• Valdemir Pires

Distopia à brasileira

Tétricos patetas estão no poder, ocupam os três poderes no país. Enquanto isso, os cidadãos-eleitores-contribuintes-demandantes de bens e serviços públicos, desconsiderados, esquecidos, até mesmo afrontados, constituem uma multidão de zumbis, parte nas ruas imbecilmente desafiando a morte, parte entocada em suas falsas fortalezas (no caso dos poucos que as têm, ostensivas ou modestas), parte se virando para se esconder em seus casebres, parte morando nas ruas, onde sempre miseravelmente estiveram. Nos locais públicos e de aglomeração de pessoas, um vírus devastador desafia a ciência e a medicina, adoecendo e matando pessoas mais do que a violência urbana e a guerra.

No Judiciário inerte para os temas estratégicos (e desde sempre lento para os quotidianos), uma babel de opiniões, tantas disparatadas que causam vergonha e apreensão aos sensatos. Pior do que isso, porque difunde a ideia de que justiça não há, grassa ali uma incapacidade (ou falta de vontade) de punir e cobrar responsabilidades de certos grupos partidários, enquanto que corre solto e descarado o lawfare contra os integrantes de outro, anatemizado. Paralelamente, o Ministério Público, cuja função é defender a sociedade contra atos ou omissões dos poderes constituídos, dá sinais de que não funciona do modo como foi constitucionalmente concebido, abalado por atitudes pessoais de parte de seus agentes, embriagados pelas luzes secundárias do poder ou, mais simplesmente, incapazes de compreender e bem cumprir seu papel institucional. Regiamente remunerados, os ocupantes de cargos dessas duas instituições protagonizam um espetáculo quotidiano de ostentação e insaciedade salarial, seus holerites eivados de benesses com as quais os cidadãos comuns não podem nem sonhar. O mesmo acontece com os Tribunais de Contas, outras das caras e pouco eficientes organizações estatais destinadas a coibir abusos e punir o descumprimento das leis, neste caso em assuntos fiscais e orçamentários.

O conflito se instalou nas próprias instituições destinadas a resolver conflitos entre os indivíduos, suas famílias e suas empresas, e entre o os interesses públicos e privados. Essas instituições, cujos dirigentes e agentes, concursados, percebem salários garantidos vitaliciamente, com eles e demais vantagens se aposentando, sob o argumento de garantia de perenidade e neutralidade na cobrança da aplicação da lei, funcionam (ou deixam de funcionar) sob parco controle da sociedade. Juntamente com o aparato policial e carcerário, muitas vezes se arvoram ou são aclamados como paladinos de uma limpeza necessária para "passar a política a limpo", tomando por réu por princípio todo e qualquer político ou partido.

O Legislativo, que historicamente é marcado por um déficit na qualidade da representação e na competência de seus ocupantes, em boa parte por causa do absurdo fracionamento partidário e da falta de critérios dos partidos para filiar e recrutar, vem de uma eleição que, numa avaliação mais ou menos consensual, primou por oferecer cadeiras aos piores candidatos e partidos, fato confirmado pelo comportamento quotidiano e pelas falas e declarações de voto dos parlamentares em momentos cruciais. O Congresso Nacional, em suma, não tem estado à altura das exigências parlamentares e legislativas do momento, caraterizado por uma multifacetada crise, cujo enfrentamento exige estadistas.

Quanto ao Poder Executivo, é, de longe, hoje, o poder em pior situação. O que é muito grave, porque este poder, dada a sua natureza focada nas decisões rápidas e ações necessárias ao funcionamento do governo e cumprimento da maioria das funções do Estado, para mitigar os efeitos da crise e buscar caminhos para solucioná-las, é o mais diretamente responsável pela lida com os problemas sociais e econômicos ora enfrentados, de uma gravidade inusitada, porque originados em âmbitos que extrapolam o nacional.

O sistema federativo, que inclui governadores e deputados estaduais, prefeitos e vereadores no processo decisório e de implementação de políticas públicas, por sua vez, há tempos esgarçado pela inadequada partilha de recursos e responsabilidades, deverá caminhar para uma crise sem precedentes, Estados e Municípios sendo mais demandados, enquanto seus cofres estarão vazios.

É claro que "um grande acordo nacional, com Judiciário, com tudo" se faz necessário, como nunca. Mas será que para nobres finalidades e objetivos haverá partidos e políticos para articular este pacto? Será que políticos vergonhosamente oportunistas podem, em algum momento, se tornar estadistas?

