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  • Foto do escritorValdemir Pires

O leitor



Quem é você, que começa a ler este livro? O leitor, eu sei. Mas que leitor? Por que quer (se é que quer) ler exatamente este livro de contos, com tantos outros que há por aí, certamente melhores, além de novelas, romances, poemas? O que procura ao ler? O que espera encontrar neste livro? Está disposto a prosseguir depois deste questionamento inesperado, indevido, desconfortável?

 

Não precisa me dizer seu nome, se é homem, mulher ou nem-homem-nem-mulher, sua filiação, seu endereço, seu RG e seu CPF. Isto aqui não é interrogatório ou inquérito, nem entrevista para emprego. Diga apenas que leitor você é. Vai ler porque foi obrigado pelo professor ou pelo edital de concurso ou vestibular? Quer se instruir? Busca soluções? Necessita se informar? Precisa ampliar o vocabulário? Deseja se entreter? Está apenas se agarrando a esta ou àquela partícula no meio desta poeira de palavras impressas que nos rodeia? Por que, afinal, gasta seu tempo precioso com os caracteres que mancham esta página?

 

– Não é da sua conta! Cumpra sua função de autor e comece o conto! Eu busco respostas e não perguntas.

 

Perdão, caro leitor! Entendi. Eu não tenho respostas, devo dizer-lhe. Os meus contos, que já vão começar, trazem situações, dilemas, perguntas. Quer parar por aqui? Tome sua decisão! Eu vou continuar, cumprirei minha função: contar, não responder. Espero que me entenda.

 

***

 

O primeiro conto

 

Ele apanhou o livro surpreendentemente encontrado, visivelmente sem manuseio, debaixo da cadeira em que se sentara na sala de espera do laboratório. De imediato pensou em entregá-lo a um funcionário para ser incluído entre os achados e perdidos, à espera do dono. Mas logo percebeu que havia uma pilha de exemplares idênticos sobre uma mesinha próxima ao bebedouro. Ficou feliz com a possibilidade de aproveitar o tempo, lendo, na fila para os exames solicitados pelo cardiologista. Abriu o livro de capa atraente e leu o prólogo. Gostou. Enquanto lia, observou que duas outras pessoas folhearam rapidamente iguais exemplares, abandonando-os sobre as cadeiras próximas. Passava pouco das oito horas da manhã e havia sete pessoas a serem atendidas antes dele. Sua senha era B-15. Às oito e meia já eram doze impacientes, incluídos cinco preferenciais (senhas A): duas grávidas e três idosos. Injuriado por não saber quanto tempo teria de esperar, com tantos preferenciais sendo acrescentados à fila, retomou a leitura, até para dissipar da mente seu medo infantil de agulhas. O primeiro conto, “O leitor”, assim iniciava:

 

“Quem é você, que começa a ler este livro? O leitor, eu sei. Mas que leitor? Por que quer (se é que quer) ler exatamente este livro de contos, com tantos outros que há por aí, certamente melhores, além de novelas, romances, poemas? O que procura ao ler? O que espera encontrar neste livro? Está disposto a prosseguir depois deste questionamento inesperado, indevido, desconfortável?

 

Não precisa me dizer seu nome, se é homem, mulher ou nem-homem-nem-mulher, sua filiação, seu endereço, seu RG e seu CPF. Isto aqui não é interrogatório ou inquérito, nem entrevista para emprego. Diga apenas que leitor você é. Vai ler porque foi obrigado pelo professor ou pelo edital de concurso ou vestibular? Quer se instruir? Busca soluções? Necessita se informar? Precisa ampliar o vocabulário? Deseja se entreter? Está apenas se agarrando a esta ou àquela partícula no meio desta poeira de palavras impressas que nos rodeia? Por que, afinal, gasta seu tempo precioso com os caracteres que mancham esta página?”

 

Antes de buscar as possíveis respostas, o farmacêutico Jordão Nunes decidiu meditar sobre as perguntas, procurando bem entender cada uma. Com isso, esqueceu da fila, dos exames, da doença, do horário, da vida e da possível morte e, ao fim e ao cabo, das próprias perguntas que deram origem à sua reflexão. Começou a escarafunchar a alma: Sim, sou e sempre fui leitor, desde criança; leio tudo com gosto; se passo uma semana sem ler, algo me falta, não tão imprescindível quanto ar, água ou comida, mas certamente uma coisa sem a qual a vida murcha, bem mais que na falta de um bom torresmo. Leio, leio e leio. Mas por quê? De fato, nunca me perguntei e jamais me perguntaram.

