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  • Foto do escritorValdemir Pires

Tempo, espaço e comunidade: os “dentros” da essência humana



A experiência de existir é sentida como uma espécie de estar dentro: dentro do espaço, dentro do tempo, no interior (dentro) das relações com os outros. O nascimento consiste, concretamente, em ser expelido de um recipiente pequeno, vivo e acolhedor (o útero – primeira vivência, inconsciente, da relação com o outro – a mãe) para um novo recipiente, praticamente sem limites e eivado de hostilidades e perigos (o mundo). O nascimento representa, também, o ingresso no tempo próprio, doravante contado pelas batidas do novo coração independente, ora lançado no mundo. O nascituro e o bebê, até certa idade, não têm consciência completa de sua existência: a sensação de estar dentro, como singularidade, é tardia e chega aos poucos. Uma vez obtida (até certo ponto, conquistada, necessariamente com a ajuda de outros) ela – a sensação do singular-dentro – se torna o eu que cada um entende ser.


O eu é, em grande medida, uma consciência que experimenta de modo particular a sensação de estar no espaço e no tempo, em relação com os outros eus. Enquanto o espaço é apreendido de imediato – tatilmente, visualmente, auditivamente – o tempo se dá a conhecer de modo imaterial: é aquela noção (construção mental) de movimento incessante indo em direção ao que está para acontecer, originando-se do que já aconteceu e está engendrado no que está acontecendo. Dada a complexidade da noção de tempo (enquanto sucessão e duração), ela, ao que tudo indica, não é completamente acessível aos órgãos cognitivos dos seres vivos que não os humanos. Daí poder-se afirmar que a percepção temporal é uma característica que distingue o ser vivo dito racional daquele tomado por irracional. Ou seja, a racionalidade repousa fundamentalmente na capacidade de sentir e, de algum modo, computar a passagem do tempo, apreendendo a finitude como o cessar da contagem.


Da mesma forma que se entende como um elemento singular dentro do conjunto infinito de seres e objetos que é o espaço-mundo, e se percebe como um palpitar finito entre incontáveis outras mutações-instantes dentro da bolha-temporal, o eu é experimentado como um ser imerso em relações (dentro) com os demais eus. Mas enquanto o estar dentro do tempo e do espaço é sentido sem a necessidade de recorrer à ideia de afetividade, o estar na comunidade humana é algo que exige o sentimento de pertença, seja ela positiva ou negativa: ser querido ou rejeitado, amado ou odiado é o que faz o indivíduo sentir-se dentro (desejado ou indesejado) do mundo-comunidade. Se ele é rejeitado nesse mundo e não consegue lidar com isso, experimenta um profundo mal-estar por estar dentro do espaço-mundo e da bolha-tempo, podendo o desconforto atingir a situação limite em que a pessoa decide lançar-se para fora desse espaço e desse tempo (suicidar-se); esse fora do espaço-mundo e da bolha-tempo é o nada, “locus” sem espaço, sem tempo e sem outros eus, além de, também, sem o eu que que nele mergulha (como decisão pessoal - suicídio) ou é lançado à sua revelia (fatalidade ou término natural da vida - morte) para desaparecer.


Sentir-se confortavelmente ou com esperança de conforto (principalmente afetivo e também material) é condição básica (sine qua non, de fato) da vida humana. A este sentimento indispensável se dá o nome de felicidade: um sentimento de pertencer à comunidade dos homens, não sendo ela hostil ou indiferente, de modo que o espaço-mundo e a bolha-tempo sejam recipientes acolhedores diante do nada que há fora deles. Assim, é claro que a acolhida do outro é tão vital para qualquer pessoa como o ar que respira, embora a falta de acolhida demore um pouco mais que a falta de ar para matar. Pior: a falta de ar mata literalmente, a falta de acolhida mata em vida. E, como diz Mia Couto: “Morrer é fácil, difícil é existir-se morto.”


Vivamos e façamos viver! – é a única forma de encontrar a felicidade no lugar (espaço) e no momento (tempo) em que fomos colocados, em certa medida à revelia de nossa própria vontade.

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