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  • Foto do escritorValdemir Pires

Tempo: O sonho de matar Chronos



Sobre Tempo: O sonho de matar Chronos, de Guido TONELLI, trad. de Federico Carotti (Rio de Janeiro: Zahar, 2023, 221 p.)

 

            Guido Tonelli é um físico italiano que contribuiu para a descoberta do enigmático bóson de Higs. Ele entende que matar Chronos, ou seja, eliminar o tempo como elemento relevante para o conhecimento da realidade, não passa de um sonho tolo. Ao contrário de outro físico italiano, por ele mencionado como um dos “assassinos do tempo” (p. 207-210), Carlo Rovelli, um dos formuladores da gravidade quântica em loop (LQG, em inglês), para quem o tempo simplesmente não existe (tal como expõe em seu livro A ordem do tempo). Bom debate, este, mas, primo mangiare, dopo lavorare. Pensar fica para depois, porque o assunto não é fácil nem convidativo, propriamente.

            Tonelli é taxativo. A última frase de seu livro (p. 220) é “Por enquanto, ninguém pode dizer se algum dia chegará o tempo em que a ciência não precisará do tempo.” Seu entendimento é de que “o tempo tem uma função de imensa importância, e não só no mundo dos corpos macroscópicos, onde a matéria se transforma sem solução de continuidade e os organismos biológicos envelhecem e morrem. Como vimos [de fato, ao longo de seu livro aqui comentado], o tempo segue tendo papel essencial também no mundo microscópico das partículas elementares. Está estreitamente ligado ao espaço na relatividade geral, à energia no princípio da incerteza, às poderosas simetrias gerais de carga e paridade que governam os processos elementares.” (p. 215)

            Antes de chegar a esta afirmativa, seu livro de divulgação científica (em antagonismo com o de Rovelli de mesma natureza), Tonelli discorre didaticamente sobre as questões relacionadas ao tempo tanto no âmbito cósmico (planetas, estrelas, galáxias, buracos negros etc. – relatividade especial e geral), como no das partículas elementares (prótons, elétrons, nêutrons, quarks, múons etc. – física quântica), deixando claro que entre essas abordagens existe uma demanda por atar as pontas que até agora ninguém conseguiu atender. Falta a tal “teoria de tudo”, ainda, que, uma vez formulada, explicaria as leis aplicáveis tanto ao comportamento de um elétron, invisível pelo seu diminuto tamanho, como ao de uma estrela de outra galáxia, inatingível por conta da distância insuperável em que se encontra de qualquer potencial investigador que seja um terráqueo.

            Com Tonelli muito se aprende, para “consumo quotidiano”, a respeito do mundo estranho (embora nos pareça familiar) que é o nosso, a partir das lentes da física contemporânea, que ele procura colocar nos olhos de seus leitores leigos. Mundo estranho, o nosso, fica claro, inclusive, porque o tempo, nele, foi transformado quase exclusivamente em uma medida que, engaiolando Chonos nas caixas dos relógios, o fez, em sua ira de prisioneiro, vingar-se transformando os dias e a horas em algemas que a todos prendem ao longo da curta vida.

            É notório o esforço de Tonelli por tratar as questões da física moderna, na qual o homem não passa de simples detalhe surgido ao acaso, com um toque de sensibilidade para o humano, com suas ilusões, sonhos, crenças, esperanças. Ao longo das páginas de Tempo: o sonho de matar Chronos, o cientista dialoga com as artes (música, pintura, escultura, cinema) como forma de abordar o tempo como variável objetiva (que muito deve à entropia) e, ao mesmo tempo, como elemento crucial do modo de viver e sentir dos mortais que todos somos.

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