 

Não desejando bancar João Grilo – “Não sei, só sei que é assim” – resolveu começar do começo, num esforço de memória para resgatar os primórdios de seu hábito de leitura. Rapidamente lembrou-se de ter ingressado com um ano de atraso na escola, ficando em defasagem em relação às outras crianças. Os meninos e meninas da vizinhança, quando tinham a mesma idade que ele, sete anos e pouco, depois de alguns meses de aulas, regressavam da escola no fim da manhã lendo coisas. Arrepiou-se ao sentir de novo, vividamente, a dor de não compreender como aquilo (ler) podia ser feito. Reviveu na memória momentos angustiantes da infância:  

 

– Morgana, me ensina a ler? – pediu à sua pequena vizinha, com quem costumava brincar, oferecendo em troca das aulas uma maçã e uma barra de chocolate, que não lhe eram dadas com frequência.

 

Mas a loirinha espevitada mal sabia da arte para ela mesma. Apesar de enfeitiçada pela oferta, era incapaz de explicar como a mágica acontecia. Acabou ganhando meia maçã e meia barra de chocolate, mera partilha, não remuneração. Outras tentativas de encontrar instrutores deram no mesmo resultado, inclusive com os pais, semiletrados e pouco dispostos a antecipar o que a matrícula escolar, no ano seguinte, resolveria.

 

– A professora vai lhe ensinar, Dão, sossega, estou cansado – desapontava-o o pai.

 

– Dá cá o livrinho, filho, eu leio pra você. Mas só um pouco, que o serviço está todo por fazer – repetidas vezes disse e fez a mãe, à toa, porque o menino não desejava ouvir a história, mas decifrar ele próprio as palavras e frases. 

 

Assim, como previsto, somente a escola resolveu o problema de Jordão, supriu sua dolorosa carência. Carência tão sentida a ponto de transformar o aluno mais atrasado, cronologicamente, no mais adiantado, em termos de aprendizado – gabava-se ele, de si para si, sempre que lembrava deste feito. Dali para diante, para deslanchar bastou o acervo miúdo da biblioteca pública da cidade interiorana. A partir daquelas estantes foi das aventuras de Tintim e de Guliver a Érico Veríssimo, Jorge Amado e Rubem Braga, logo chegando a Balzac, Flaubert e Proust, além de Tolstói e Dostoiévski. Avançou tanto, ao longo da vida – Saramago, Borges, Italo Calvino, Carlos Fuentes, Kundera, Vargas Llosa, García Marquez, Tchekhov... – que em dado momento passou a se perguntar se ler não lhe roubava vida, se o tempo gasto lendo não levava à perda de oportunidades de vivências mais enriquecedoras. Mas logo convenceu-se de que ler é também uma forma de viver, de experimentar a vida que, afinal, satisfaz. Matilde, todavia, não concordava. Matilde...

 

– B-15, B-15 – gritou a atendente ao constatar, meio irritada, que ninguém se dirigia ao balcão após a senha aparecer no monitor.

 

Assustado, Jordão correu estabanadamente para o guichê indicado no monitor para a sua senha, esquecendo o livro na cadeira do laboratório. Preencheu e assinou a papelada, entrou na sala de coletas, foi devida e atenciosamente atendido (por uma moça freguesa de sua farmácia) e regressou um pouco atordoado à sala de espera. Tomou um café e comeu umas bolachinhas, quebrando o jejum até então respeitado para a coleta de sangue. E saiu. Sem o livro.

 

Lembrou da perda quando já havia percorrido vários quarteirões no táxi de aplicativo que tomara. Engoliu seco e resignadamente e pensou: “Que barbeiragem! Qual era o título? Quem era o autor?”

 

Mal terminou de se questionar e o motorista lhe perguntou:

 

– Aceita um livro? – lhe passando às mãos a coletânea Uns Contos, de Valdemir Pires.

