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  • Foto do escritorValdemir Pires

Presidencialismo de coalizão



Coalizão: acordo político ou aliança entre partidos para alcançar um fim comum. Presidencialismo: sistema de governo em que o chefe de governo é também o chefe de Estado ou líder do poder executivo, que é separado do poder legislativo e do poder judiciário, os três poderes usufruindo de independência. Presidencialismo de coalizão: o presidente governa à base de barganhas com os parlamentares, cedendo-lhes cargos, verbas, vantagens etc. em troca de votos favoráveis aos seus projetos; assim, o presidencialismo, sob parlamento com maioria da oposição, torna-se quase um parlamentarismo.

 

Ele morava em Jundiaí e tinha um cargo concursado no governo do Estado de São Paulo. Trabalhando na capital, para onde viajava diariamente, conheceu o deputado que o convidou para assessor em Brasília. Deputado de esquerda, dono de muitos votos; segundo mandato, perfil em ascensão, podendo chegar a governador ou senador. Aceitou o convite, lisonjeado, mas sob a condição, viabilizada sem dificuldades ao amparo da legislação, de ser cedido à Câmara dos Deputados, pela Secretaria Estadual da Fazenda, sem prejuízo de vencimentos. Assim poderia retornar ao emprego seguro em São Paulo, caso algo desse errado em Brasília. Melhor dessa forma, apesar de o salário ficar um pouco menor do que aquele que perceberia demitindo-se do cargo concursado para assumir o cargo de confiança no gabinete do deputado, pois este duraria apenas três anos e meio ou sete e meio, na hipótese de seu chefe se reeleger novamente ou tornar-se governador ou senador, carregando-o consigo.

 

Não era dado a mudanças e costumava apelidar de “ciganice” a atitude daqueles, alguns seus conhecidos, que ficavam pulando de galho em galho em cargos de livre nomeação, arrastados por políticos para lá e para cá. Mas havia outros pesos pressionado a balança. Estava separando-se da mulher, após seis anos de casamento e uma filhinha de menos de dois. Já estava completando o primeiro aniversário a sua paixão por Liliana (pivô da separação), assessora do deputado, que sugeriu seu nome para o cargo a que fora convidado. Corria, pois, atrás do amor, aceitando por ele pagar o preço de tornar-se cigano (mais ou menos, porque a casa fixa, ou seja, o cargo efetivo, continuava seguro no Poder Executivo Paulista).


Ele e Liliana, agora articulados no aparelho de Estado em nível federal, em busca de uma vida de novos desafios e aventuras em comum. Respirando a ideologia de um mundo melhor, mais justo, mais feliz; ele contaminado pela militância exuberante de Liliana. Abasteciam-se diariamente de um lema: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”.

 

Não demorou para o deputado Laércio Mangabeira ser alçado ao cargo de Ministro das Comunicações. Levou junto o casal, que havia pouco passara a frequentar sua casa, a viajar com sua família, a acompanhá-lo com mulher e filhos em restaurantes e espetáculos. Amor, amizade, luta política com forte teor progressista: o que mais poderiam desejar? Um mundo quase perfeito. Atrapalhado, claro, pelo presidencialismo de coalizão, a força das bancadas majoritárias de direita, extrema-direita e centro-direita.  Mas isso só apimentava a luta dos fortalecidos pelo amor, pela amizade e pela utopia rejuvenescedora.

 

O tempo passou e a liberação sem prejuízo de vencimentos de Ludovico, por no máximo dois anos, terminou. Ele teve que decidir entre ficar em Brasília ou retornar a São Paulo. Liliana não voltaria. Ludovico decidiu não voltar. Ruiu a ponte, um novo cigano na praça. Mas feliz da vida como nunca.

 

Laércio Mangabeira foi alçado a presidente de uma estatal, depois a um ministério mais importante e orçamentariamente mais bem dotado, depois a outro, mais outro, abandonando os esforços para se eleger a qualquer outro cargo. Seu partido ia de vento em popa, praticando todo tipo de acordo para manter-se no poder. Ludovico e Juliana sempre com ele. Mais velhos, menos apaixonados, menos confiantes na utopia, cada vez mais dependentes de nomeações, mais e mais dependentes de altos salários, acostumados a uma vida relativamente ostentatória, assim como ao exercício da política de bastidores, com suas fraturas expostas e vísceras escapando para fora de músculos e pele.

 

O tempo, como sempre faz, continuou passando sem chamar a atenção. Chegou, então, como sempre chega, o "dia da onça inimiga beber água". Água do único córrego da floresta, insuficiente para todas as onças, macacos, preguiças e pardais que ali vivem e por ali circulam. Laércio Mangabeira despencou: seu cargo foi dado a um nome da oposição, em troca de votos em uma reforma da previdência; e não houve quem desejasse (ainda que pudesse) retirá-lo do buraco.

 

Ludovico teve que ir atrás do próprio sustento, observando Laércio e família “caírem para cima”: o deputado “virou” fazendeiro do agronegócio em Goiás, fixando residência em Goiânia. Por três meses o político ajudou o correligionário a pagar a pensão para a filha e prestações de dívidas, não poucas. Depois, nunca mais se viram ou se falaram. A distância entre Brasília e Goiás ficou maior que entre a capital federal e a capital paulista.

 

Ludovico tinha muita experiência, mas também um carimbo na testa, com a sigla do partido a que sempre servira (senão programaticamente, na fase final, pelo menos formalmente). Terminou num cargo de assessor de médio escalão da quota de um partido de direita. Pelo menos não tinha que se esforçar muito, desde que oferecesse sua parte na manutenção da preferência do eleitorado por aqueles a quem passou a servir. Pensou em prestar outro concurso, mas poucos estavam sendo abertos e ele não tinha mais pique para se preparar. E adquirira um asco irremovível pela burocracia, sem nunca sequer flertar, por outro lado, com a possível disputa por um cargo eletivo.

 

Liliana? Pouco se sabe a seu respeito desde que rompeu com Ludovico depois de uma discussão sobre responsabilidades financeiras de cada um e a propriedade de bens que antes eram considerados comuns. A última notícia dela que chegou a Ludovico leva a crer que mora com a velha mãe, em Buritis, e enfrenta uma depressão severa.

 

E o povo, que elege os governantes e paga os impostos? Segue lidando, a seu precário modo, com o presidencialismo de coalizão, sem sequer saber que ele existe e que, um dia, “pegou na contramão” Romeu e Julieta, ou melhor, Ludovico e Liliana.

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