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  • Foto do escritorValdemir Pires

Solidão


Imagem: Kenan Sulayman, Unsplash


A solidão não é um acontecimento, um momento ou uma escolha do ser humano. A solidão é a mais profunda característica do ser que pensa e cujo sentir é mediado por este pensar. Não é solitário o ser que, estando só, segue em frente até deixar de estar, voltando, depois das interações, outra vez ao isolamento, e assim sempre, pendularmente, sem qualquer questionamento, alegria ou tristeza. Solidão é elaboração mental, nem sempre voluntária; é percepção de si enquanto parte de um todo com o qual se interage; portanto, é a condição de existência do eu, inconfundível e sempre um tanto confuso (já que o pensar é um exercício permanente de desarranjar para em seguida rearranjar).

 

A solidão é dor, mesmo quando aceita ou até desejada ou conquistada em meio às invasões geralmente inevitáveis. Dor de não encontrar semelhante para compartilhar a angústia e a ansiedade que vem do mais profundo da existência, onde pulsam dúvidas e dúvidas e dúvidas. Feito para o encontro, desde as mais íntimas e ínfimas partes que o constituem, o indivíduo humano busca o outro desde que é expelido pela outra que o trouxe ao mundo. Busca por causa de um querer que não controla, que estando em si, não é seu, mas da espécie a que pertence.

 

A solidão tem uma porta de entrada que leva para dentro do eu; e uma porta de saída, que conduz aos outros. Fechar uma ou outra tem consequências desastrosas.

 

A solidão tem duas janelas: uma para o Tudo, outra para o Nada. Há que se abrir e olhar através delas, alternadamente. Na janela do Tudo são vistas as possibilidades, as potencialidades, os desejos, os sonhos – fechá-la é morrer em vida. Na janela do Nada observa-se a falta de sentido, a dúvida, o enigma; é preciso lidar bem com ela, não abri-la nunca de chofre, jamais escancará-la, deixar que, por suas frestas, a inquietação amiga penetre o compartimento, na sua forma de luz, pois o Nada não é apenas escuridão, monstruosidade. Nada e Tudo existem juntos: apenas na consciência se separam, nesta consciência do eu que caminha para o nada almejando tudo que possa sentir, descobrir, conquistar, gozar.

 

Todo encontro é um encontro de solidões. Encontrar nunca liquida a solidão. Ela sempre volta. E mesmo quando está suspensa, jamais o está plenamente.


Apaga-se a solidão apenas quando a consciência é abandonada pela energia vital – neste momento, o ser encontra seu destino final: o deixar-de-ser. O deixar-de-ser não se confunde com o não-ser, pois aquele que foi, por menos que dele se lembrem, por menor que tenha sido sua importância para o Universo, foi, desgarrou-se do Nada, teve seu instante de brilho, após o qual nada mais foi como antes no Todo.

 

A solidão é a condição da escrita. Também da leitura. E ela não se rompe apenas porque, na página, o leitor encontra o escritor, já que este encontro não tira nem um nem outro dos respectivos isolamentos. Mas a leitura é, sim, um encontro. Encontro do eu que tenazmente lavrou um objeto e o lançou nas areias em movimento do deserto imenso; e teve a sorte de outro eu, de cima do camelo lento que passava, tê-lo visto, descido para apanhá-lo e, depois, curioso, a ele dedicado uma fração de seu tempo. Encontro de que, na imensa maioria das vezes, o escritor não sabe que aconteceu, assim como não soube, desde o início, se aconteceria.

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