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  • Foto do escritorValdemir Pires

Sucesso na vida



As coisas e situações mais profundamente desejadas são, também, as menos compreendidas, aquelas que provocam embaraço ao esforço de definição, como felicidade, amor, sucesso. Todos as querem para si, permanentemente, mas poucos são capazes de dizer o que são. Na falta de definições próprias, prontas e acabadas, seguras, as pessoas terminam se apropriando daquelas, geralmente precárias, com que se deparam no dia a dia. E o resultado disso não costuma ser agradável, sequer confortável.


Sucesso, por exemplo, o que é? Pode ser definido objetivamente ou é algo que se configura a partir de valores e sentimentos individuais? Que palavra é essa, tão corriqueiramente utilizada como meta ou diretriz?


O procedimento mais comum para se definir o sucesso é a comparação. Consiste em tomar um outro como padrão desejável e verificar a distância entre este padrão e a condição que se pensa ser a própria – quanto menor a distância entre o padrão almejado e realidade vivida, maior o grau de sucesso obtido; quanto maior a distância, maior o fracasso.


O maior problema deste tipo de procedimento é que geralmente se aplica à noção de sucesso na vida. Ao se comparar com o outro, aquele que se pergunta sobre o próprio sucesso, conclui, na maioria das vezes, que é um fracassado – não nessa ou naquela atividade ou empreendimento, nesse ou naquele relacionamento ou aposta, mas na vida. E daí para a depressão, por exemplo, é um pequeno passo.


É preciso entender que quando uma pessoa compara sua vida com a de outra, está considerando sua vida como um todo (cada um sabe como é sua própria vida, ainda que muito exista de autoengano a respeito) e considerando a vida da outra pessoa apenas parcialmente. Isso porque o que se conhece da vida alheia é sempre um pequeno conjunto de aspectos e dimensões, permanecendo todos os outros (às vezes mais importantes) no escuro. Não é incomum que celebridades (do esporte e do show business, por exemplo, muito expostas nas mídias), depois de notório sucesso em suas áreas de atuação, em algum momento tenham sua vida quotidiana devassada após crises pessoais graves, como desmantelamento de relacionamentos afetivos, desordem psicológica, desmoronamento de carreira, falência etc., gerando oportunidade para que se questione o que é, de fato, sucesso. De repente a foto bonita que alguém usa para se comparar ao outro, mirando-se no espelho, mostra um rosto que não é real. Descobre-se que o bem-sucedido é um fracassado. Que o sucesso existe apenas para a imagem pública do ídolo, custando-lhe a vida: é queimando rapidamente o que se é que se sustenta a chama que tanto brilha... Brilhar tanto, assim, é um sucesso?


Outro tipo de comparação é entre pares, no mundo profissional. Todo artista, professor, médico, engenheiro ou pedreiro almeja, intimamente, ser O artista, O professor, O médico, O engenheiro, O pedreiro (este um pouco menos, porque geralmente lhe basta ganhar o suficiente para viver bem). Estabelece-se assim uma competição, geralmente (mas nem sempre) velada, que é conveniente à lógica mercantil do desenvolvimento econômico e da acumulação de capital, mas que é corrosiva para as individualidades menos propensas a fazer da vida um torneio interminável ou um campeonato de vaidades. O preço que se costuma pagar pelo “sucesso”, nesses casos, é a conta que algum dia chega, por exemplo, para o workaholic: a descoberta tardia de que tudo é nada, tudo aquilo em que ele transformou sua vida roubou-lhe o que é a vida, para a qual o trabalho deve ser meio, nunca fim.


Sucesso é, portanto, uma palavra perigosa. Principalmente se for transformada em meta ou diretriz. Ainda mais se for uma meta acompanhada de obsessão e alimentada por compulsivas comparações. Pode a palavra sucesso ser uma expressão aliada na busca do bem viver? Talvez, mas nunca sem consciência das muitas implicações a considerar.


Sucesso em geral se confunde com conquista. Bem-sucedido, então, é aquele que mirou um alvo, atirou e acertou; aquele que se propôs a uma maratona e a concluiu em primeiro, segundo ou terceiro lugar; aquele que fez um cálculo sobre o futuro e, chegada a hora, viu que o acertou. Nestes casos, sucesso é chegada, conclusão.


Sucesso na vida, entretanto, é mais que isso: é seguir em frente lidando bem (equilibrada e serenamente) com os sucessos (entendidos como chegadas e conclusões certeiras) e com as inevitáveis (e mais numerosas) chegadas e conclusões desviantes, frustrantes. Sucesso na vida tem a ver com a capacidade de lidar com a própria vida, que nada mais é que um balaio em que se misturam sucessos e fracassos nos diversos âmbitos em que a existência se dá: pessoal, familiar, social; afetivo, profissional, cultural; político, econômico; local, regional, global.


Como sucesso, etimologicamente, é uma palavra relacionada tanto a chegada (conclusão da caminhada, êxito) como a acontecimento (no sentido de sucessão, passos sucessivos ao longo da caminhada), se tomada como orientadora dos desejos pessoais (e dos necessários fazeres para tê-los satisfeitos), deve carregar com ela ambas as dimensões vindas do latim. Só assim sucesso deixa de ser uma ameaçadora faca nas costas para se tornar uma alça que se pode agarrar para, aos poucos, transpor obstáculos. É dessa forma que uma palavra de que o mercado se apropria para poder explorar os indivíduos sem piedade, fazendo com que se sintam responsáveis pelo próprio fracasso em competições desiguais, pode ser convertida em uma palavra libertadora: sucesso (na vida e nos diversos fazeres isoladamente considerados) como indicador não do contrário de fracasso, mas de capacidade de aceitar tanto os êxitos como os fracassos que são os sucessivos pontos da reta no tempo em que se constitui uma vida, com seus altos e baixos, montes e vales. Sucesso como capacidade para lidar com apetite e competência com as adversidades e riscos que são a essência do humano, necessariamente incerto, no seu flerte com o imponderável.


Sucesso é, nesse sentido, não um resultado (uma chegada), mas uma habilidade (de caminhar tentando chegar, e também de lidar com caminhadas que podem não chegar). Até porque o ponto de chegada último de uma vida é seu "fracasso" final: a morte.

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