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  • Foto do escritorValdemir Pires

Conto no livro "Tempos estranhos"



Acaba de ser lançado Tempos estranhos (2021), pela Noir, organizado por Nadia Virginia Barbosa Carneiro e Suylan de Almeida Midlej e Silva. Com orelha redigida por Chico Whitaker, que observa, muito apropriadamente: "Tempos estranhos... Este livro, testemunho desses tempos, não poderia senão ser também estranho. A variedade de formas de expressão e de conteúdos desafia o leitor tanto como a própria realidade quase absurda que estamos vivendo."

São 18 textos curtos, de autores de distintas formações e locais, que abordam, cada um a seu modo (na verdade, idiossincraticamente), aspectos da vida sob a pandemia da Covid-19, resultando num caleidoscópio textual onde se emaranham tristezas e esperanças, lamentos e expectativas. Levam o leitor à reflexão sobre o dramático momento atual, ajudando-o a situar-se, em imaginária companhia de seus semelhantes, frente aos desafios de uma crise sanitária agravada pelo equivocado caminho político-ideológico trilhado pelo país.

Apesar da importância, neste grave momento, de se recorrer aos argumentos científicos, para convencer milhões de pessoas do erro em que consiste boicotar as vacinas e os protocolos sanitários, vai ficando cada vez mais evidente que ciência e conhecimento técnico não bastam: os obstáculos ao convencimento são de outra natureza, situando-se no campo dos sentimentos. E estes só podem ser acessados por discursos que estão além do conhecimento racional, fazendo parte do mundo da arte ou tangenciando-o. Exatamente o tipo de discurso presente em Tempos estranhos.




Lançamento:



Conto de Valdemir Pires nesta coletânea:


Os últimos estranhos dias


A Terra parou de girar em torno de seu eixo e ao redor do Sol. Há uma semana está assim. É por isso que aqui não para de ser dia e, do outro lado, noite. Os relógios continuam marcando as horas e o calendário, os dias, mas agora são todos instrumentos falsos, inúteis, na verdade. Hoje ainda é quarta-feira da semana passada e continuará sendo, enquanto o planeta permanecer paralisado. E se ele voltar a girar, um período de tempo terá deixado de existir, para sempre. Ninguém sabe o que aconteceu, estão todos, como eu, atarantados e aflitos.


Quarta-feira foi dia sete, eu já tinha recebido o salário. Como continua sendo dia sete e os meus boletos começarão a vencer a partir do dia dez, então estou esperando a Terra girar para ver se os pagarei. Hihihi. Se bem que os credores já estão mandando mensagens mostrando que estão atentos...


Não fosse o cansaço e o corpo pedindo para dormir, seria uma quarta-feira com tantas horas de luz que daria para fazer tudo que planejo e nunca consigo, até fotografar o movimento das ruas com a nova teleobjetiva que comprei faz quase um ano, flagrando no andar e no parar, no olhar e no gesticular dos transeuntes os desejos e os desesperos latentes em seus corações. Não sei se não seria melhor, porém, eu estar do lado escuro do planeta. Se a noite é uma criança, lá talvez venha a ser uma eterna criança. Hahaha.

Tempo estranho, nem o mais perfeito relógio o reconhece.


É outubro, as flores ainda exuberam. O tempo está estranho. Lá fora, chove uma chuva fininha e faz sol sem parar. O arco-íris fica lá longe, como se fosse uma pintura ou arranjo permanente, uma instalação providenciada pela natureza enlouquecida. É bonito de ver, mas é medonho que isso esteja acontecendo.


A cidade tenta manter seu funcionamento. O prefeito já providenciou decretos que visam incorporar a anormalidade à rotina.  A mesma coisa estão fazendo os patrões, brigando com os sindicatos para redefinir o significado jurídico de “jornada” e de “plantão”. Os prostíbulos agora funcionam “de dia”. Também as boates. Os cafés e quitandas podem seguir atendendo “à noite”. As luminárias das ruas e praças não precisam mais ser acesas: baita economia de energia elétrica para a prefeitura. Mas, em compensação, o que se está gastando com ar condicionado por aí! O calor é forte e úmido.


O mais estranho, mesmo, é que nos últimos dois, dois... dois “dias”, digamos assim, está crescendo rapidamente o número dos adeptos de uma seita que prega que é preciso voltar no tempo, para salvar o planeta, salvar as pessoas, resgatar as almas. Argumentam que a História não deveria ter se tornado Moderna, permanecendo o mundo na Idade Média, em que se respeitava a natureza e obedecia-se aos mandamentos divinos. Defendem que a perda dos valores cristãos colocou o mundo a perder, enfurecendo Deus; teria ele desperdiçado Seu Filho na tentativa de salvação. Agora seria necessário pedir a Ele uma terceira chance, depois da Arca e da Cruz.


