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  • Foto do escritorValdemir Pires

Sá Marina



O menino negro, miúdo e suado, brilha ao sol, sem camisa e descalço. O sorriso largo e branco, os olhos vivazes: “Gol, gol, gol!” – pequeno rei. Todo o time corre em sua direção para o abraço e pulos nas costas (Meu Deus! Como não o machucam?). Os adversários agitam os braços e fazem baita cara de desagrado, restringindo-se ao seu lado do campo improvisado no calçamento de paralelepípedos. O goleiro demora a levantar-se - a frustração em pessoa. Um vai buscar a bola, que assustou e enraiveceu o pipoqueiro:

-- Eu já falei que isso aí não é campo! E se me quebrasse o vidro, quem ia pagar?

Ao redor dos bancos de concreto em círculo, meninas dançam e cantam: “Oh, cirandeiro, cirandeiro oh! A pedra do seu anel brilha mais do que o sol. Menina me dá um beijo...” Cabelos longos, curtos, loiros, morenos, negros, igualmente lambidos pelo sol de verão das cinco e pouco. Chinelos, tamancas, sandálias num compasso típico. (Teriam nascido já sabendo cirandar?). Heitor no centro, conduzindo o canto, segura o mastro de onde saem as fitas coloridas que cada menina segura, enrolando e desenrolando na haste conforme as idas e vindas da ciranda.

O velho sorveteiro circula com a caixa de isopor pesada. Um chama daqui, outro dali. Ele atende um, pede pra outro esperar. Vai pra lá e pra cá num inacreditável gingado de moleque, feliz porque a caixa esvazia e a carteira de plástico engorda.

-- Limão e chocolate não tem mais. Trouxe bastante assaí. Quem vai querer? (Onde, diabos, não tem catupiry e assaí?)

Nos bancos rente às árvores, famílias e amigos conversam, comem, bebem e há quem dance e cante, um violão acolá. Olhares calmos, gestos pacientes, um conforto inabalável quase caseiro. Muita gente, os bancos em todo o quadrante da praça tomados.

O obelisco central sofre: não pode ceder ao chamado do berimbau que agita a roda de capoeira animada aos seus pés. Jorge tange a corda com virtuosismo, ouvidos atentos, olhos dançantes. Os contendores vão se revezando, braços e pernas graciosamente se agitando.

A praça está cheia e continuam a chegar. Grupos bem vestidos, bermudas e regatas, bonés e chapéus, máquinas fotográficas, paradas para selfies (Por que será essa revoada de turistas?).

O sol vai descendo, está acima do pico ao fundo, onde costuma repousar. Doura a praça. Uma brisa leve anima os espíritos.

De repente, os meninos do futebol e as meninas da ciranda correm para a parte baixa da ladeira, para onde convergem também os olhares dos turistas e das pessoas nos bancos. Silencia o berimbau, Jorge petrifica. O pipoqueiro (olhos na ladeira), derruba um saquinho nos pés da velha senhora, que ri. Heitor deita o mastro com as fitas no chão e corre para junto das meninas cirandeiras.

Vêm descendo, lá vem ela! (Quero ver, para poder contar.) Percussionistas, músicos, bailarinos, em organizada algazarra se dirigem à praça. É o que todos estavam esperando (E também eu.), enquanto espantavam a modorra da tarde de domingo ao acalanto de gritos infantis, ao som do berimbau e do burburinho geral.

Única de saia branca, ela está à frente do grupo quando chegam ao pé da ladeira, rente à praça. É pequena, morena-jambo (Café com leite em mix celestial!), cabelos pretos e longos, olhos de índia. Não é dona da exuberância que se ouve dizer. (Uma jovem comum, pensei; exageram.)

O tempo para, a multidão congela, o silêncio chega ao fundo e ao topo, até que a música começa, puxada pela percussão. Primeiro ela dança só. Nuvens se juntam sob seus pés para serem acariciadas, enquanto a mantêm acima do solo, em troca; o sol, que já começava a se recolher, volta imperceptivelmente para cima, apoia-se no pico da montanha, para ver. (Só quem viu que pode contar.)

Quando ela começa a cantar, o enlevo agarra as almas ao redor. Ninguém resiste a dançar ou chacoalhar-se (imaginando estar dançando). A jovem cadeirante agarra as rodas e se move levemente para a frente e para trás. Um bêbado se levanta bamboleando e agitando os braços para cima, como quem ressuscitasse bailando. Sem a brisa (Parou para olhar?), as folhas das árvores se agitam por si, para espanto dos pássaros, que improvisam um balé aéreo sobre a praça, sem um pio. (Quem é essa moça?)

Um coro se ergue da multidão, incrivelmente afinada, ao seu “Juntos!”, no momento em que todos os músicos e bailarinos se incorporam à apresentação no centro da praça. Não há ali uma só pessoa que não esteja dançando, imitando seus passos graciosos, absortos, inebriados, como se o momento não fosse a fração de um decadente final de domingo.

Marina, dançarinos, músicos, multidão, pássaros, árvores, paralelepípedos, pipocas, sorvetes, turistas, chapéus, sol, montanha, praça, sons, passos – um só todo suspenso no ar, girando, girando, girando, aos pés de Marina. Foi assim até o sol se pôr e o véu da noite cobrir a praça, perfurado pelas luzes da iluminação pública escassa.

Enquanto cantava a parte final da última canção, Marina foi se abaixando, se ajoelhou e se curvou até sua cabeça tocar o chão. Em seguida, levantou-se num só golpe, girou no ar. De costas para a praça cheia, dirigiu-se à ladeira ladeada pelos músicos e bailarinos, que pareciam proteger sua caminhada contra o assédio iminente da multidão. Primeiro, correu, depois desacelerou e prosseguiu caminhando. De passagem, sorriu discretamente para Heitor, que conseguira se colocar visível à sua esquerda. Jorge não foi tão feliz, apesar de também ocupar lugar privilegiado, à direita, mas contentou-se por lembrar que no dia seguinte encontraria a colega balconista na papelaria em que ambos trabalham, ele entregador.

Heitor sorriu, foi para casa sorrindo e sonhou com um sorriso a noite toda. Jorge guardou o sorriso para o dia seguinte. O povo da praça, agora se retirando, chorou silenciosamente, cada um colocando na gaveta do passado, quente ainda, uma alegria que ninguém é capaz de explicar, nem sabe de onde vem. Saberia Marina, que, ainda que presa ao seu quotidiano de província, roda pela vida afora e põe pra fora essa alegria, sempre deixando versos na partida e só cantigas pra se cantar?

(Foi assim que, naquela tarde de domingo, conheci Marina, de quem ouvira tanto falar. Eu a vi – quase sem acreditar - fazer o povo todo cantar e chorar, seguindo seu passo, esquecendo a agitação e aflição que mastigam toda gente. Eu a vi mostrar toda essa poesia no olhar, que os cadernos da papelaria embotavam quando lá apareci, para revê-la, pretextando procurar uma caneta tinteiro.)


(Escrito em 26/03/2016, quando participei, pou pouco tempo, do Coral "Rairaram" (Amigos do Sol), na UNESP/FCL-Ar)

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