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  • Foto do escritorValdemir Pires

O nascimento do tempo



Sobre O nascimento do tempo, de Ilya PRIGOGINE, trad. de João Gama e rev. De Artur Lopes Cardoso (Lisboa: Edições 70, 1991, 75 p.)

 

            Este pequeno livro traz os textos de duas conferências proferidas por Prigogine (uma em 1984 – O papel criativo do tempo, e outra em 1987 – O nascimento do tempo), além de uma entrevista (concedida a Ottavia Basseti) e de uma nota biográfica. O conjunto contribui para esclarecer a importância e a fertilidade do pensamento e das pesquisas do ganhador do Nobel de Química de 1977 na discussão acerca do tempo.

            São controversas e inconclusivas as respostas sobre a natureza (física ou metafísica?) e a possível origem do tempo. Enquanto a Física (não sem controvérsias internas) foi na direção de considerar uma ilusão o tempo tal como com ele se lida na Terra, localizando sua origem numa singularidade cósmica (o Big Bang), Prigogine prefere persistir na afirmação de que há, sim, uma “flecha do tempo” (ou seja, que não é cientificamente correto, nas equações da Física, desconsiderar o sentido do tempo, se para frente ou para trás) e que existe, que não é imaginário, “(...) um tempo potencial, um tempo que está ´sempre já aqui´, em estado latente, que não exige senão um fenômeno de flutuação para atualizar-se. Neste sentido, o tempo não nasceu com o nosso universo: o tempo precede a existência, e poderá fazer nascer outros universos.” (p. 60)

            O fundamento de tal “flecha do tempo” é a mesma apontada por outros cientistas: a entropia, tal como derivada da segunda lei da termodinâmica. Mas Prigogine vai além, pensando em termos de termodinâmica dos sistemas complexos, que fogem ao equilíbrio e propiciam ocorrências de difícil previsibilidade. Ele lança mão também de um conceito próprio – irreversibilidade – para que se perceba que Aristóteles estava correto ao afirmar o tempo como algo que se nota a partir de um antes e um depois (a partir de uma história).

            Ocorre que a teoria do tempo em Prigogine considera fortemente a vida, ao contrário da mesma teoria nos estudos dos físicos e cosmólogos, cujos olhos se voltam, por um lado, à imensidão do universo (teoria da relatividade) e, por outro lado, ao mundo microscópio das partículas elementares (física quântica). Assim sendo, Prigogine observa um mundo material em que à força desorganizadora da entropia se contrapõe a força reorganizadora (em novas bases – criativa, portanto) de processos de auto-organização espontânea. É dele próprio a seguinte síntese de seu modo de encarar o que alguns poderiam chamar causas do devir, “pai” do tempo ou, pelo menos, gerador de sua sensação de passagem:

 

A novidade a que, pouco a pouco, cheguei e que foi uma surpresa para mim, é que longe do equilíbrio a matéria adquire novas propriedades, típicas das situações de não-equilíbrio, situações em que um sistema, longe de estar isolado, é submetido a fortes condicionamentos externos (fluxos de energia ou de substâncias reativas). E estas propriedades completamente novas são verdadeiramente necessárias para compreender o mundo à nossa volta.

A expressão ´estruturas dissipadoras´ enquadra estas novas propriedades: sensibilidade e, a seguir, movimentos coerentes de grande alocance; possibilidades de estados múltipolos e, a seguir, historicidade das ´escolha-adotadas´ pelos sistemas. São propriedades, estudadas pela física matemática não linear neste ´novo estado da matéria´, que caracterizam os sistemas submetidos a condições de não-equilíbrio.” (p. 26)

 

            Uma imensa caixinha de surpresas: esta a imagem do universo e, nele, da vida, para Prigogine, sob o efeito aparentemente mágico (mas de fato físico, científico) do desequilíbrio, da complexidade, da dissipação, ao sabor dos atratores fortes (outro conceito caro a Prigonien) que transforma a probabilidade em brincadeirinha de criança no esforço de tornar previsível o que jamais será; e obriga a jogar na lata do lixo as equações lineares com que a ciência se viciou por séculos.

            E talvez seja o caso, também, de descartar o conceito de tempo que a limitada mente humana forjou no seu processo de racionalização do mundo: “Os recentes desenvolvimentos da termodinâmica propõem-nos (...) um universo em que o tempo não é nem ilusão [teoria da relatividade] nem dissipação [entropia], mas no qual o tempo é criação [auto-organização a partir do desequilíbrio].” (p. 75)

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