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  • Foto do escritorValdemir Pires

O tempo dos olhos sempre abertos

Atualizado: 25 de abr. de 2023



Em seu pequeno e denso Favor fechar os olhos (Ed. Vozes, 2021, tradução de Lucas Machado), Byung-Chul Han não sai em busca do tempo perdido (como Proust), mas sim em busca de um outro tempo, como informa o subtítulo da obra. Mas, no final das contas, o tempo que ele busca é também um tempo que foi perdido, ao ser totalmente colonizado pelo trabalho.

Enquanto crítica à visão de mundo e às práticas sociais que sustentam o capitalismo, Han se assemelha a Marx, ao considerar essa visão e práticas prejudiciais a uma vida satisfatória para os indivíduos, na medida em que os condenam a viver para trabalhar, em vez de trabalhar para viver. Os dois autores se distanciam, evidentemente, quando um (Marx) dedica-se a identificar um sistema em que o trabalho é alienado e o trabalhador é explorado pela classe detentora dos meios de produção (a mais-valia correspondendo a um tempo pacificamente roubado do trabalhador pelo capitalista), enquanto outro (Han), longe de uma postura classista, foca sua atenção no que denomina sociedade da exaustão, em que todos, à revelia da condição de classe, se tornam “sujeitos do desempenho”, de modo que a exploração, contemporaneamente, pode originar-se não de outro, mas do próprio indivíduo explorado – algo bastante realista quando se considera todo o discurso em torno do empreendedorismo e do abandono de uma hipotética “zona de conforto” para atingir o sucesso e enriquecer.

Ao explicar patologias como fadiga permanente, burn out, insônia e depressão, Han se posiciona na perspectiva do indivíduo para explicar a sociedade, ao contrário de Marx. Com isso, ganha mais simpatia de potenciais leitores, na medida em que, de algum modo, pode ser tomado como autor de autoajuda (desde que o potencial leitor seja capaz de compreendê-lo, na complexidade de seus termos). Lê-lo nessa busca por caminhos ou consolo é algo legítimo, até, mas não é este o melhor caminho para captar sua mensagem.

Em Favor fechar os olhos, Han se exprime em três curtíssimos ensaios, assim intitulados: O tempo do silêncio, O tempo bom, O tempo da festa, O tempo do outro, Em um tempo inoportuno.

O último capítulo ilustra com um exemplo acachapante a tese do autor, de que o problema da aceleração temporal não é algo inerente ao tempo, mas sim decorrente da invasão da vida toda pela lógica do desempenho, reificada na vida laboral, o trabalho colonizando, então, a totalidade da existência do indivíduo. O exemplo é o de uma banda de death metal com dificuldades para concluir uma execução musical típica daquele estilo, que não contém em si qualquer tipo de conclusão – ela termina quando termina. E no caso exemplificado, é, de fato, interrompida por pane nos equipamentos.

No exemplo citado, a apresentação musical não é concluída: termina. E concluir é o que tem se tornado difícil na sociedade do cansaço: morre-se por derrocada, dorme-se por exaustão, utilizam-se os intervalos de descanso para restaurar a capacidade de trabalho e não para usufruir outro tempo etc. E aí está: é este o outro tempo que Han vai buscar (e que não deixa de ser um tempo perdido, desde que o capitalismo se consolidou). Trata-se do tempo bom, do tempo da festa, do tempo do outro, que dão título aos demais ensaios. Todos eles tempos que fogem à continuidade incessante e à busca de desempenho, tempos que respeitam ritmo e compasso e têm até aroma, como acontece na narrativa e nas cerimônias e rituais, por exemplo, nas quais não cabe qualquer tipo de aceleração arbitrária – tempo, enfim, em que fechar os olhos é possível e necessário, como forma de conclusão de um momento, para ingressar em outro: uma pausa que delimita duas sequências em que os olhos ficam abertos, como acontece quando, à noite, os olhos se fecham para o sono, a fim de que em seguida venha um outro dia, como tempo novo.

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