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  • Foto do escritorValdemir Pires

O tempo é o templo do medo

Atualizado: 23 de jul. de 2023



O medo mora no tempo, o tempo é o seu templo, o seu castelo, o seu casebre, o seu barraco. O medo é feio, assustador, e não há quem não deseje mandá-lo embora para sempre, expulsá-lo de sua residência, chutá-lo para bem longe. O problema é que sua morada é o tempo... Pior: o medo habita o tempo que está por vir, o futuro, imediato ou distante.


Do presente todos fixam os olhos no porvir enevoado, incerto, arriscado. Tentam, com dificuldade, enxergar o bom, o belo, o agradável, o terno, o cômodo; ficam em dúvida se lá estão. Mas o medo, sim, ali se faz presente e já à entrada, ameaçador.


O medo primeiro, aquele que põe em dúvida se haverá amanhã (para mim e para o mundo, face a tantas catástrofes iminentes – o simples aperto de um botão pode extinguir a espécie: para morrer, basta estar vivo; para o armagedon, basta um doido agir. Depois, há os filhos do medo originário.


O medo dos males do corpo – há quem diga: “Não tenho medo da morte, mas de adoecer e ficar à mercê de outros, impossibilitado de cuidar de mim mesmo e de levar uma vida digna”.


O medo da guerra e da violência urbana generalizada e difusa.


O medo dos desastres e acidentes e, deles, o maior: a fim do mundo, a catástrofe ambiental.


O medo da exclusão: não ter uma fonte de renda para o sustento, não ser aceito pela comunidade (e, no extremo, cair na desgraçada condição global de imigrante), não ser amado por ninguém.


O medo das ações do outro: ser assaltado, ser ferido, ser abandonado, ser difamado, ser ridicularizado.


O medo do fracasso, de tentar em vão, de ver sonhos reduzidos a pesadelos.


O medo de perder o rumo, de enlouquecer.


O medo, como soma de todos os medos: medo de viver - pavor de encontrar os outros, relutância a abrir a porta para sair, tendência ao isolamento.


Medo, medo, medo. Não existe arma que o mate; não inventaram remédio que o cure; não há guarda-costas que o possa intimidá-lo; não há como se abrigar contra ele (o tempo, onde o medo se aloja, tudo permeia e a todos encontra).


Medo, medo, medo

És um senhor horroroso

Quanto a cara de Satã


Vade retro! Eu tenho comigo a Coragem. Diante dela, não passas de Perigo ou Risco. E sobre ti vou caminhar. Não descalço, mas com as sandálias do Passado, que me convencem de que se cheguei até aqui, o Presente, posso ir até ali, o Futuro. Se o Tempo é o seu templo, é o meu também.

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