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  • Foto do escritorValdemir Pires

Murchos



“Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu”; sente-se murcho, pior que balão de festa esquecido pendurado. Eu estava assim. E o dia insistindo em piorar tudo, com seu mormaço infernal desde o início da manhã.

            Uma tarefa nada simples me aguardava para logo depois do almoço. Eu já tinha preparado na antevéspera tudo que precisaria. Então a manhã estava livre. Como não sou de ficar fazendo nada, pensei em ler – não deu vontade; pensei em ir ao supermercado buscar os suprimentos fundamentais por um triz de acabar – não daria tempo; pensei em reorganizar as ferramentas utilizadas no dia anterior para consertar o pneu da bicicleta – a preguiça impediu.

            Apesar de nada disposto para exercícios físicos, decidi pedalar. Achei que a atividade melhoraria a circulação, desopilaria a visão, aliviaria a indecisão,  facilitando “pegar no tranco” logo em seguida.

            Vesti calção e camiseta, calcei tênis e luvas, coloquei o capacete e os óculos escuros e fui para a ciclovia próxima, pesado em busca de leveza.

            Duas voltas e meia depois (a intenção era perfazer quatro) eu ainda estava um pouco murcho e a mim, nesta condição, veio juntar-se o pneu traseiro da bicicleta. Como? Eu troquei esta câmara de ar ontem. Não é possível! Não é justo. Que merda! Eu saí pedalar para melhorar o humor e a disposição!

            Sol quente, mormaço infernal, bate de volta carregando a magrela nas costas. Ainda bem que a distância não foi tanta.

            Tem dias que a gente precisa se sentir como quem está vivo aqui e agora. Senão, olhe! Como é que faz?

            Tem que olhar de frente e pensar: “Só isso? Um furo de pneu que é uma zombaria aos esforços anteriores para solucionar um furo de pneu no dia anterior? Uma mensagem sabe-se lá de onde e de quem informando que serei impedido de pedalar? Pois bem: é pouco. Vai insistir nisso de novo, amanhã?” E em seguida, agir: remendar o furo. Amanhã será outro dia. É provável que o mundo não vá acabar, que eu não vá morrer, que a lei da probabilidade me protegerá contra furos de pneus.

            Tem que ser assim também para problemas maiores. Como, por exemplo, a diarreia que me impediu de ministrar a aula online prevista para a tarde do dia fatídico do eu e do pneu murchos.

            Tem dia que a gente se sente como quem precisa esperar pela noite...

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