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O pó nas enciclopédias e o livro que sumiu (Diário da Biblioteca, VII (cont.), 02/06/2026)

Foto do escritor: Valdemir Pires
Valdemir Pires
23 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: 28 de ago.

O pó nas enciclopédias e o livro que sumiu

Enciclopédias da Biblioteca Pública de Piracaba
Enciclopédias da Biblioteca Pública de Piracaba

“Era um livro grosso, meu Deus, era um livro pra se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.” (Clarice Lispector)

 

Se há livro alentado, é um volume do conjunto de volumes de uma boa enciclopédia. Quando se pega nas mãos um desses, retirado da estante onde ficam os demais, numerosos, como no caso da Barsa ou da Enciclopédia Britânica, tem-se a impressão de que se pode passar a vida folheando-os, passeando por tudo aquilo que os homens conseguiram acumular de conhecimento sistemático, ao longo da História, iniciada com a invenção da escrita. É uma sensação ao mesmo tempo de prazer e de impotência, no fim das contas, boa. Dá para ficar “vivendo com ela, comendo-a, dormindo-a”. Daria, se fosse possível.

 

Enciclopédias e dicionários impressos, desde a eclosão da internet e, especialmente desde o surgimento dos motores de busca (tipo Google), tornaram-se obsoletas, acredita a maioria, senão quase todo mundo. O sonho dos enciclopedistas franceses liderados por Diderot e d´Alembert do no século XVIII, de reunir todo o conhecimento num só lugar, tornou-se, desde o século XX, uma realidade ao alcance dos dedos sobre um teclado, acredita-se. Mas será, mesmo?

 

A facilidade com que estudantes, de todos os níveis, realizam, hoje, suas pesquisas escolares e universitárias sem recorrer aos materiais disponíveis nas bibliotecas, dispensando principalmente enciclopédias e dicionários, parece dar razão aos que riem do sonho, à época megalomaníaco, dos enciclopedistas franceses. Vai daí que as antigas enciclopédias, que as famílias preocupadas com a educação dos filhos procuravam ter em casa, podem ser descartadas, como tem acontecido? Li dia desses, numa postagem do Instagram, que considerei adequada, que não. Concordo com o autor (mineiro, acho) que para informações recentes, talvez seja o caso de não mais consultar as enciclopédias (a Wikipéidia e congêneres sendo instrumentos de consulta mais práticas), porque as enciclopédias tradicionais não estão mais sendo atualizadas com o rigor e a tempestividade que eram suas características do passado (porque os recursos de que dispõem minguaram na era da internet, já que vendem menos). Mas concordo com o “colega” do Instagram que, por outro lado, as enciclopédias antigas tornaram-se verdadeiros tesouros, como repositórios de informações detalhadas e confiáveis (posto que eram objeto de zelosas curadorias, como se diz hoje em dia), a serem consultados até para validação ou complementação/aprodundament6o de informações de fácil captura na rede mundial de computadores, em geral menos densas e não tão cuidadosamente reunidas e disponibilizadas. Diz o suposto mineiro (livrariagrandeslivrosob), acertadamente: “(...) os verbetes de uma boa enciclopédia, em geral, possuem maior qualidade literária e profundidade do que os conteúdos digitais atuais.” E acredito eu que isso valha mesmo para os conteúdos digitais das próprias antigas boas enciclopédias. E diz mais o talvez homem das alterosas: “(...) a enciclopédia favorece uma relação mais calma e concentrada com o conhecimento.” Basta experimentar, comparar e concluir que ele tem razão.

 

Pensando nessas coisas, aí, no começo da tarde fui conhecer a sala da Biblioteca Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” onde estão depositadas as chamadas obras de referência, colocadas à disposição para consultas no local, mas não para empréstimo, por motivos evidentes e bastante aceitáveis, como eu cedo aprendi na minha “Martinico Prado”, em Araras, onde esse tipo de obras ficava armazenado em armários de madeira especiais, numa sala também ela especial.

 

Foi assim. Tomei o caminho formado pelo espaço entre a segunda e terceira fileiras de estantes do acervo central. Fui caminhando em direção ao sanitário feminino lá no fundo, identificado por uma placa azul acima do batente da porta. Ao chegar à sala onde fica o “Acervo Piracicabano” (também identificada por uma placa azul), à direita de um corredor curto (de paredes, mesmo), vi, observando pela janela de vidro da porta à esquerda, estantes cheias de volumes de capa dura de tamanho maior que o dos livros comuns. Fixando bem o olhar, pude ler, em letras grandes douradas, sobre lombadas vermelhas: “Barsa”. Pressionei para baixo a maçaneta, abri a porta, entrei. Sala não muito grande, iluminada pela luz natural que vem de cima, aparentemente limpa, mas com forte cheiro de pó (claramente acumulado sobre as partes superiores dos volumes e também nas estantes): o depósito das enciclopédias, dicionários, guias e outros tipos de obras de consulta – doze estantes, mais três em que estão parte das edições do Jornal de Piracicaba e da Gazeta de Piracicaba (a outra parte, maior, ficando em outro lugar).

