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  • Foto do escritorValdemir Pires

Tendência


Imagem: Guzel Maksutova (Unsplash)


Minha amiga Josiane, inimaginável sem seus muitos livros e seu profundo amor por Fernando Pessoa, dia desses levou-me a ler uma matéria jornalística em que o assunto era bookshelf wealth, algo como riqueza de estante. Trata-se de uma tendência disseminada nas redes sociais, que tem a ver com a organização agradável de livros, por aqueles que os possuem em quantidade.

            Tanto Josiane como eu possuímos bibliotecas pessoais, livros acumulados durante a vida toda, a que retornamos conforme necessidade ou desejo. Livros-companheiros. E, claro, procuramos, nem sempre com êxito, organizá-las de maneira não só prática (acessibilidade e facilidade para limpeza), mas também agradável (ambiente convidativo para a leitura). A matéria jornalística mencionada traz imagens de pequenas bibliotecas dos sonhos que, inevitável e imediatamente, chamam nossa atenção. Sempre despertam um recôndito desejo de imitá-las em nossas casas, com os nossos milhares de exemplares.

            Mas, pensando bem, primeiro, a tal tendência – riqueza de estante – é um tanto suspeita: passa a impressão do livro como objeto de decoração, antes de tudo; de ostentação, em seguida – como a afirmar “eu leio, sim: vejam!”. Afinal, qual a razão para fazer videozinhos mostrando algo tão íntimo como uma biblioteca pessoal? Seja qual for a razão, e resguardado o direito de cada um mostrar ao mundo o que bem entender, é evidente que ao se configurar uma tendência, mais livros serão vendidos. Se lidos, é outra conversa... Enfim: não é de livros que estaremos tratando por este caminho do universo virtual.

            Tendência: esta a palavra. Se hoje é uma, amanhã é outra. Talvez não amanhã, mas daqui a duas ou três horas. Enquanto uma tendência está em curso, sua sucessora já está em gestação. A coisa não para. De fato, a tendência é surgir, logo em seguida, uma nova tendência; um ciclo interminável de tendências – esta a única tendência permanente. Também no que diz respeito às bibliotecas pessoais.

            E que será de nós, Josiane, se formos ao encalço dessas modinhas? Uns doidos, certamente. E essa coisa jamais vai nos agarrar, não é? Pois se assim fosse, não teríamos, ao longo da vida, mergulhado nas leituras que fizemos e fazemos, de literatura sólida e enriquecedora (de Pessoa para cima, de Calvino para frente), mas teríamos desperdiçado tempo com... tendências! Sim, também no tocante a temas e formas, os livros publicados seguem-nas. Outro dia mesmo, li as opiniões dos editores brasileiros sobre as tendências para 2024. E fiquei boquiaberto, tanto com as tendências, como com a minha ignorância: coisas como romantasy, healing fiction e sports romance... E há quem afirme que “é possível que títulos mais antigos ganhem projeção inesperada, impulsionados por redes como TikTok.” Fico me perguntando quais podem ser os autores e títulos impulsionados pelo TikTok, o campeão do nada e do menos que isso no universo dos vídeos curtos.

            Sei lá, Josiane, estou ficando velho. Viu? Mas, olhe, mesmo jovem, não gostava de tendências, de modismos. Por isso, vou cá ficando, com minha biblioteca, com uma cara que é a minha, com um jeito e com os livros que resultam da minha história e do meu modo de ser e de ver o mundo. Biblioteca dialógica, sim, sempre em busca de abrigar e conversar com a polifonia democrática dos nossos dias (o que é diferente de correr atrás de tendências); biblioteca seletiva a partir de alguns critérios universais e consagrados. Não por elitismo nem por prepotência intelectual, mas por duas razões muito simples: primeiro, porque a vida é curta e a demanda por leitura é infinita; segundo, porque tenho necessidade de me sentir parte pensante de um longo processo de construção das ideias sobre o que fomos, somos e viremos a ser, e somente certos livros – nunca a maioria daqueles ligados às tais tendências – podem me proporcionar ajuda no esforço de me manter fiel a esta corrente.

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