Se, no país, o déficit de "estadistas" é escandaloso, o de cidadania, por outro lado, não fica longe disso. Enquanto os apodrecidos poderes já exalam odores insuportáveis, esquartejados em seus palácios, "as ruas" calam, mesmo quando gritam e batem panelas, mesmo quando, nas redes sociais, esmurram forte os lombos e fuças digitais dos poderosos do momento (os tétricos patetas), que reagem muito mais articuladamente, com suas fake news e bandeiras de ódio, mobilizadoras de frações ignorantes e raivosas da sociedade. Tudo isso sob uma moribunda imprensa que não é mais o aparato da sociedade para a formação de opinião pública e que, no Brasil, adicionalmente, revelou-se pouco afeita ao cumprimento do papel de informar e fomentar o debate, assumindo lados que em grande medida são os responsáveis pelo caos hoje vivido pelos poderes e suas relações com a sociedade civil.

Zumbis, vivos-mortos, os cidadãos comuns, o "povo", em tese soberano numa democracia, é rei morto e quase posto, incapaz de reagir às doenças, agravadas, da apatia cidadã e da anemia republicana. Fração desse povo, incapaz de aprendizado mínimo, pediu e pede, em ridículas manifestações, "intervenção militar", cega para a elementar constatação não só da indesejabilidade deste tipo de retorno, mas também da absoluta mediocridade que tomou a caserna nacional, ela que nunca foi exemplo de formação de excelentes gestores e líderes, sequer em assuntos militares, o seu ofício.

No meio da mediocridade e impotência do "debate" que ocorre (redes sociais como espaços de manifestação mais notáveis), enquanto o mundo rui e cai sobre as cabeças, lacradores pontificam, digital influencers e blogueiros arrebatam, um astrólogo ensandecido comanda, a partir dos Estados Unidos, até mesmo ministros. Ao passo que as "cabeças de valor", envaidecidas pela condição diferenciada, não cessam de salientar essa diferença, com suas sofisticadas análises políticas, econômicas, sociais, culturais, esquecendo-se que o "tempo dos intelectuais" já passou, foi o tempo dos livros, dos jornais, das bibliotecas e dos cafés com filosofia, para sempre extintos, a não ser como luxo para poucos.

Oposição, num cenário como este? Desafio para mais do que estadistas, para mais do que intelectuais e artistas muito potentes, para mais do que um povo cuja cidadania pudesse crescer sobre patamares anteriores mais elevados do que o Brasil atingiu com sua redemocratização recente.

E agora, à quase-morte da vida política nacional, acrescenta-se a ameaça de morte física de milhares e talvez milhões de brasileiros. A pandemia do Covid-19 chega com toda força e vai fragilizar ainda mais o debilitado corpo socioeconômico e político-cultural do Brasil. Não há vacina para o vírus. E tardamos a vacinar o país contra a idiotia política (no sentido grego da expressão), contra a incompetência econômico-financeira (nas empresas e na condução da política econômica), contra a banalização cultural e o declínio educacional e científico-tecnológico, contra a falta de visão e de projeto nacionais (contra o entreguismo, também) para resistir (ou até obter vantagens) frente à globalização acelerada e impiedosa e ao rearranjo geopolítico dela decorrente.

Haverá remédio para isso tudo? Ninguém sabe. Poucos estão preocupados com isso. Menos numerosos ainda são aqueles que, capazes, estão em busca desse remédio, alguns já desistindo no meio do caminho, tamanho o desalento.

Tempos difíceis para os sonhadores: sempre que fecham os olhos, o que surge são pesadelos, cada dia mais assombrosos. Difícil ficar acordado, temeroso dormir. O que escolher? Difícil encontrar resposta coletiva para esta pergunta: perdemos a capacidade de dialogar.

Não temos estado à altura dos desafios que estão postos ao nosso país, ao nosso povo, às nossas vidas quando consideradas parte de um todo, comunitário, nacional, global. Como nos colocar à altura desses desafios:. Eis a questão. A questão não é como correr atrás dos prejuízos deste desgoverno que aí está e do qual somos culpadas vítimas, neste momento. E essa questão não é para este ou aquele, mas para todos nós, conforme nossas competências, nossas responsabilidade, nossos lugares de ação.


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