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  • Foto do escritorValdemir Pires

Segurança alimentar e cidadania

Sobre GALEAZZI, Maria Antonia M. (Org.).  Segurança alimentar e cidadania: a contribuição das universidades paulistas.  Campinas: Mercado de Letras, 1996. 352 p.

 


            Era uma vez um país rico, repleto, porém, de pessoas e famílias pobres, muitas, milhões delas sem acesso até mesmo ao mínimo necessário à alimentação; um país sem segurança alimentar.

 

Esse país, visivelmente injusto nas ruas, bairros periféricos e favelas, apresentando estatísticas sociais flagrantemente inaceitáveis, vergonhosas mesmo, não tinha sequer consciência dos horrores que a miséria plantava em seu solo, de norte a sul, de leste a o este, tomando Norte e Nordeste como regiões de atraso excepcional, atípico, por isso objeto de políticas de fomento sempre retumbantes nos discursos e nos documentos, mas de alcance efetivo insuficiente.

Nesse país, um homem  singular, sensível e ativo, solidário e propositivo, um dia chamou para si a tarefa de juntar pessoas, talentos e recursos para enxotar a letargia e iniciar um combate coletivo contra a fome.  Herbert de Souza, irmão do Henfil, o nacionalmente querido Betinho, em 1993 (onze anos atrás!) conseguiu dar início, com grande repercussão e sucesso, à Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida.   A indignação foi o combustível que Betinho pôs em ação para mobilizar todo tipo de gente, toda espécie de instituição, para estabelecer com os mais necessitados uma relação de solidariedade e de compromisso - compromisso de que cada homem, mulher ou criança com fome passa a ser um problema de todos: “Não se pode comer tranqüilo em meio à fome generalizada.” (Carta da Ação da Cidadania, 1993).

Rapidamente, em maio de 1994, um grupo de universidades paulistas, públicas e confessionais (USP, UNICAMP, Universidade São Francisco, UFScar, Universidade do Sagrado Coração, PUC-SP, UNESP) abraçaram a causa de Betinho, colocando-se o desafio de contribuir na luta contra a fome, ajudando a entender suas causas, conseqüências, seus diversos matizes e especificidades regionais e por extratos da população.

Durante um longo seminário naquele maio distante exatos 10 anos, a fome e seu oposto, a segurança alimentar, foram objeto de uma reflexão transdisciplinar do tipo que poucas vezes se verifica no ambiente universitário.  Foram tratados competentemente temas como “Fome: a marca de uma história”, “Caracterização das populações pobres no Brasil”, “Desenvolvimento, fome e segurança alimentar”, “A segurança alimentar e os problemas estruturais de acesso”, “A exclusão social no capitalismo incompleto”, “Segurança alimentar e desafios às universidades”, “Pobreza, segurança alimentar e desnutrição no Braisil”,  “Cidadania e solidariedade: as ações contra a miséria”, “Política fundiária e agrícola e segurança alimentar”, “Política agroindustrial e segurança alimentar”, “Política científica e tecnológica e segurança alimentar”, sempre com ajuda de renomados e engajados pesquisadores das universidades paulistas.

            O resultado foi transformado na excelente coletânea organizada por Maria Antonia M. Galeazzi, publicada dois anos depois do seminário e sete antes do “Fome Zero”, a primeira e até agora insuficiente política do governo Lula para superar o quadro social que Betinho lutou para reverter.

            Infelizmente, continuam atuais todos os problemas identificados e esquadrinhados pelos autores na coletânea e, pior, para combatê-los, a mobilização foi substituída pelo marketing e por programas assistencialistas mal estruturados e mal coordenados pelo governo.  Esse quadro torna a leitura dessa publicação de 1996 ainda necessária e importante, assim como a possível realização de um novo encontro das universidades paulistas, talvez com maior número delas, para discutir o mesmo tema, partindo do acúmulo já existente em termos de reflexão e das experiências vivenciadas na última década. 

Difícil?  Sim.

 

            Era uma vez um país rico, repleto, porém, de pessoas e famílias pobres, muitas, milhões delas sem acesso até mesmo ao mínimo necessário à alimentação; um país sem segurança alimentar...

 

(Publicada em Saúde em Revista, Piracicaba, vol. 6, n. 13, mai-ago 2004, p.81-82)

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