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  • Foto do escritorValdemir Pires

Meu amigo global player



Tempos atrás um amigo meu, que se chama Trabalho e tem por sobrenome Demais, se irritou comigo. Ele sabe que meu nome é igual ao dele, mas se esquece que meu sobrenome é Pensando. Conversávamos amenidades quando, seguindo o curso dos assuntos que se sucedem naturalmente nesse tipo de conversa, eu coloquei a dúvida sobre o que nós, indivíduos humanos, somos, quando singularmente considerados – o que cada um é, no que tem de diferente dos demais.

            Meu amigo se irritou (procurando não demonstrar, mas sem conseguir) porque é sobretudo um pragmático sem possibilidades de modificação. Para ele, a vida é resolver problemas, encontrar soluções, fazer e acontecer. Portanto, não carrega na mente, nem no coração, dúvida alguma a respeito do que é ser e do que deve ser feito com o tempo. Preenche o dia inteiro com atividades profissionais ou relativas ao sucesso em outros âmbitos da vida, reduzindo sempre que pode o tempo para se alimentar, para se distrair, para conversas fiadas (por isso nossos papos descomprometidos eram sempre uma concessão, honrosa, que ele me fazia). À noite, ele dorme o “sono dos justos”, “tarefa” rotineira de aproximadamente oito horas, para ter energias suficientes para recomeçar no dia seguinte.

            Quando eu coloquei a problemática do ser no meio da nossa conversa, ele imediatamente reagiu contrariado:

            – Se paro para pensar nisso, minha vida é freada bruscamente e por isso pode se desarranjar, como um caminhão carregado que segue em alta velocidade quando é obrigado a reduzi-la imediatamente. Não posso, também não quero.

            Eu disse:

            – Verdade, é assim mesmo. E mudei de assunto.

            E fiquei pensando (enquanto o ouvia discorrer sobre a maneira engenhosa que ele encontrara para economizar com automóvel de uso pessoal, alugando por assinatura em vez de comprar um): entre ser e tempo há uma relação direta e estreita. Simultaneamente promissora e perigosa.

            Independentemente do que seja aquilo que se é, ser o que quer que se seja ocupa tempo, “consome” vida. Sim, porque entre ocupar tempo e consumir vida (ainda que se pense estar investindo-a), há uma completa identificação. Viver não é outra coisa senão dar destino ao tempo. Portanto, quando alguém deseja ou precisa responder à crítica pergunta “Quem sou eu?”, tem necessariamente que responder o que faz com seu tempo, com seus dias.

            Eu não quis colocar meu amigo diante desta fatídica questão, porque isso poderia lhe causar grande constrangimento e abalar nossa habitual cumplicidade. Se o tempo dele é todo ocupado com trabalho, ele teria que responder que é um trabalhador, que durante o dia trabalha (muito e com bastante eficiência, eficácia e efetividade – pois ganha muito bem) e durante a noite se refaz para continuar este tipo de vida. Talvez ele, para não se sentir exatamente o que é – um trabalhador, alguém que trabalha e nada mais – procurasse amenizar a constatação comparando-se vantajosamente com os trabalhadores que ganham mal ou com os colegas dele que não são tão destacados na empresa e no mercado. Afinal, ele se sente um protagonista e não uma engrenagem movida por comandos e motores fora de seu controle – como de fato é.

            Fechada esta janela, tentei abrir outra, esperando a oportunidade, que veio, para inquirir sobre o último livro de literatura que ele tinha “encarado”.

            – Rapaz! Não sei, não sei, acho que faz uns cinco anos que não leio senão o que preciso. Da última vez deixei Ensaio sobre a cegueira pelo meio. Você me deu de presente de aniversário, lembra? Caramba! Eu tinha então trinta e cinco anos...

            E completou, meio em tom de revanche:

            – Feliz, mesmo, é você, que deu um jeito de ficar na sombra, folheando, folheando, folheando. Né? Mas, afinal, como tem lidado com as finanças pessoais? Como faz para comprar os livros que lê?

            Eu afirmei que não compro, que leio emprestado da biblioteca pública. E mudei de assunto novamente.

            – E a querela sobre as importações chinesas que estavam atrapalhando as vendas da sua empresa (assim ele se refere à transnacional de que é executivo: minha), como ficou? Deram um jeito?

            Sobre isso ele discorreu longamente, sem interrupções, revelando com que sagacidade e com que tenacidade ele dobrou os concorrentes por meio de uma parceria impensável para um gestor medíocre. Eu ouvi tudo em silêncio, muito atentamente. Ele se sentiu meio perdido quando terminou, pois eu não comentei nada de imediato. De propósito.

            Diante de seu olhar mendicante de elogio, eu disse:

            – Porra! Isso daria um romance. Um belo romance.

            E então foi ele quem ficou em silêncio por longos segundos, antes de me perguntar:

            – Nesse romance, quem seria o personagem principal?

            Ao que eu perguntei:

            – A quem você atribuiria este papel?

            A minha resposta seria Mercado, um sujeito coletivo. A dele provavelmente seria Agildo Amaral Vasconcellos Neto – ele, um indivíduo. Mas outra vez deixamos o assunto para lá e dedicamos os últimos minutos restantes de nossa amizade papeando sobre as respectivas famílias, mulher e três filhas ele, um filho eu. No mês seguinte ele partiu para a Indonésia, lá permanecendo por uma longa década que inviabilizou a continuidade do nosso relacionamento – distância em quilômetros, falta de tempo de um ou outro, agendas nunca coincidentes (jamais desinteresse, mútuo ou unilateral, talvez). Ele se tornou um daqueles executivos que são chamados de global players e eu permaneci um local poor man. Ele segue viajando – geograficamente – através das fronteiras do mundo real; eu continuo aqui, mas sempre viajando, também, imaginariamente, através dos mais instigantes livros que a Humanidade já produziu.

É improvável que eu e Agildo algum dia acabemos nos cruzando por acaso, por aí, em algum aeroporto, estação, hotel, restaurante, museu, rua, pois entre nossos mundos parece não haver ligação possível. Mas eu gostaria. Afinal, nossa amizade, rica como foi – não contei aqui – bem merece uma afronta à lei das probabilidades.

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