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  • Foto do escritorValdemir Pires

Cronoeconomia: definição e consequências



Cronoeconomia: compreensão e explicação da passagem do tempo (dividido em unidades mensuráveis de aceitação geral – de segundos ou menos a milênios ou mais), como sequência irreversível de oportunidades de obtenção de riqueza (bens e serviços que proporcionam a satisfação de necessidades e desejos e provisão de poder de compra – dinheiro – para aquisições presentes e futuras) que devem ser otimizadas, ou seja, administradas (planejadas, dirigidas, controladas), geridas, mantidas sob coordenação para que os meios levem a que sejam atingidos os fins pré-estabelecidos. É a explicitação formal da máxima popular que afirma: “Tempo é dinheiro”.


Trata-se da subordinação de algo absolutamente imaterial, abstrato (o tempo), a uma finalidade totalmente concreta: a provisão das condições materiais de existência, esta sujeita à lei natural da escassez. Segundo esta lógica, o tempo passa ser visto e com ele se lida como um recurso – insumo para a obtenção de um produto (bem ou serviço); assim, o tempo torna-se dinheiro, exatamente porque é convertido em mercadoria (produto vendável) demandada por outro que não seu produtor; no mercado, tempos (artificialmente igualados) são trocados com a mediação do dinheiro.


Desnecessário dizer que a cronoeconomia está na base da imensa maioria das relações sociais contemporâneas mercantilizadas (familiares, educacionais, profissionais e até políticas), maculando até mesmo as relações afetivas. É ela que lança sobre a vida um véu que impede ver a inversão que tais tipos de relação promovem entre fins e meios: a busca frenética de riqueza (em condições de desigualdade entre as pessoas, sempre) torna-se a finalidade da vida de quase todos, escondendo o fato de que a finalidade da vida é viver, e que a riqueza (maior ou menor) é o meio material (apenas material) para isso. Contraditoriamente, na cronoeconomia o tempo, que é para ser vivido, converte-se em meio para se conseguir viver...


Vem daí o apelo da máxima: “Tempo é dinheiro”. Com medo de não ter dinheiro, fica-se com medo de perder tempo. Se perder tempo é perder dinheiro, não perder é ganhar. Iniciada a corrida, é não parar mais e, sobretudo, é acelerar sempre (eis a psicologia). Do contrário fica-se para trás. Aplicada a máxima aos mais pobres – a multidão – chega-se ao motor da máquina produtora de mercadorias em profusão: trocas entre desiguais (em dotações iniciais para a corrida), artificialmente igualados como detentores das mesmas necessidades materiais e do mesmo potencial para contribuir no processo de geração de bens e serviços necessários para satisfazer tais necessidades – todos donos de seu próprio tempo, cada um dando a ele o destino que quiser (mas sabendo que será punido se não transformá-lo em dinheiro).


As relações cronoeconômicas foram estabelecidas desde que se aceitou o tempo (então descoberto ou inventado) como parâmetro dos fazeres produtivos, na pré-história, adotando-se uma disciplina para eles; elas, mais tarde, passaram a ser mais do que isso: não só disciplinaram as relações de produção, como fizeram delas a base para a cooperação entre os participantes daquelas relações: quem participa (produtor) obtém parcela da riqueza produzida (consumidor) e quem não participa não obtém acesso ao consumo: “Produza ou pereça!” – mercado. E não parou por aí. Um outro passo foi dado no século XX: não basta participar do processo produtivo para acessar a condição de consumidor (necessária para não morrer de fome), é preciso fazê-lo com a máxima produtividade, ou seja, produzindo o maior volume possível de riqueza física por unidade de tempo (segundo, minuto, hora). O relógio, preciso, assume então o lugar de mando que tem até hoje, nas mãos dos que administram os processos produtivos (em sua maioria fabris), mãos essas que, por sua vez, respondem a cérebros e mentes e almas que não podem decidir por si se destoam da lógica sistêmica a que estão subordinadas: a lógica da competição entre ofertantes para conquistar demandantes potenciais.


