• Valdemir Pires

Contágio e comunicação

A natureza pandêmica da covid-19 e sua velocidade de contágio expõem a fragilidade da vida em seu aspecto biológico, explicitando, além disso, a provisoriedade das formas de colaboração e convivência no espaço urbano baseado no sistema de trocas ou mercado. Por maiores que tenham sido, até aqui, os avanços da medicina, da farmacologia e da tecnologia hospitalar, é insuficiente a capacidade humana para lidar com uma doença oportunista, que se transmite em ritmo exponencial, contra a qual barreiras físicas ou vacinais ou rápida cura com remédios acessíveis e tratamentos simples não estão disponíveis. Reduzir drasticamente o contato físico e adotar hábitos de higiene preventiva passam a ser as medidas para evitar o adoecimento e a potencial morte, certa para muitos na medida em que faltem condições de atendimento e socorro para todos que se contaminem simultaneamente. Hospitais, com seus equipamentos, remédios e equipes médicas, fazem parte de um tipo de infraestrutura urbana preparada para o atendimento de pequenas frações populacionais em sistema de revezamento: enquanto uns adoecem, outros se curam. São estruturas muito caras, destinadas a lidar com a doença, sendo esta episódica (e a saúde constante) no correr da vida e raramente simultânea para multidões.

Endemias, epidemias e pandemias são rupturas na normalidade da saúde pública. Contra elas a humanidade aprendeu a adotar protocolos e encetar ações preventivas e de socorro, mas nunca estará à altura de combatê-las sem sofrimentos e prejuízos cujas montas dependem de uma série de fatores, alguns de difícil controle. Tais protocolos e ações, contemporaneamente são operados pelo Estado, pelos governos, mais concretamente, porque são as instituições capazes de zelar pelos interesses que vão além dos privados, são instituições voltadas para a prevenção e solução de danos coletivos, são instituições que podem planejar considerando-se horizontes temporais mais longos e são instituições dotadas de recursos que podem ficar ociosos (com os decorrentes custos). Deixadas simplesmente aos cuidados das famílias e das instituições mercantis, as doenças de largo alcance e rápida contaminação dizimariam multidões de forma irreversível, seja porque o acesso aos bens necessários à cura esbarraria na incapacidade de pagamento dos mais pobres, seja porque sem uma coordenação comunicacional, organizativa e mobilizatória centralizada, governamental portanto, não ocorreriam, levando a um atabalhoamento coletivo letal.

O aspecto comunicacional do combate às doenças contagiosas de largo alcance e rápida disseminação tem se revelado, aliás, a “vacina” mais potente em situações críticas. A criação de uma “barreira comportamental” ao contágio figura entre as medidas de saúde pública mais importantes já concebidas. Ela reduz o número de vítimas e alivia os esforços curativos, que, então, podem se concentrar nos preventivos: produção de vacinas e remédios, fabricação de máquinas e equipamentos hospitalares, formulação de tratamentos e procedimentos médico-hospitalares.

Informação e conhecimento, conscientização e mobilização são os objetivos da comunicação no campo da saúde pública. Lidar com eles não é fácil, pois se trata de traduzir em linguagem simples, compreensível para o cidadão comum, conhecimentos, informações e dados de relativa complexidade científica. Além disso, conscientizar e mobilizar depende de convencimento e este não se dá somente com base na razão, na medida em que há um contingente populacional apegado a argumentos cujas fontes não passam pela lógica científica, repousando em elementos de fé, de crença, de valores (muitos deles arcaicos), de desconfianças dos mais diversos tipos, quando não de pura e simples estupidez. Quanto menos educadas as populações, mais difícil essa comunicação; da mesma forma, quanto menor a confiança dos governados em seus governos, menor a eficácia de suas mensagens.

Há dois defeitos da comunicação governamental no enfrentamento a epidemias e pandemias que têm trágicas consequências. O primeiro é o da falta de coordenação. Se os atores e agentes governamentais deixam transparecer que não seguem diretrizes e não buscam objetivos e metas únicas, comunicarão, mesmo sem intenção, que não sabem exatamente o que devem fazer ou que não estão preparados para unir de modo coeso no socorro dos governados. Abandono, descaso, incompetência são incorporados à imagem do governo. Opiniões desencontradas se amplificam, gerando, a partir do governo, dificuldades de entendimento entre os agentes privados e individuais envolvidos na solução do problema ou afetados por eles. Este tipo de incapacidade governamental será, então, responsável por uma amplitude maior das consequências da doença enfrentada.

O segundo “defeito” não se situa no interior do governo, nem está ao alcance dele solucioná-lo, devendo os gestores públicos convier com ele de modo o mais inteligente possível. Trata-se da multiplicidade de propagadores de informações e notícias que, atualmente, as tecnologias da informação e da comunicação (TICs) possibilitam. Já não é mais possível ao governo concentrar a comunicação em rádios, jornais e emissoras de tv. Com o advento da internet e das redes sociais, a comunicação se tornou mais ágil e multifacetada: todos podem “falar” ao mesmo tempo, com possibilidades de serem ouvidos. As opiniões têm, todas, o mesmo peso, não passando senão pelo crivo dos que as recebem em profusão. Também existem, agora, epidemias e pandemias de ideias! Costuma-se dizer: “O comentário de fulano viralizou.” Uma concepção totalmente equivocada e até perigosa a respeito, por exemplo, do tratamento de uma doença, pode rapidamente viralizar; uma campanha de saúde pública correta e adequada pode ser anulada rapidamente se um digital influencer de peso se opuser a ela e disparar mensagens e comentário a respeito. Facebook, Twitter e Whatsapp são ferramentas com potencial viralizante como nunca existiram, baratas, sem barreiras suficientes para conter o que possa ser indesejável, abertas a qualquer um, independente de sua capacidade cognitiva ou intenções. A fala do intelectual, do cientista, do especialista, nesse mundo da comunicação gasosa (digamos assim) rivaliza não só com a do cidadão comum, mas também com a de qualquer estúpido, cretino, imbecil, idiota, ignorante, tornando-se difícil dar ganho à racionalidade e ao conhecimento sólido, quando necessário.

O mundo das relações (inclusive políticas) líquidas é também o mundo da comunicação gasosa que, diante de uma pandemia, pode contribuir para a liquidação de um número sem precedentes de seres humanos, num momento da História que não é, como aqueles da peste negra e da gripe espanhola, de insuficiência de meios cognitivos, comunicacionais e materiais para salvar vidas, diante da doença. O déficit atual é de inteligência sensível, ou seja, inteligência pessoal e coletiva racionais e apreciadoras da vida boa, bela e justa, e que faz uso da comunicação para melhorar as relações humanas e, através delas, construir um mundo em que valha a pena viver.

Se para a covid-19 pode surgir, no horizonte de alguns meses, uma vacina e remédios que amenizem a convalescença dos infectados, para a pandemia da comunicação coletiva baseada nas interações digitais, em tempo real, entre indivíduos, grande número deles propensos à disseminação de ideias sem fundamentos e de notícias falsas (por ignorância, má fé ou interesses inconfessáveis), para esta pandemia cultural talvez não haja tratamento senão num futuro remoto. Assim sendo, indivíduos e, principalmente, governos, devem aprender a conviver com o caos comunicacional que a internet propicia, mormente naquelas circunstâncias em que as falsas informações e as ideias sem fundamento circulam com a mesma facilidade e peso que as verdadeiras e fundamentadas.

Imagem: Reprodução/NIAID-RML

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