Estive observando os Medievais em Cristo (assim se intitulam) na praça defronte ao meu apartamento de segundo andar. Da janela, vi a concentração de homens e mulheres de túnicas pretas com capuzes, cruzes de madeira nas mãos. Ensopados, ao som de belíssimos cantos gregorianos, vindos de duas camionetes com potentes caixas acústicas, queimaram uma pilha de livros, sob um gazebo azul, que terminou também incinerado. Em seguida, oraram alto em latim, erguendo e abaixando as cruzes, ajoelhando-se e levantando-se, antes de saírem em procissão pelas ruas, um carro de som à frente, outro atrás, cantos gregorianos ressoando pelos caminhos.


Os MCs são liderados pelo padre O´Connor, um americano que adquiriu cidadania brasileira. Ele é tido como santo porque durante a epidemia de coronavírus adoeceu e, apesar dos setenta e oito anos, se restabeleceu sozinho, após não ter conseguido vaga nas UTIs lotadas. Dizem que em seguida passou a curar infectados pela imposição das mãos. Ultimamente ninguém sabe onde ele se encontra, e fala em seu nome um ex-pastor presbiteriano chamado Rogerson Batista, que se apresenta trajado de bispo medieval.


Depois de ter ficado em isolamento por causa da Covid-19, eu não esperava que algo mais impactante do que uma pandemia pudesse marcar a minha vida (se bem que eu já tinha pensado, antes, que a queda do muro de Berlin e, mais tarde, a eleição de Trump, seriam os fenômenos mais extremos que eu veria acontecer). Então, com esta paralisia do planeta que habito, estou atônito, mas sentir-me assim é algo a que venho me acostumando, absurdo atrás de absurdo. Sobrevivi aos anteriores, não sei se sobreviverei a este. Mas, que fazer, senão seguir vivendo até onde for possível?


Tive uma ideia, logo depois de espiar a manifestação dos MCs na frente da minha janela: criar a minha própria seita. Como ex-jornalista, profissão que foi possível exercer até um pouco antes do predomínio das redes sociais como forma por excelência de disseminação de informações e ideias (assim como de desinformações e imbecilidades), achei que minhas habilidades de escrita e oratória seriam suficientes para agir na direção do meu objetivo. Eu juntaria pessoas a partir de pregações nas praças, ação facilitada pelo fato de que o espanto e o medo diante do cataclisma planetário levaram muita gente a perambular em grupos nos espaços públicos. Escreveria umas baboseiras salvacionistas e as difundiria na internet e em folhetos passados de mão em mão. Proporia a construção de um grande templo para acolher o retorno de Jesus Cristo e passaria a, diariamente, mostrar as pistas anunciadoras de sua chegada. Não sem recolher donativos dos interessados na salvação.


Infelizmente não houve tempo para por meus planos em andamento.  Horas depois de ter me ocorrido a ideia, ouvi batidas veementes na porta do meu pequeno apartamento.


-- Abra, abra, estamos aqui em nome do Bispo Batista.


Eu abri, entraram três MCs, dois homens velhos e uma mulher jovem e bonita. Ela disse:


-- Quem, por ambição pessoal, disputa fiéis com Deus, deve arrepender-se ou ser sacrificado, porque não há mais tolerância para anjo caído.


Os homens aproximaram-se, amarraram minhas mãos atrás das costas e me fizeram ajoelhar. Ergueram minha face puxando pelos cabelos da nuca. Meu olhar fixou-se direto nos olhos verdes de Ana Maria, que reconheci, depois que ela puxou o capuz para trás e me disse:


-- Estes são os últimos dias. Não serão tão amenos quanto aqueles na praia antes da nossa penúltima despedida. Se serão apenas os seus últimos dias, dependerá do seu arrependimento. Se serão os últimos dias de nós todos, dependerá do arrependimento dos homens, que pode incluir o seu.


Eu perguntei se ela acreditava no que estava dizendo. Ela me respondeu ser uma mulher de fé e, como eu não poderia duvidar, dotada de poderes maravilhosos.


Suspeitei, então, que muito mais estava acontecendo do que a interrupção dos giros da Terra. Será que aquela gente tinha, de algum modo, descoberto minhas intenções, mal eu acabara de concebê-las? Mas logo me veio uma outra hipótese: minha ex-namorada resolvera se vingar de mim, por tê-la deixado quando ainda estava apaixonada, no ano passado, e indicara a mim para a conversão forçada praticada pelos MCs. Esta coisa de “disputar fiéis com Deus” de que me acusavam era, na verdade, um bordão do grupo em todas as suas abordagens truculentas, que me induzia ao erro de pensar que sabiam o que eu andava tramando.

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