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  • Foto do escritorValdemir Pires

Inovação profunda: uma necessidade no caminho para outro tempo




Nenhum dia é como o outro, exatamente. Tudo muda o tempo todo. Mas a mudança poucas vezes é radical, sua natureza sendo incremental: entropia e oxidação. Melhorar e piorar acontecem em doses geralmente assimiláveis, com dor e prazer se alternando de modo relativamente suportável. Além desse ir e vir das ondas, é o tsunami: crise.

 

A palavra crise, já na sua raiz etimológica, no latim, remete a mudança súbita, com necessidade de decisão e ação rápidas; no grego, atrelada ao uso na medicina, refere-se à evolução de uma doença em sua fase de agravamento, tendendo à morte.

 

Na economia, como fez ver Schumpeter, a crise acompanha as inovações tecnológicas disruptivas, ao obrigar transformações no modo de produzir bens e serviços. Trata-se da impossibilidade de indústrias inteiras sobreviverem aos avanços produtivos, como aconteceu, por exemplo, com a produção artesanal de tecidos face à indústria têxtil ou com o transporte de tração animal diante das possibilidades oferecidas pelo motor a combustão.

 

Na História, a crise é característica do fim de um tempo, de uma era, de um modo de organização da vida coletiva, muitas vezes com alcance regional, algumas vezes afetando todo o mundo, como nas passagens de uma idade histórica à outra (Antiga, Média, Moderna e Contemporânea) ou por ocasião das duas Grandes Guerras. As guerras são marcas profundamente dolorosas das crises políticas de grande monta, que colocam contingentes humanos e regiões geográficas em confronto violento incontrolável.

 

O século XXI será de crise histórica, portanto também de guerras. Desde o final do século XX uma disrupção está se configurando aceleradamente. Embora se possa perceber o processo e compreender sua natureza, as instituições existentes não têm sido – como em geral não são, nos momentos de crise desse porte – capazes de adotar medidas preventivas quanto aos desastres em gestação. Passou-se globalmente a invocar a inovação como única garantia à sobrevivência de indivíduos, famílias, empresas, organizações, países, do mundo, enfim.

 

Todavia, a inovação que em geral se defende tem sido de pouca monta, incremental, enquanto o mundo muda radicalmente, em praticamente tudo. O efeito da inovação meramente incremental no contexto global atual é o mesmo que pode ter uma recomendação (acatada) de aumento da potência no motor de um barco que precisa fugir de um tsunami – nenhum efeito, pois o necessário é que o barco possa voar. Se um dia o  mar não estiver mais para barcos (talvez nem para peixes), será preciso abandonar a produção de barcos que não voem, viabilizando veículos híbridos para o transporte em águas oceânicas.

 

A defesa e as propostas de inovação inicialmente se aplicavam às tecnologias produtivas. Depois passaram a ser defendidas no redesenho das organizações, principalmente as produtivas e financeiras. Em seguida, passou-se a falar em inovação institucional. E quando chegou a este nível (anos 1980), mais sociológico e político do que econômico, a ideia passou a enfrentar, com dificuldade, a genética individualista (schumpeteriana) do conceito: inovação como instrumento indispensável da competição entre ofertantes de bens e serviços no mercado, inovação como condição para a sobrevivência num mundo em que somente resiste quem se põe à frente ou acima da concorrência. Inovação, enfim, que mata quem a adota como meio de evitar a própria morte... enquanto sobrevivem as organizações e instituições e a visão de mundo que pereceriam caso a inovação não fosse encarnada pelos indivíduos que perecem praticando-a.

 

A inovação que a vida humana requer, em seu estágio atual, não pode ser tão miúda como a que anda em voga, mesmo nos mais poderosos meios, como as organizações multilaterais e geoestratégicas, em tese portadoras do mais amplo e profundo olhar sobre o desenrolar do espetáculo do mundo. Não haverá mudança que evite o colapso, com suas dolorosas e monstruosas consequências, se ela não encarar os seguintes fatos.

 

Ecologia: não há mundo suficiente, na Terra, para proporcionar tantos e tão variados bens e serviços para tantas pessoas quantas somos e seremos daqui para a frente. O consumo terá que se concentrar na sobrevivência e abrir mão de muitos confortos que foram sendo inventados ao longo dos séculos XIX e XX. O que significa priorizar necessidades em detrimento de desejos, algo absolutamente difícil sob mentalidade individualista e hedonista exacerbada, como a fomentada pelos meios inventados para induzir ao consumo de massas que hoje sustenta a economia mundial. Não se trata de inovar “apenas” para que as abelhas e as baleias não sejam extintas... Trata-se, isso sim, de mudar padrões de consumo, independente de qual seja a renda ou o poder do indivíduo.

 

Tecnologia: a mesma capacidade tecnológica exponencial adquirida, que possibilita a produção diversificada e massificada, a custos decrescentes (embora crescentes se considerado o custo da devastação ambiental), gera (ou tem como efeito colateral) a exclusão da possibilidade de consumo de imensos contingentes humanos, às vezes populações inteiras de países. Isso porque se trata de uma tecnologia que destrói empregos existentes sem que seja possível criar empregos alternativos com a mesma velocidade, resultando em milhões e milhões de desempregados e, portanto, de pessoas que não conseguem contribuir no processo de geração de riqueza, sendo excluídas (justificadamente do ponto de vista mercantil: não trabalha, não come!) da possiblidade de acesso a ela.

