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  • Foto do escritorValdemir Pires

Viver de frases



Não só o corpo, mas também a alma precisa de alimento. Não à toa dizia Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831): “Quem não tem arte nem ciência, que tenha pelo menos religião” (e não se confunda esta com fé). E aí vai uma frase, de efeito (esta mesma, de Hegel), que pretende calar fundo imediatamente, funcionando como argumento ou grande conclusão de um longo discurso ou tratado.

O corpo vive de alimentos, a alma vive de ideias e imagens. Quando uma ideia (expressa numa única frase) tem o pendor de gerar uma bela ou confortante imagem, a alma sente como o corpo ao ingerir uma bebida ou comida muito saborosa. Eis como funcionam as frases espirituosas, nunca antes tão difundidas como na era da internet: uma gula espiritual pode agora ser satisfeita a baixo custo – ninguém precisa mais comprar livros de frases para ler uma por dia; e já não fazem sentido os calendários em que a cada dia se lê uma delas, abaixo da data, pois 365 são poucas, perto da profusão de ditos, provérbios e sentenças fabulosos encontrados na redes sociais e sítios do espaço virtual.

Qual o problema em relação a isso? Três: errar de fornecedor, sofrer congestão espiritual e trocar gato por lebre.

Erra de fornecedor todo aquele que atribui frase a quem não a disse nem escreveu. Problema que se tornou absolutamente comum. Luis Fernando Veríssimo (1977-), sempre gentil e bem humorado, não reclama de ser vítima desse tipo de pirataria às avessas, mas ri com frequência diante do tanto que lhe atribuem frases não suas. Clarice Lispector (1920-1977), fosse ainda viva, talvez esculhambasse a prática. Como será que reagiria Caio Fernando Abreu (1948-1996)?

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” Quem teceu esta bela definição de utopia? Poucos dirão que foi Fernando Birri (1925-2017), amigo de Eduardo Galeano (1940-2015), a quem ela é atribuída há muito tempo.

Sofre de congestão espiritual todo aquele que consome excessivas frases esparsas, recolhidas aqui e ali, sem um mínimo de reflexão a respeito. Imagine juntar, num único prato, feijoada, banana split, spaghetti à carbonara, melancia e um sashimi. E comer tudo! Dá no mesmo misturar frases de Sêneca, Jesus Cristo, Hegel, Marx, Tolstói, Peter Drucker e padre Fábio.

E quem troca gato por lebre diante da profusão de frases? Aqueles que as entendem equivocadamente. A prática é tão arraigada, que existem provérbios milenares que se originam desse equívoco. Um exemplo é suficientemente esclarecedor: “Quem tem boca vai a Roma.” Ouvi dizer que originalmente era “Quem tem boca vaia Roma” – frase que convidava os prejudicados pelo Império a reprová-lo em público (se tivessem coragem...). E se tornou a lembrança de que quem pode falar, vai se informando com os outros, pelo caminho, até chegar aonde deseja. Soa, em termos de autoajuda, como: “Vá em frente, não tenha medo: uma hora chega; não pare.”

Talvez por isso, Cristiano, procurando fazer jus ao próprio nome, gostava da frase “Vire a face”, como reação correta às agressões. Mas, meio surdo, ele a entendia como “Vire alface”. E, por coerência, tentava se tornar referido vegetal, adotando hábitos alimentares clorofilados, evitando o sol (que deixa a pele mais para o vermelho que para o amarelo, estando este mais próximo do verde que o vermelho), tingindo o cabelo de verde e, na fase mais aguda da doença, pintando também as unhas dessa cor, além de se trajar sempre com vestes em diversos matizes dela. O que aconteceu com Cristiano? Ele virou o Hulk, que todos conhecem pela força que tem e não pela postura passiva sugerida por Jesus.

Piadinhas infames à parte, cuidado com as frases. Apenas cuidado. Não pense em abandoná-las: elas são uma imensa riqueza do pensamento e da arte. Colecione-as, utilize-as para a vida – a alma precisa de alimento. Apenas, no seu museu do pensamento, coloque cada uma na sessão apropriada: não vá colocar uma múmia egípcia ou uma clepsidra grega na mesma sala da estátua equestre de Napoleão...

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