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  • Foto do escritorValdemir Pires

Ler é dizer não



Ler é um ato de rebeldia, de silenciosa e profunda rebeldia. Porque ler é, fundamentalmente, dizer não.


Ler é, antes de tudo, dizer não à generalizada renúncia ao que de melhor a Humanidade concebeu, até aqui, a respeito de si mesma: uma imensa e variada massa de caracteres impressos carregando pensamentos, reflexões, perguntas e respostas (tanto conclusivas como contraditórias), enigmas e mistérios (e pistas, nem sempre consensuais, para solucioná-los), tristezas e alegrias (e modos de lidar com elas).


Ler, entenda-se bem, o que é reflexão e arte – não instrução, não treinamento, não capacitação para algum fazer. Pois a leitura para saber como se faz tem outro sentido e outra natureza – esta é uma leitura para dizer sim, para aceitar e assimilar, ainda que seja algo novo: leitura necessária, sim, mas limitante.


Ler literatura, ler filosofia, ler história, ler (e com prazer) o que coloca em questão o humano, a vida, o enigma do ser, é dizer não à redução da existência à sua condição de simples provedora dos bens materiais que a sustentam; é perguntar o porquê de viver e questionar as condições sob as quais se vive.


Ler – agora bem entendido o que isso quer dizer – é dizer não a levar a vida do jeito que ela for levando ou do modo que o mundo for definindo, ao sabor dos interesses e visões de mundo tomados como dados e isentos de questionamentos.


Ler é dizer não. Não a dias inteiros de fazeres, ainda que um ou outro prazeroso, seguidos de noites em que, depois de duas ou três páginas lidas sem a menor concentração, se “pega no sono”; dizer não a que as obrigações com a sobrevivência e a adesão aos prazeres impeçam um mínimo de observação do que repousa nas profundezas do ser, separado do agir.


Ler é dizer não à concepção de que é impossível extrair alegria da convivência silenciosa (e tão ruidosa, às vezes!) com páginas contendo ideias e narrativas que podem condensar o que não é possível encontrar em outro lugar.


Ler história é dizer não ao isolamento do indivíduo ao seu dia a dia, ao quotidiano que o impede de perceber que sua vida pessoal é parte de um todo muito maior, cheio de maravilhosos e de horripilantes aspectos; é abrir uma janela para que se vislumbre o instigante processo que conduz cada um ao que é, como parte de uma comunidade, de uma sociedade, de um modo de vida coletivamente construído, com suas contradições inevitáveis.


Ler filosofia é dizer não a existir por existir, até mesmo sem chegar a ser; é formular perguntas que parecem bobas e nunca terão respostas satisfatórias, mas que na verdade são as mais profundas que existem: o que somos, de onde viemos, para onde vamos (se é que vamos), como se pode lidar com o outro e viver bem, o que é a felicidade?


Ler literatura é dizer não à crença infundada de que poesia e narrativas literárias não são formas necessárias de entendimento e conhecimento; é perceber que no campo das emoções a pura razão (científica ou filosófica, teoria ou especulativa) nada ou muito pouco pode, sendo necessário recorrer à arte, dentre elas, romances, novelas, contos, poemas.


Ler por prazer, participando do jogo das descobertas propiciadas pelas trilhas abertas por autores de livros que não se destinam a outra coisa, senão exatamente o prazer da leitura e do descortinamento dos mistérios da vida, é dizer não ao se deixar levar pela falsa ideia de que evitando este tipo de leitura (“desinteressada”) se ganha tempo, se conquista confortos e se vive “de verdade”; as leituras desinteressadas são as que permitem perceber os interesses a que se serve quando não se lê a não ser por razões pragmáticas.


Ler textos “não obrigatórios”, que tratam de assuntos que não sejam profissionais, técnicos, científicos, jornalísticos, é dizer sim a uma dimensão humana e da vida que normalmente é escondida daqueles que não querem ou não conseguem participar da festa e da descoberta proporcionadas pelas luzes do histórico, do filosófico, do poético (trágico, épico, lírico, dramático ou satírico). Dizer este sim é dizer não à negação ao direito humano à literatura; é pelo menos tentar elevar a rebeldia dos leitores (necessariamente individuais) à revolução (necessariamente coletiva) que seria a articulação de uma sociedade de leitores de textos voltados à essência do humano, que é puro mistério e infinita busca.


Ler história, filosofia, literatura é uma aventura, como é a vida bem vivida, especialmente quando dela também fazem parte as leituras “desinteressadas”.


Diga não!

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