 

Era exatamente o título que acabara de esquecer no laboratório, suspeitou pela capa e confirmou pelo texto das primeiras páginas. Disse, então:

 

– Ué, também lá no laboratório onde você me apanhou estavam dando este livro. Hahaha. Acho que não há alguns deles somente lá na minha farmácia.

 

– Verdade? Caramba! Eu estou oferecendo de presente para meus passageiros e deixo junto o meu cartão. Tá vendo aí, como marcador? Quando precisar de táxi, me chame. Eu comprei um lote de um amigo, dono de um sebo. Estava encalhado, então ele me vendeu pela bagatela que pagou, há seis meses. Gostei da capa e do título, achei que poderia agradar a freguesia, mais que balas.  Mas até agora só uma garota, de uns quinze ou dezesseis anos, aceitou. Para jogar fora logo que encontrou uma lixeira, pude notar. Fiquei puto da vida. Isso não se faz.

 

– Você leu? – perguntou Jordão, realmente curioso. E a resposta foi um não, seguido de um “Ainda não tive tempo.”

 

– Parece interessante. Comecei a ler na sala de espera do laboratório, mas esqueci lá, ao sair meio zonzo depois da coleta de sangue – Jordão acrescentou, para ouvir um pouco convincente “Bom saber.”

 

Terminado o trajeto, cansado, Jordão pagou a corrida, apeou e saiu com o livro, agradecendo sinceramente o presente. Planejou lê-lo no final de semana, curto que era. Guardou-o ao chegar em casa, mas quando foi procurá-lo para ler, no sábado, não o encontrou. (O filho de Jordão, José Nunes, o Juca, estagiário de jornalismo no Hoje, o pegara para ler e desatentamente o colocara junto de alguns papeis para descarte. Marilena, a faxineira, lançou tudo ao lixo.)

 

Jordão decidiu que pegaria outro exemplar no retorno para a busca dos resultados dos exames. Mas sua doença progrediu em ritmo acelerado e ele foi internado antes do prazo dado pelo laboratório. Qual não foi sua surpresa quando, no quarto todo branco do hospital, saltou-lhe aos olhos o colorido da capa de um livro seu conhecido, pelo menos pela capa e primeiras páginas. Leu-o, finalmente, por inteiro, durante a noite de espera pela cirurgia, com isso tornando-a menos longa e angustiante. Chorou, riu, ficou encanado com alguns trechos, que releu. Terminou convencido de que leria aquele livro todo novamente, durante o tempo de recuperação da cirurgia. Mas isso não aconteceu, porque ele morreu no dia seguinte, poucas horas antes dos procedimentos previstos. Foi sepultado junto de Matilde, sua esposa suicida.

 

***

 

– O que tinha o tal livro para ele ter gostado tanto assim? – perguntou aquele leitor emburrado, que nos livros buscava respostas e nada mais, ouvindo um merecido: “Leia e para esta sua pergunta encontrará resposta, num livro que não foi escrito para dá-la.”

 

A vida é cheia de surpresas. Entre elas, atitudes inesperadas. Como a de um leitor pragmático que toma em suas mãos e “enfrenta” um livro que, de acordo com seus critérios, não merece o tempo necessário para percorrer suas páginas, ainda que com mínima atenção. Pois assim foi. E o leitor pragmático, então, depois da empreitada, pediu desculpas ao autor:

 

– Cara, me perdoe, eu não quis ofendê-lo, no nosso primeiro encontro. O livro não me veio às mãos em boa hora... Estava resolvendo um problemão quando ele me foi dado, na entrada do banco. Mais tarde fui lê-lo, coisa que não costumo fazer. Aceite este esforço como honesta retratação de minhas rudes palavras naquela ocasião. Me envergonho por elas. Devo confessar: gostei de “Fé” , de “Pó de estrela”, não. O outro é muito ruim, com aquela personagem mal-educada que depois se arrepende. Sem querer o ofendê-lo outra vez, tá?...

 

Comovido, o autor inclinou o dorso em sinal de agradecimento, da mesma forma que faz o maestro diante do público que aplaude ao final da execução de uma daquelas peças de tirar o fôlego. Nasceu-lhe no peito uma esperança: Jordão ressuscitará em outros! O que justifica, embora não sustente, um rio de autores de romances, de novelas, de contos, de poemas, todos à procura dele.

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