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  • Foto do escritorValdemir Pires

Não somos os mesmos e não vivemos como nossos pais



Precisamos comprar. A vida não é possível sem fazer compras. É de um vendedor que obtemos o que satisfaz nossas necessidades; é como comprador que cada um de nós procura um fornecedor de utilidades. Nossos desejos (genuínos ou introjetados pela propaganda e pelo “efeito demonstração”) se satisfazem em relações de compra e venda. Portanto, muda a nossa vida quando a prática comercial passa por transformações.


Nossa! Quantas delas aconteceram ultimamente, não? Deixemos de lado as que se referem ao comércio internacional (no qual os brasileiros, em poucas décadas, passaram de compradores esporádicos de bugigangas paraguaias de qualidade duvidosa a consumidores quotidianos de produtos chineses inevitáveis) e nos concentremos nas mudanças ocorridas no modo como fazemos nossas aquisições de víveres e utilidades no dia a dia.


Recuando pouco mais de cinco décadas, nos damos conta de que alguém nascido nos anos 1960 faz compras hoje de modo inconcebível quando tinha dez ou vinte anos. Basta recapitular em largos passos. Essa pessoa, residindo, por exemplo, numa média cidade do interior paulista, via seus pais comprarem víveres e utilidades percorrendo estabelecimentos diferentes, esparramados no tecido urbano: a venda ou armazém, a padaria, a quitanda, o açougue, a farmácia, a casa de ferragens, a casa de tintas, a relojoaria, a loja de tecidos ou de roupas, a sapataria, a loja de eletrodomésticos e eletrônicos etc. Em cada uma delas, o comprador conhecia o dono, o gerente, o atendente ou balconista. E comprava fiado (não se dizia “a crédito”), controlado por meio de uma caderneta. E era assim também nos mercadões, muitos municipais, antecessores dos futuros supermercados, mas geralmente concentrados em tipos específicos de bens.


Depois surgiram os supermercados e as lojas de departamento, com o fiado se transformando em crediário e a caderneta em carnê, depois boleto com a intromissão dos bancos. Nesses novos, maiores e diversificados estabelecimentos, que por um tempo conviveram com os menores, já não se solicitava o produto desejado no balcão para o balconista ou atendente, nem através do envio de lista prévia: bastava apanhá-los nas gôndolas, prateleiras, geladeiras e freezers, colocá-los num carrinho aramado destinado ao transporte e, em seguida, pagá-los na fila do caixa. No começo, havia quem achava que os roubos iam se multiplicar, entre eles muitos donos de estabelecimentos do formato antigo. Os compradores resmungavam contra as dificuldades que começaram a aparecer quanto às entregas em domicílio, que foram minguando, desaparecendo das ruas os caminhões e caminhonete (depois vans) que faziam esse tipo de entrega.


Acrescentaram-se, no passo seguinte, os shopping-centers: pequenas “cidades” das compras, com o acréscimo de áreas de alimentação e também de lazer. Aos shoppings se ia a passeio e acabava-se comprando ou ia-se para fazer compra e se aproveitava para um passeio, um jantar, um café, uma ida ao cinema (que salas!). Como locais de sociabilidade, os velhos centros urbanos sofreram um baque. E hoje existem shoppings-centers que rivalizam, em tamanho e fluxo de pessoas, a cidades inteiras. Mas também o dia deles está para chegar...


A loja ou o conjunto de lojas – os locais, físicos, de compras – agora entram em concorrência com os canais virtuais de venda, na internet, mais cômodos, rápidos, operando com custos menores quanto ao armazenamento, à logística, ao pessoal. Aquele sujeito que ia, criança de mãos dadas com os pais, ao armazém, lá tomando um refrigerante enquanto as compras eram feitas; depois começou a acompanhá-los no supermercado ou hipermercado, arrumando confusão por querer colocar no carrinho alguma guloseima ou bugiganga considerada cara e desnecessária pelos mais velhos; em seguida se tornou o adolescente paquerador de shopping-center; é agora  o vovô com dificuldades para comprar pela internet aquilo que já não consegue obter nas lojas físicas suas conhecidas. Mal sabe ele que em breve sua geladeira será mais inteligente que ele, solicitando ela mesma a entrega em domicílio dos víveres cujo estoque tenha atingido nível insuficiente.


Não, já não somos os mesmos e não vivemos como nossos pais. Já não compramos como eles aquilo de que necessitamos para viver ou o que desejamos para ir um pouco além de sobreviver. E, isso sim é complicado demais, estamos em dúvida sobre a possibilidade de acessar a condição necessária para realizar as compras – ter uma renda que se renova periodicamente. O que será dos empregos e dos empreendimentos (negócios tal como concebidos até aqui) nas próximas décadas?

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