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  • Foto do escritorValdemir Pires

Contos completos de Lima Barreto



Sobre Contos completos de Lima Barreto, organização e introdução de Lilia Moritz SCHWARCZ (São Paulo: Companhia das Letras, 2010, 711p.).

 

            Estive viajando por alguns dias. Andei pelo Rio de Janeiro, repetidas vezes circulando pela Avenida Central, pelo Jardim Botânico e pela Rua do Ouvidor, sentando-me às mesas de choperias e confeitarias, só ou acompanhado (bem ou mal). Não foi uma viagem apenas no espaço: viajei no tempo, também. Rio de Janeiro, primeiras décadas do século XX, verdes ainda os dias da libertação dos escravos. Libertos tentando se encontrar na nova vida, lidando com as novidades urbanas; ex-senhores de escravos amarguradamente às voltas com o desmantelamento de seu principal “ativo”: os braços negros. Viajem ao lado de um descendente notável dos ex-cativos africanos: Lima Barreto.

            Viagem sobretudo ao modo de vida prevalecente na capital do país nos primórdios da República, eivado de “jeitinhos” para garantir a sobrevivência, da parte de uns (os pobres, especialmente os recém-libertos) e de espertezas para ganhar dinheiro fácil e notoriedade, da parte de outros (a classe média urbana emergente). Mergulho num mundo de salões pretensiosos, repartições públicas, bondes, carros (a tração animal) e automóveis (raros), malandros, prostitutas, bêbados, funcionários públicos “de araque”, carnaval, mediocridades avassaladoras, necessidades mínimas não atendidas, ostentações absurdamente ridículas, relações humanas espantosas...

            Viagem em companhia do mais lúcido dos loucos da literatura brasileira, eterno portador do ressentimento por nunca ter sido, em vida, reconhecido como homem de letras de estatura muito acima da média (como é, desde seu tempo até hoje, na história da literatura), em grande medida devido a preconceito racial. Não só cronista de seu tempo – permitindo que hoje o leitor retorne a ele com riqueza de detalhes – mas um dos esteios da literatura brasileira, não apenas por O triste fim de Policarpo Quaresma e pelo saboroso conto O homem que sabia javanês, mas pelo conjunto da obra, construída a duras penas ao longo de uma curta vida de misérias e obstáculos.

            A coletânea vai desde contos publicados (nem sempre com qualidade gráfica e editorial) a manuscritos existentes na Biblioteca Nacional, primorosamente organizados por Lilia Schwarcz. 476 notas de rodapé ajudam o leitor contemporâneo a localizar-se na geografia, a saber quem são pessoas citadas, a entender o significado antigo de certas expressões etc. – são um grande auxílio para recuperar aspectos hoje irreconhecíveis dos textos.

A introdução (Lima Barreto: termômetro nervoso de uma frágil República, de quase quarenta páginas), situa autor e obra no contexto histórico e discute a natureza (especialmente limitações) da literatura de Lima Barreto. Deixa na boca um gostinho amargo de relativização sociológica e também psicológica da poética deste autor “improvável”, dando a entender que é movida a ressentimento (como de fato parece ser), tornando-se em boa parte esperneio de excluído. Mas por que deveria não ser? E como seria possível que não fosse? E qual o problema dessa “sinceridade”, a posteriori? No tempo em que foi levada a cabo pelo autor, era um dos motivos para sua marginalização, numa sociedade elitista raivosa com o fim legal da escravidão; mas na história da literatura, este olhar direto e crítico lançado sobre a vida quotidiana se torna uma marca explícita que, em vez de reduzir, aumenta a estatura do escritor – a não ser que se imagine a possibilidade de a vida que se leva ser colocada à parte da obra que se escreve.

Que cada leitor tire sua conclusão, aceitando o convite de Lilian Moritz Schwarcz para viajar no tempo e no espaço em companhia da versão literária de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), fotógrafo de lugares e de almas da Cidade Maravilhosa em um de seus momentos mais vibrantes, ainda com saudades de Dom João VI, já desencantada com os militares republicanos. Cada conto é uma avenida, rua ou viela – a qualidade não é homogênea; cada um deles é um buraco de fechadura da porta que separa o leitor contemporâneo dos dias em que foi escrito – basta aproximar o olho e matar a curiosidade.

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