo o pio do pássaro ousado pousado no seu ombro esquerdo.

 

Os pobres, bom Chiquinho, continuam como sempre: pobres e repetidamente órfãos, já que os pais que lhes aparecem, de tempos em tempos, todos se vão sem conseguir cumprir as promessas que lhes fazem, de dias melhores.

 

A bem da verdade, “pobre de Deus” (como o chamou em livro Níkos Kazantzákis), é preciso dizer que neste mundo, que nunca foi tão rico como hoje, o fosso da desigualdade só faz aumentar. E isso acontece enquanto muitos dos próprios pobres se alinham a um tipo de cristianismo que o Cristo abominaria: ele daria vigorosos pontapés (como fez com as mesas dos cambistas do Templo) em certos altares e púlpitos por aí, mundo afora.

 

Da mesma maneira, Mao clamaria por uma nova revolução cultural (tentaria impô-la, na verdade...), para reenquadrar a China-potência na moldura original concebida pelo seu Partido Comunista.


Mas o Pepe, o Pepe, não. Fez o que fez, faz o que faz, e está lá, no Uruguai, vivendo modelarmente pobre, totalmente avesso a ostentações e badalações. O comunista mais católico que pode haver (se catolicismo puder ser o que defendeu Francisco, tanto o argentino como o italiano). E lamentou, recentemente, que tantos o admirem, mas ninguém o imite. Este é o Pepe.

 

Mas é o Papa o assunto de hoje. Foi ele que morreu. Se bem que... com ele está morrendo tantas coisas. Por isso a lembrança do Pepe: resta ele, a defender, com uma coerência sem igual, o mesmo que defenderam os dois Franciscos e aquele que os inspirou: Jesus Cristo.

 

Quando Pepe se for, desaparecerá a última Catedral da Fé na Igualdade. E seu sonho, também o do Papa, estará ainda bem longe: a substituição das catedrais por capelinhas feito a Porciúncula, aliás engolida (dizem protegida) pela ostensiva Basílica de Santa Maria dos Anjos.

 

Quando for o momento, Pepe chegará ao Céu (por menos que ele acredite em Paraíso) cheirando a bosta de cavalo e carregando um repolho. Pedirá que chamem o Papa (o Francisco) e lhe dirá em corrente espanhol, aqui traduzido livremente:

 

Hermano, há fogo por aqui? E sal? E pimenta? Vamos preparar esta iguaria, comer, e depois procurar “O Homem”. É ele o líder eterno do nosso partido, não é? Algo precisa ser feito. O que fazer?

 

Bergoglio nada dirá, limitando-se a uma piscadela, virando a face para a esquerda, para indicar que de lá estão vindo, na direção de ambos, dois homens cheios de luz, alegremente conversando, um com uma coroa de espinho na cabeça, que entretanto não sangra, e outro sobre cujos ombros e mãos fazem festas pequenos animais. Pepe, então, petrifica, boquiaberto, e derruba o repolho no chão, enquanto ouve as doces palavras:

 

– Vinde, criancinhas! Vocês são daqueles que não terão dificuldades para passar pelo buraco da agulha.

 

Recuperado o fôlego, Pepe pergunta:

 

– Mestre, e os camelos, passarão todos, indistintamente, pelo buraco da agulha? Porque uns pertencem aos pobres e destemidos tuaregues, enquanto outros são propriedade privada dos multimilionários xeiques da Opep, que os utilizam em desengonçadas corridas por pura diversão.

 

Francisco, o santo, se antecipa:

 

– Camelos são camelos, Pepe, não importa quem os cative. Só o homem carrega no peito o mal.

 

E o Papa, ao lado, sorri, trocando olhar com O Filho. Pepe se abaixa, pega o repolho arrebentado do chão, se levanta, e os quatro se dirigem ao ponto de onde os dois últimos haviam chegado. Nenhum sinal do Mal, nem de Mao...


(Leia também no Diário do Engenho)

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