Em poucas palavras: a cronoeconomia é o fundamento das relações mercantis, das relações de troca destinadas a prover as condições materiais de existência sob as condições (contraditórias) de colaboração e competição entre os indivíduos numa sociedade em que cada um tem que participar do processo produtivo para, por esta via, quase única, conseguir acessar uma parcela dos bens e serviços nele gerados.


É a cronoeconomia, embora ela não apareça com este nome na teoria consagrada (inicialmente economia política e depois ciência econômica), que converte o tempo, primeiro em recurso (físico – capacidade de trabalho ou habilidade de empreendimento) e, simultaneamente, em dinheiro (que passa a ser o poder de comando, por excelência, sobre as riquezas materiais, dinheiro este obtenível fundamentalmente por meio da participação nos processos de transformação dos recursos naturais que funcionam em regime de colaboração). O tempo cronometrado e vendido-comprado como substrato de toda riqueza material a ser comprada-vendida entre os (agora) agentes econômicos é que põe esses mesmos agentes em contato funcional e operacional entre si, dando origem às relações sociais de tipo capitalista. Claro fica que a mudança de mentalidade mais importante nessas relações é a que ocorre no que diz respeito ao que seja e como deva ser utilizado o tempo.


Mas, para o ser humano, o tempo é, essencialmente, o transcorrer da vida, ele materializa-se no viver. Sem vida que possa ser destinada a fazeres (que serão ora prazeres e ora desprazeres) – os produtivos entre eles – o tempo, economicamente falando, é nada e em nada pode ser convertido, muito menos em produtos trocáveis (por quem e para quê?) entre si. E este é o problema insolúvel da cronoeconomia: ela transforma a vida (além da natureza) em dinheiro; e depois fica difícil restabelecer que a vida é o fim (a finalidade) e o dinheiro é o meio (a condição para usufruir o fim), um tipo de meio historicamente inventado, aliás. E assim é de um tal modo, que mesmo aqueles que exploram os demais (extraindo mais-valia nas relações de produção, abocanhando margens excessivas nas relações comerciais, ou apossando-se de juros nas relações financeiras) o fazem sem que possam agir contrariamente ao girar das engrenagens de um sistema que obriga à busca de vantagens individuais mediante competição. Sob a cronoeconomia, ninguém manda no dinheiro a ponto de poder subverter a ordem que ele impõe aos agentes econômicos na sua relação com o tempo.


Para suportar as consequências da cronoeconomia (aliás em fase histórica que a coloca em xeque devido a uma série de disfuncionalidades dos mercados quanto às suas possibilidade de equilibrar oferta e procura, diante do desemprego estrutural crescente trazido pelas novas tecnologias poupadora de mão de obra) desenvolveu-se nas últimas décadas toda uma indústria da autoajuda (editorial e de prestação de serviços – de consultórios, de mentorias etc.) que engana com a indicação de vias alternativas que levam ao mesmo e conhecido lugar: um ponto em que o indivíduo pode (em tese) estar ao sol, cujos raios passam pelos minúsculos e cada vez menos numerosos orifícios existentes na abóbada escura que recobre a vida humana em tempos de crise estruturais como a atual. Esta indústria engana, apenas, pois não há saídas nem consolos individuais para problemas coletivos. É preciso reconhecer que existe uma abóbada escura impedindo que o sol ilumine e aqueça a todos e é necessário juntar esforços para removê-la ou, minimamente, esburacá-la em grandes dimensões, em vez de mobilizar a cada um, particularmente, em busca de minúsculas fissuras pelas quais penetram raios de luz insuficientes. É preciso reconhecer a preponderância da cronoeconomia nas relações humanas e lutar contra ela – e esta luta é coletiva, não individual. Começa por questionar o endeusamento da produtividade.



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