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  • Foto do escritorValdemir Pires

Camadas de tempo



Tempo e espaço são dimensões da vida humana que estão na base de sua ocorrência e organização. Cada indivíduo percebe-se vivendo em um dado lugar, ao longo de um determinado tempo. É a partir do movimento, da mudança, que o tempo é percebido. E quando se trata de mudança que deixa marcas evidentes no espaço, essa percepção é mais intensa. Voltar a uma cidade, em que se viveu durantes anos, após uma década, causa um impacto primeiramente desestabilizante.


O espaço urbano modifica-se em decorrência dos desgastes e transformações provocados pela natureza e também por conta das intervenções humanas, estas amparadas pelas técnicas que, por sua vez, também se modificam com o tempo: evoluem. Sob cada cidade jaz uma anterior, da qual restam sempre fragmentos, maiores ou menores, conforme a atenção e os recursos dedicados à preservação do patrimônio histórico.


Toda cidade existe na forma de acumulação de camadas do tempo, do tempo histórico. Isto porque a forma como é estruturada em cada momento histórico – com suas entradas e saídas, vias e espaços públicos, prédios para produção e comércio, para administração pública, para cultos e ritos, para residência, para lazer etc. – são testemunhos de um modo de vida que, com o tempo, inexoravelmente se modifica, e cada vez com maior rapidez. As cidades contemporâneas se transformam com tanta rapidez que bastam poucos anos para se tornarem estranhas a quem as deixa e demora apenas um pouco a retornar.


De suas camadas mais recuadas no tempo, a maioria das cidades guarda somente fragmentos esparsos. Naquelas em que essas camadas são mais visíveis, dada a preservação mais ampla, turistas usufruem uma agradável e esclarecedora possibilidade de volta ao passado – caso de muitos lugares da Europa, por exemplo. Em outras, como nas atuais grandes cidades globais de expansão ou profunda transformação recente, ocorre o contrário: tem-se a impressão de adentrar o futuro. Um tempo (e um modo de vida) que se foi e um tempo (e um modo de vida) que ainda está se engendrando são perceptíveis nas cidades em movimento, com suas partes “congeladas” e suas partes em processo de consolidação.


As concretas camadas do tempo histórico da cidade entram em contato com as camadas de tempo-memória do indivíduo, quando este por ela circula. E então percebe-se, em se tratando de um retorno após algum tempo, que o ambiente urbano mudou não só porque seu espaço foi alterado, mas também porque nele vivem outras pessoas, reduzindo-se o número daquelas que são conhecidas; assim como nota-se que os lugares mais frequentados ou menos frequentados são outros, que certos hábitos públicos se alteraram, que a vida é outra, enfim.


Tempo e espaço, na cidade mutante, fazem tremer o eu daquele que com eles se depara após um afastamento: é ao sentir este tremor que se pode, mais que compreender, sentir o efeito desestabilizador da passagem do tempo sobre a própria história individual. É como se uma parte do eu, frente à cidade mudada, perdesse seus contornos.


Aquele que visita uma cidade que não conheceu antes, não tem esta sensação, mas outra: a de estar mudando apenas de lugar. A não ser no caso das cidades muito antigas e preservadas ou demasiadamente futuristas – nessas, o sentimento é muito mais de movimentação no tempo que no espaço.


A beleza de as cidades serem testemunhos tanto de camadas do tempo, como do movimento incessante das coisas, dos seres e dos modos de vida, está em que são limitantes e potencializadoras das possibilidades individuais que a vida coletiva – que nelas ocorre – proporciona. Olhar para a cidade é olhar para nós mesmos (como indivíduos) no interior de uma moldura que em parte reflete o eu e em parte reflete o nós urbano que somos – tudo em movimento, tudo se transformando, cada vez mais rápido, às vezes vertiginosamente, como se o tempo fosse um liquidificador de tudo que há no espaço.




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