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  • Foto do escritorValdemir Pires

Os meus relógios (1)

Atualizado: 18 de mar. de 2023



No final de 2023 fará quatro anos que estou escrevendo sobre o tempo e diariamente lendo e pesquisando sobre este tema. Quando me perguntam o que me despertou para o assunto, sempre menciono as minhas três mortes, que abriram meus olhos para a finitude da vida: a pane durante um voo que chegou ao ponto de as máscaras de oxigênio serem acionadas para todos os passageiros, a síncope que me deixou durante alguns minutos desmaiado com a cara no meio de uma poça de sangue (encontrado por meu filho, que achou que eu tivesse morrido), um problema urológico que um médico equivocado diagnosticou como praticamente fatal; e acrescento que o tempo sempre esteve entre as minhas inquietações. Pensando bem, talvez não se trate propriamente de inquietações.

É provável que se trate de admiração, acrescida de desejo de posse ou controle. Admiração pelo fato de uma máquina intrincada marcar a passagem do tempo, e desejo de possuir uma e, então participar dessa “aventura” que é monitorar o irreprimível avanço das horas, minutos e segundos que, pedaço por pedaço, “fabricam” os dias, semanas, meses e anos.

Desde criança eu admirava nas pessoas a capacidade de dizer as horas olhando os ponteiros do relógio. Eu logo quis saber como se fazia aquele tipo de leitura. Com caneta, eu desenhava relógios no pulso, imitando os modelos mais bonitos que via. Comovido, meu tio Arlindo me ensinou a ler a horas. E isso, como não poderia deixar de ser, me levou a querer um relógio de pulso, que eu achava bonito e intrigante, além de muito elegante. Naquele tempo, um relógio no pulso, um cigarro na boca e um copo de cerveja na mão me pareciam os requisitos culminantes da vida adulta, de que eu sonhava participar porque raramente convivia com outras crianças, morando com os avós. Além disso, uma vez que eu sabia ler as horas, queria lê-las na medida em que iam escrevendo o dia e a noite. Com isso eu saberia a hora de almoçar sem ser chamado, a hora de ir à tarde com a avó à padaria buscar pão fresco, a hora em que o avô e os tios chegariam de volta do trabalho. Essa precocidade (eu tinha menos de seis anos) talvez seja a principal explicação para um traço forte de minha personalidade: o controle exagerado da alocação de atividades e tarefas usando a agenda (eletrônica, no celular, hoje, evidentemente) e a pontualidade que exijo, de mim e dos outros (nem sempre com sucesso e às vezes sob conflito, no caso de terceiros).

Meu bom tio Arlindo foi quem me deu o primeiro relógio. Ele comprara um Orient todo metálico com os ponteiros e números revestidos de um material fluorescente, que permitia ver as horas até no escuro. Então ele me passou o seu relógio antigo, um Mondaine de caixa dourada, mostrador branco e pulseira de couro marrom. No dia em que o recebi, como surpresa no café da manhã, antes de ele sair para o trabalho, foi uma festa que, pelo que me lembro, foi das maiores que já experimentei; fiquei examinando o aparelho até de madrugada, dormindo mal depois. Passei o dia seguinte inteiro monitorando a passagem do tempo, de meia em meia hora, rebobinando a corda sempre que ela afrouxava um pouco, zelando para não rompê-la, conforme meu pai (dono de um Mirvaine em aço inox de mostrador azul) orientara.

O segundo relógio que tive, anos depois do primeiro, foi um Orient de pulseira metálica, presente de outro tio materno, Cláudio, quando foi meu padrinho de Crisma. A máquina tinha mais rubis que o Mondaine, tinha calendário e era à prova de choques e d´água; veio dentro de uma caixa de fundo aveludado – era uma joia, para mim. Logo que o ganhei, desmontei o anterior para ver o que tinha dentro e como funcionava. Pensava em montá-lo de novo, mas, claro, não consegui. Guardei as peças todas em uma caixinha de plástico que não sei onde foi parar.

Dali para a frente, meus relógios foram sendo adquiridos por mim, com o pouco dinheiro que amealhava com subempregos que hoje são considerados exploração infantil. O primeiro que comprei, aos treze ou quatorze anos, foi para participar de um salto tecnológico que começava a acontecer: os relógios alimentados por baterias. Eu já desejava um relógio mecânico automático, daqueles que eximem o usuário de dar cordas porque um mecanismo o faz automaticamente, ao oscilar sob a máquina, conforme a movimentação do braço; mas eu não consegui dinheiro para tanto. Então, eu pulei esta fase tecnológica e fui para a seguinte – de relógio mecânico não automático para relógio a pilha, aliás mais barato que os relógios automáticos de então. Eu o comprei em três prestações de um músico que tocava clarinete na banda da cidade e que, nas horas vagas, contrabandeava bugigangas do Paraguai. Era um relógio quadrado, caixa e pulseira de metal, digital, a quartzo, com três botões para ajustes e para alternar entre horas, calendário de mês e semana (que nunca precisava ajustar), cronômetro – aparentemente uma potência. Mas durou pouco. A pilha melou e não houve conserto. Retornei, então, ao bom e velho Orient dado pelo tio Cláudio, pois mal tinha acabado de pagar o clarinetista.


(continua)



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