Ali estão várias enciclopédias, as mais famosas sendo a já mencionada Barsa, a Britânica, a Mirador, a Delta Larousse, a Abril, a Ilustrada Folha, a Novo Século, a Portuguesa Brasileira etc. Algumas são específicas, como a das Grandes Invenções e Descobertas, a dos Municípios Brasileiros etc. Os dicionários são numerosos, desde os da língua portuguesa (Aurélio, Caldas Aulete entre eles), os etimológicos (com destaque para o Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa de Silveira Bueno), os de vários idiomas em relação ao português, um DBI – Dicionário Brasileiro Ilustrado etc.. Há numerosos Atlas, antigos e mais recentes; foi bastante agradável folhear um belo volume, em tamanho grande, da coleção da National Geographic em versão por conta da Abril. Almanaques (como o famoso Abril, anual) também existem ali, além de coisas curiosas como Guiness World Records, Conquistas Humanas (volumes sobre Saúde, Habitação, Vestuários, Transporte etc.), um Como consertar quase tudo e outro Como fazer quase tudo. Tudo um tanto abandonado, pela escassez de usuários e, também, de funcionários e equipamentos adequados para a preservação (talvez carecendo de um Como conservar quase tudo, que seja lido no item livros, e colocado em prática). Deixei a sala com vontade de a ela retornar, outras vezes, para explorar um pouco o que ali está. Quero ver se acho, por exemplo, brincando, uma enciclopédia (não me lembro do nome) em que encontrei, uma vez, na escola, em Araras, um verbete que dizia assim: “Pires: poderosa família de São Paulo antiga que disputava o poder com os Camargos.”

 

Após essa “viagem” fui registrar o empréstimo do Borges Oral. Aproveitei a boa vontade e a simpatia do Élcio (18 anos de trabalho na biblioteca), para perguntar sobre a ausência de meu livro Imagens do tempo no acervo, depois de consultar o título no sistema da biblioteca na internet e depois de procurá-lo no acervo geral e no específico com títulos de autores piracicabanos, sem encontra-lo. Ele não soube – nem tem condições, de fato – de averiguar o que aconteceu com o exemplar que doei à biblioteca, pessoalmente, no dia 29/08/2023, tendo inclusive sido fotografado com ele nas mãos, o momento terminando registrado em postagem numa das redes sociais da biblioteca, na ocasião. Elcio teve a delicadeza de me explicar o que acontece com livros doados (aliás, esclareceu-me, base do crescimento do acerto), etapa por etapa, podendo ter vários destinos possíveis, inclusive descarte. Eu, porém, não acredito que tenha sido o caso do meu livro, pois não haveria como justificá-lo de modo aceitável, pois, afinal, não se tratou de doação de restos de uma biblioteca pessoal ou material inservível, como às vezes acontece, mas da obra de um autor, oferecida por ele mesmo, para a biblioteca da cidade onde mora há mais de três décadas. Vou investigar o que pode ter acontecido ou, efetivamente aconteceu, contatando a responsável pela biblioteca por e-mail. Sabendo que felizmente não tiveram o mesmo destino outros livros meus, que estão no acervo: Economia da educação, Finanças Pessoais, Orçamento Participativo e Estado, mercado e tributação.

 

Indo de volta para casa, passei no açougue da esquina da biblioteca para ver se tinham chouriço, codeguim ou chademã, mas fui informado que só os têm às sextas-feiras. Desci no Cancian, famoso por tudo relacionado a suínos, mas descobri que o restaurante e o açougue não são mais os mesmos, depois da devastação das árvores gigantes que ficavam ali na frente deles: só havia um pacotinho miúdo de chouriço, que decidi não comprar. Aproveitei, também, para passar no quarteirão 600 da Rua do Rosário, para ver como ficou o prédio onde antes havia o bar Mascote, nos fundos da Escola “Moraes Barros”: está completamente outro, apagados todos os vestígios daquele templo de meus primeiros tempos de professor da Unimep.


Uma coleção de enciclopédias empoeirada
Uma coleção de enciclopédias empoeirada

 

 

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