 

Economia e mercado: com o preço crescente (inflação) dos bens e serviços (devido à escassez galopante de matérias-primas básicas, inclusive água e especialmente energia) e a parte da massa salarial aferida pelos menos bem pagos declinante (dados o desemprego estrutural e a concentração da renda), o mercado tende a perder sua funcionalidade como mecanismo organizador da cooperação para a produção e a distribuição da riqueza, não se vislumbrando, até o momento, inovações institucionais capazes de funcionar sem ele.

 

Política e governo: os governos são a invenção institucional mais importante da Humanidade, pois se constituem no cérebro e no sistema nervoso do organismo coletivo de massas, tanto hoje como nos momentos da História em que mais avanços se obteve em termos de convivência pacífica (embora sempre mesclada por conflitos) e de criação de oportunidades para bem viver e desfrutar da cultura. Os atuais governos, basicamente democráticos, perderão sua funcionalidade, com consequências para o organismo coletivo semelhantes à falência cerebral e/ou do sistema nervoso para o corpo humano, caso não seja possível inovar profundamente as práticas democráticas. Só o Estado e os governos poderão lidar, e democraticamente, com a crise do modelo ecológico/econômico em curso, preservando o interesse coletivo dos efeitos destrutivos da luta fraticida que a vida deixada exclusivamente na “mão insensível” do mercado pode trazer. A democracia, atualmente, é negativamente afetada pela dificuldade em formar os necessários consensos provisórios quotidianos para administrar os interesses conflitantes com base na formação de opiniões individuais, já que elas hoje são prejudicadas pelas práticas de deturpação dos fatos, amplamente utilizadas pelos inimigos da democracia, geralmente concentrados à direita do espectro político. Não sendo este, entretanto, o principal problema da democracia, mas sim o acirramento do conflito de interesses numa economia que vai muito mal do ponto de vista da distribuição da riqueza: para que serve um instrumento de mediação de interesses individuais conflitivos (como são os governos) se os interesses em posição de predomínio são aqueles que implicam a dizimação da maioria (os pobres), sem apelo ao teoricamente decrépito Estado do bem-estar social? De que governo do povo, para o povo, com o povo se pode falar, quando ao povo resta a desolação do desemprego, sem socorro senão da insuficiente ajuda voluntária de uns poucos, mal providos para isso? A inovação democrática radical (cooperativa) deve encabeçar a lista das tantas inovações necessárias à sobrevivência da espécie, mas a exagerada (e equivocada) atenção dada à inovação (e ainda assim, incremental) de natureza econômica (competitiva) obscurece este fato, levando a uma aversão à política, num momento histórico em que o apreço a ela se faz mais necessário que nunca.

 

Ocupação territorial e imigração: os países ricos estão agora enfrentando problemas de imigração em massa para suas cidades mais acessíveis por terra ou água, defendendo-se com muros e policiamento intensivo, amparados por uma opinião pública francamente xenofóbica. Estados Unidos e Europa não estão conseguindo conter o fluxo migratório ilegal e os grupos sensíveis ao problema humanitário decorrente não estão dando conta de defender e socorrer tantas pessoas e famílias se deslocando, com risco de vida, para áreas em que possam se sentir seguras e acalentar alguma esperança quanto à obtenção de meios de vida. Este é apenas um sintoma do fracasso do modelo de desenvolvimento e do modo de governar em tantos locais do planeta, principalmente se comparados com as experiências “bem-sucedidas” da combinação mercado-democracia vividas nos países ricos. Sem inovação radical no tratamento a este assunto, ele tende a se avolumar e gerar tensões incontornáveis, levando para dentro dos territórios nacionais a guerra surda da discriminação (como forma de defesa contra o diferente, visto como ameaça) e da criminalidade (como forma de sobrevivência).

 

Geopolítica: os centros de poder mundial estão se deslocando. A nova posição ocupada pela China é apenas a ponta do iceberg desta mudança, que não será concluída sem conflitos regionais de alta letalidade (dadas as tecnologias bélicas atuais), com risco patente de uma terceira guerra mundial, desta vez com maior utilização de armas nucleares, não apenas como ameaça dissuasória. Percebe-se a insuficiência da Organização das Nações Unidas nas mediações que têm sido necessárias, ao passo que os tratados e acordos de defesa entre Estados vão se robustecendo – o mundo não está inovando em busca da paz, mas acelerando a inovação para fazer a guerra. Rússia versus Ucrânia e Israel versus palestinos são amostras do que pode se alastrar mundo afora.

 

Inovar é, sim necessário. Mas se acontecer apenas sob o enfoque individual (aumentar forças para competir e, portanto, aprofundar a competição), deixando de lado a preocupação com a vida coletiva (melhorar a capacidade de colaborar), será um imenso desastre, de que a crise atual é um pálido esboço, do qual não haverá Deus (ou deuses) que possa nos livrar. Precisamos mudar o modo como usamos os recursos do planeta e como urdimos os nossos relacionamentos no campo do poder, a fim de que possamos, sem medo de abrupta e dolorosa interrupção, desfrutar a beleza da vida que nos cabe neste minúsculo espaço-tempo que ocupamos no vasto universo. Se não o fizermos, será para nós um triste fim, de que este mesmo infinito universo (que tentamos compreender enquanto ainda não nos compreendemos) sequer se dará conta. Inovar é, sim, necessário: com mais humildade e sensibilidade social do que temos tentado fazer.

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