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  • Foto do escritorValdemir Pires

A cidade-relógio



Se o galo canta na madrugada, prenunciando a chegada do dia, isso é pura reminiscência de outra era – aquela em que se vivia no campo. Se o cheiro de café, vindo da cozinha, é um carinho olfativo que ameniza o começo de uma jornada árdua lidando com a terra, isso é mera romantização de outro modo de vida – rural. Se o organismo, na realização do trabalho pesado, exaure as energias e impõe ciclos de renovação – almoço, jantar e sono – inadiáveis, iniciados muito cedo (onze horas, seis horas, nove horas, respectivamente, no máximo), para o homem citadino isso é motivo para desolação – a vida urbana ampliou o tempo para viver, aumentou a liberdade e trouxe facilidades.


O relógio biológico e os ciclos cronológicos naturais há muito perderam importância na regulação do quotidiano. Junto com esses dados “naturais”, caíram por terra também aqueles espirituais: a divisão do dia em horas canônicas, como as laudes, vésperas e completas, com as quais as atividades eram dedicadas a Deus, em agradecimento pela dádiva da vida.


A vida, tanto individual como coletiva, desde a Modernidade, segue o ritmo da cidade-relógio. Ela possui seus despertadores infalíveis, movidos por incontáveis engrenagens, que são pessoas iniciando, concluindo e abandonado ações ruidosas. Ruídos de movimentos auxiliados por máquinas de transportar (trens, navios e barcos, caminhões, carros, ônibus, metrôs, aviões), máquinas de produzir coisas (fornos, caldeiras, tornos, esteiras, gruas, betoneiras, britadeiras, tratores, coleitadeiras etc.), máquinas de alertar (apitos, buzinas, sirenes etc.), máquinas de alimentar (geladeiras, fogões, fornos, batedeiras, liquidificadores, multiprocessadores etc.), máquinas de manutenção (de varrer, lavar, podar etc.). Máquinas, máquinas, máquinas, com seus motores, e seus ruídos peculiares e inevitáveis – os sons da cidade.


Uma maquineta (o relógio-despertador) abruptamente retira os indivíduos do sono e do sonho noturnos e os coloca imediatamente em movimento; a movimentação em massa, primeiramente da casa para o trabalho, funciona como um despertador-humano-coletivo, que retira a cidade do seu sono e a faz retomar o sonho-vigília urbano de cada dia, que é a soma das lutas individuais pela sobrevivência, suportada pela ideia de que esta poderá ser mais que isso, a partir das ambições e da ganância. A mesma movimentação, no final da tarde e começo da noite, representa a volta, do trabalho para a casa; e então começa o silêncio da cidade que dorme, nunca completamente – um olho fechado, outro aberto. Noite fora, ainda ruídos, aqueles da manutenção da vida que não para e também os outros, das tentativas de vida-alegria típicas das horas artificialmente iluminadas, que só as cidades têm.


A cidade-relógio cria e regula o tempo-cidade, um tempo-modernidade cujo ritmo não é o biológico, não é o cosmológico, não é o planetário, pois é um tempo-artifício que combina a matematicidade do tempo atomicamente medido (e informado por relógios precisos como nunca antes existiram) com o tempo-desejo das mentes e almas em busca, sempre em busca, dos sonhos que a própria cidade cria, para assim levar as multidões em sua direção, ao ritmo que ela impõe, cada vez mais acelerado.


A cidade lembra todo dia, o dia todo, que a vida é curta, porque seus potenciais prazeres são ilimitados, enquanto os dias por viver são limitados e, pior que isso, interrompidos por desprazeres, a maioria inevitáveis. A cidade diz, não se sabe se sábia ou zombeteiramente: “Olhe, tudo isso está à disposição, aqui e em numerosas outras cidades mundo afora; nunca houve tanta coisa para se experimentar, nem tanta gente diferente para se conhecer, nem tantos lugares para explorar com tanta facilidade para se chegar. Basta que você corra atrás. O que está esperando? Decifra-me ou lhe devoro!”


O tempo-cidade é, de fato, um enigma: é o espaço-movimento prevalecendo sobre o tempo, sufocando-o com um ritmo-desejo dilacerante, em que as imagens e os símbolos desnorteiam o ser e embaralham os acontecimentos. É um tempo-caleidoscópio, cuja beleza demoníaca atrai para impor decepção: a imagem perseguida, uma vez alcançada, revela o simulacro que é, e então o desejante que a perseguia a busca novamente: gira o tubo do caleidoscópio, raramente dele se afastando. A cidade está ali, mas não se deixa cativar: o real é um jogo viciante, até o ponto em que o esgotamento e a frustração se impõem, como em todo tipo de vício, de que é difícil escapar, tornando-se prisão – algo contraditório no caso da cidade, símbolo da liberdade, grande promessa da Modernidade.

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