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  • Foto do escritorValdemir Pires

O tempo líquido e a era da liquidez



“Hoje o tempo voa, amor

Escorre pelas mãos”

Tem asas: foge fácil de quem está preso ao chão.

Mesmo não ganhando os ares, não se deixa prender: escorre – é líquido.

Ninguém segura o tempo. Ele escapa até mesmo do relógio, se este não for de altíssima precisão.


O que foi que aconteceu com o tempo, que antes dava forma ao invés de dissolver contornos? Até ontem o tempo não voava: aderia às coisas e aos relacionamentos atribuindo-lhes tradição ou reputação - confiança; se escorresse, não era para se derramar, mas para alimentar o curso natural do rio das realizações humanas, sempre frutos de laboriosa construção e suadas negociações. O tempo era lento, porque lento é tudo que serve à necessidade de gerar e manter a forma ou o contorno das coisas sólidas. O tempo de antanho, por assim dizer, movia-se a passos demorados e largos (momentos históricos, eras) deixando rastros evidentes. Não corria tanto (mudanças por segundo) a ponto de quase não pisar o solo e, portanto, perigosamente apagando as pistas de seu trajeto. Era um tempo, o de outrora, amor, em que se podia falar assim, com muito menos temor que hoje: “Amor”.


O tempo hoje é líquido, acelerado, porque foi atrelado à necessidade exorbitante de liquidez de uma sociedade ávida pelo giro – giro do capital. Produzir muito (com a máxima produtividade – o mais rápido possível) e vender instantaneamente (senão antes de produzir) para realizar o ganho, embolsar o dinheiro (forma líquida da riqueza). É um tempo que tornou ridícula qualquer valsa, com suas pausas, dando lugar a ritmos musicais “indançáveis”.


É tamanha a avidez pela liquidez que existem e aumentam a cada dia os mecanismos oferecidos para obtê-la sem passar pelo “constrangimento” da produção e da venda. A indústria do crédito (de que resulta perda financeira para o tomador) e do ganho financeiro (que consiste em multiplicar o dinheiro sem que haja envolvimento direto com os negócios da produção e da circulação das mercadorias) sobrepujam a indústria das mercadorias e serviços outros que não os bancários. O capital financeiro manda. E desmanda. Comanda o ritmo.


Numa economia de serviços e altamente mecanizada e automatizada, a “sujeira” incômoda e os conflitos nas relações de trabalho de que resultam a produção altamente dependente da intervenção direta de pessoas são desestimulantes; o estímulo não é mais para empreender, no sentido antigo de assumir a liderança no processo de reunir fatores produtivos (capital, terra e trabalho) para obter mercadorias que satisfazem necessidades e, portanto, são demandas e vendáveis. O estímulo vai na direção de uma ciranda cujos passos são regidos pelo colocar e retirar o dinheiro do circuito de valorização, de modo que a cada retirada ele se multiplique sem outro esforço senão o de atenção concentrada aos momentos certos para colocar e retirar.


Nessa economia que gira enlouquecidamente faminta por liquidez, o trabalho, em si, antes ato da produção por excelência, absolutamente necessário, é desvalorizado e desencorajado. Os potenciais trabalhadores (todos aqueles que terão que depender de salários para viver), em geral procuram fugir ao trabalho bruto (o capital pouco perdendo com isso porque as máquinas resolvem o problema) e os poucos que conseguem vão fazer alguma coisa baseada em fama ou reconhecimento midiático para obter renda e riqueza: buscam ser (ainda que em um nível sub, tantas vezes) artistas do show business, modelos, esportistas de alta performance, digital influencers, líderes religiosos, coachings ou mentores de alguma coisa... Essas novas “profissões” altamente almejadas ajudam a tapar o buraco aberto pelo quase desaparecimento do emprego fabril e manual e, além disso, atraem também os antes propensos às também minguantes funções produtivas de natureza administrativa e gerencial, inclusive aliviando-os profissionais da fama das tradicionais necessidades de formação e capacitação nas escolas e universidades que incomodava e ainda incomoda os candidatos a cargos administrativos e gerenciais. Mas o mesmo tempo líquido que favorece a ascensão das celebridades da internet, por exemplo, com não rara frequência também as liquida, pois ali predomina a sede insaciável por novidades. Dessa maneira, os mais espertos, sabendo de seu pequeno prazo de validade, tentam acelerar o quanto ganham de dinheiro enquanto perdura a sua aura: pedalam rápido para obter a máxima liquidez por unidade de tempo útil.


Esse tempo líquido, girando alucinadamente sob o comando da busca desenfreada por liquidez quase imediata, sem maiores esforços, não chegará ao ponto de engendrar homens e mulheres líquidos, pois antes disso homens e mulheres serão liquidados. Como desligar o liquidificador? – eis a questão. Enquanto esta pergunta é feita, considerando-se os diagnósticos e as dificuldades de prognósticos de Zigmunt Balman (1925-2017), ouve-se um sussurro difuso, sob um letreiro luminoso em que se lê $$$$$$$:


– Rápido, rápido, vamos! Gira, gira! Tempo é dinheiro, amor. Vamos encher as mãos e voar, voar!

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