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  • Foto do escritorValdemir Pires

O tempo sou eu, Madame Bovary!



“L'État c'est moi" (O Estado sou eu), declarou Luis XIV (1638-1715), ele, de quem se disse ser também o Sol, o Rei-Sol. Outro francês, Gustave Flaubert (1821-1880), a propósito de polêmica personagem sua, disse: “Emma Bovary c'est moi” (Emma Bovary sou eu). Na mesma atitude, de personificação de algo fora e além de si, Jorge Luis Borges (1899-1986) escreveu: “El tiempo es la sustancia de que estoy hecho. El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río; es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre; es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego” (O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me devora, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo).

A afirmativa do monarca francês brotou da pura prepotência, típica do absolutismo de sua era, o tempo se encarregando de desmenti-la: o Rei-Sol se apagou e o Estado francês ainda não, adquirindo feições que ele jamais imaginaria. Também Emma sobreviveu a Flaubert, mas ela, todavia, como criatura dele, nunca deixará de ser ele mesmo, expressão de suas próprias inquietações e posicionamentos diante do mundo, plasmada em alta literatura.

Borges, o mais modesto dos três (sinceramente ou não) completa sua afirmativa com: “El mundo, desgraciadamente, es real; yo, desgraciadamente, soy Borges” (O mundo, infelizmente, é real; e eu, infelizmente, sou Borges).

Qual a desgraça ou infelicidade aí envolvida? Borges não ser real como o mundo? Ou o mundo não ser como Borges? Borges não é real, como o mundo?

A desgraça é o tempo. Porque é uma coisa (eterna mudança) para o mundo e outra coisa para Borges (uma consciência que a mudança apagará – como fez com o Rei-Sol e com Flaubert). O real é o mundo que muda e permanece, Borges é real somente enquanto permanece e não realiza sua última mudança (a morte); Borges é um lampejo e um lampejo participa tão pouco do real que diante do mundo nem chega a ser real.

Enquanto a desgraça, para Borges, é a finitude (o deixar de ser, num dado momento imprevisível), para o mundo é um infinito e incessante mudar para permanecer, um ser deixando de ser, para novamente ser e deixar de ser – o que dá em nada, isso sendo tudo. Sem a consciência de Borges, o mundo é inconsciente. Assim, o mundo e Borges estão juntos, no tempo, mas o tempo é uma coisa para Borges (consciência da finitude) e outra para o mundo (infinitude) – aí a desgraça, comum a eles, mas por diferentes motivos ligados a diferentes significados para tempo: o tempo que nunca deixa de ser e sustenta o mundo e o tempo que logo termina e precariamente mantém Borges.

Borges está no mundo e o mundo está em Borges, e é por meio do tempo (finito e infinito) que ambos se tornam uma só coisa, sem se confundirem, cada qual com suas belezas e perigos singulares, a cada momento: o fogo que ilumina, mas também queima; o tigre que dança certeiro no ar, mas também dilacera; o rio que murmura acalentando, mas também afoga; Borges que, literato, encanta, mas também desaponta, como homem. Borges é feito da substância tempo, e também o mundo. O tempo é rio, tigre e fogo. Mas Borges é, por sua vez, rio, tigre e fogo. Rio, tigre e fogo jamais serão Borges, mas este, sim, consegue ser e é um pouco de cada um deles é, a seu modo.

O tempo existe, é real como o mundo. Mas somente na medida em que eu sou nele e ele é em mim: sem isso, o mundo subsistiria na ausência de tempo, na eternidade desconhecida, porque não haveria quem pudesse vir a conhecê-la, já que o conhecimento acontece no tempo, mas necessariamente no homem. O mundo do conhecimento é o mundo em que o tempo é humano e, portanto, finito. Quanto ao infinito e ao eterno, fogem ao alcance do conhecimento, nele aparecendo somente como uma ideia, que inquietará enquanto houver homens, consciências e busca por conhecimento.


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